Perguntinha complicada

No ônibus, sentado ao lado de uma senhora de aparência humilde, ao passar pela Avenida Mauá no centro de Porto Alegre, ela olha uma enorme faixa no prédio da “ocupação Saraí” e me pergunta:
– Eles invadiram este prédio?
– Não, eles ocuparam, quando alguma coisa está desocupada, se ocupa.
– Ahhhmmm
– Invasão é quando alguém chega na sua casa, lhe coloca pra fora e fica morando lá.
– Entendi.
– É mais ou menos o que os Estados Unidos fazem com os árabes, os africanos e outros países pelo mundo, reforcei o argumento.
Ela não pareceu muito interessada no meu argumento, até me pareceu tê-lo ignorado.
Mais uns meros a frente ela, pensativa e preocupada, diz:
– E eles pagam água e luz?
Putz!!!

Não deu no rádio

– Pai, tô indo pra casa.
– Tá por onde?
– No centro
– Então não venha pela Borges, Loureiro, evite a Salgado e nem pensar a Andradas ou a Sete de Setembro.
– Por quê?
– É que tá tudo trancado por causa das manifestações.
– Tou estacionada na frente da casa de cultura e tá tudo em ordem por aqui.
Mais tarde, em casa.
– Pegou muito trânsito?
– A cidade tá vazia pai.
– Mas no rádio só se fala em trânsito, nunca se falou tanto na vida. A cidade tá um caos.
– Normal
– Sério?
– Tô te dizendo, o Lula só chega as sete.
– O Lula vem aí?
– Sim, não deu no rádio?

Vai saber… é de matar curioso

No lotação a mulher ao lado saca o celular e inicia uma conversa. Claro que eu só ouço o que ela diz.

– Oi amiga, tudo bem?

– Eu também.

– Ela tá bem?

– Humm, bom…

– Ele melhorou?

– Vocês são amigos já faz um bom tempo né?

– O que foi mesmo que aconteceu com ele?

– Ai amiga, que constrangedor…

Aí a conversa se desenrola aos resmungos e um bom tempo e aenhora só ficou no humm, affe, ixe, a fudê… até que a certa altura da viagem toma novos contornos.

– Sim, vamos hoje a tarde

– É longe sim, dez horas de vigem, fora as paradas (risos)

– Vamos a Rê, o Dê, a Mi e Eu.

– Visitar o filho da Rê que mora lá.

– É, o mais novo, o Puí, ele tem uma filha que nasceu faz pouco.

– Sim, é Gabrieli, nome de pompa, com dois éles e ipsolon no final, dizem que é linda.

(Arrumando então: Gabrielly – ninguém é adivinha).

A mulher levanta ligeiro e pede pro motorista deixá-la na esquina, a lotação já estava na esquina, ela desce correndo sem que tivesse a oportunidade de saber ao menos o rumo da viagem e que tipo de mal constrangedor foi aquele do amigo da amiga.

 

 

O calor afeta o raciocínio bilíngue

Pois a amiga Susana Rangel, em meio a este calorão intenso, perguntou se tenho “airfry” na cozinha de casa.
Respondi que tenho ventilador de teto e justifiquei:
– Ar frio só na sala e nos quartos.
– Deixa de ser bobo guri, tou falando em fritadeira elétrica.
E eu lá ia saber que ela queria fritar hambúrguer sem óleo?!

O pó dos delírios

Procurem entender a minha angustia – na madrugada estou escrevendo, com a janela aberta pro lado do mato, com o ventilador de teto na testa porque não suporto o ar refrigerado. Lá pelas tantas dou uma pausa para esvaziar o que sobrou na xícara de café preto, mais pra frio do que pra morno. Depois do último gole sinto que duas asas se manifestaram no fundo da caneca. Alguém sabe afinal, se o pó da asa da mariposa é fatal?

Por que fui perguntar? Os amigos me tiraram, atocharam todas pelas redes sociais, desde pó alucinógeno ao ataque de caganeira, ou que mata em três ou quatro dias.

Pura mentira, deveriam trabalhar pro Bolsonaro, patrocinados pelo véio da Havan, de tanto fake que inventaram.

Tou aqui, vivinho da silva. Nada de alucinógeno, só ainda um pouco alucinado com o que aconteceu.