Por pouco

 

Entrei na sorveteria naquela tarde pensando nos sabores a escolher. Logo vi um homem alterado na voz, chamando pela filha pequena. O cara era uma tora, cada braço dava uma perna, das minhas, o pescoço era a minha cintura, com folga, a testa mais parecia uma plataforma de retroescavadeira apropriada para quebrar ossos, começado pelo nariz. O tênis de cor acinzentada parecia uma sapata de sustentação de um prédio de oito andares.

Peguei a casquinha e me aprumei para recheá-la, quando ele repetiu:

– Perto do pai, fica perto do pai.

A menina veio na minha direção, agarrando a minha perna.

– Eu falei perto do pai, disse ele com uma voz ainda mais exaltada.

A menina apertou ainda mais a minha perna, que estava mais gelada do que os sorvetes no freezer.

Foi quando uma mulher se aproximou, pegou a criança pela mão dizendo:

– Vem com a mamãe, deixa o papai servir o sorvete.

O clima não ficou dos melhores já que, afinal, a mãe não deu pistas sobre quem é o pai? Era o mínimo que a clientela esperava.

Larguei a casquinha, já esmigalhada e ingressei na calçada da Rua. Disparei sem rumo, como se passasse da primeira pra quinta marcha num piscar de olhos e sem olhar para trás. Juro que senti o chão tremer às minhas costas mas, segui firme obedecendo a lei da física, aquela dos corpos em movimento e ao mesmo tempo calculando o estrago que seria caso uma patrola alcançasse o Corolla, por exemplo.

 

Se os repórteres abandonarem a árvore, Bolsonaro perde o palanque

 

Ouvi outro dia o relato de um jornalista político de Brasília falando sobre a insalubridade que é ficar debaixo de uma árvore esperando pelo Bolsonaro.

Já fomos melhores, os jornalistas nunca, em momento algum, baixaram a guarda para políticos de ocasião. Cada vomitada tóxica que sai da boca do Bolsonaro repercute na mídia e nas redes sociais como se fosse novidade. Nunca será um furo de reportagem porque as declarações são coletivas, mas são escadas para que os horrores ditos por este cara alcancem a mídia. Ele não tem argumentos e nem capacidade intelectual para se comunicar de outra forma. É o seu palanque eleitoral porque de outra forma ele não se sustentaria, foge do debate político como o diabo foge da cruz.

Bolsonaro é um farsante que se apega às palavras rasas para fulminar seus desafetos, entre os quais a imprensa que cumpre o seu papel de apurar a verdade. Aliás, ele odeia a verdade e está aí o motivo de tanta raiva dos jornalistas.

Então, o meio encontrado por ele para despachar seu ódio logo cedo foi transformar a árvore em palanque eleitoral. Depois, delirar com a reação pública, acompanhando a repercussão pelas redes sociais, sentado na privada do Palácio do Planalto, não aquela perto da biblioteca porque ele odeia cheiro de livros, mas do seu gabinete que deve ter um perfume adequado a badalhoca que produz.

O palanque que lhe resta é casualmente um símbolo que ele odeia por estar associada ao meio ambiente, mas que resiste á estupidez diária do Bolsonaro e empresta a sua sombra aos profissionais de imprensa que cumprem o seu papel de reportar os fatos.

Se os repórteres abandonarem a árvore, o trapaceiro perde o palanque.

 

Agora pode

– Pai, capitão é mais que general?

– Não filho, até chegar a general o capitão tem que ser major, acho que é  assim.

– Mas tem capitão que manda em general.

– Não filho, não tem, não pode

– E o Bolsonaro?

– O que é que tem ele?

– Tem general abaixo dele

– Bolsonaro é ex-militar

– Mas recebe como capitão, não recebe?

– Acho que recebe sim, mas ele não é mais capitão 

– Mas continua sendo chamado de capitão 

– Isso é eufemismo

– Então é por isso que você chama ele de capitão,  já chamou de mito que eu sei

– Capitão é mais autêntico

– Então você ainda o considera um capitão 

– Digamos que sim, ele é um líder, maior de todos

– Maior que general

– Evidente

– Mas você disse que capitão não pode mandar em general

– Agora pode

 

Cachinhos de ouro

Desci a Rua Dr. Flores como quem salta do trem em movimento, travando as pernas para não tropeçar nas pessoas, ainda mais com aquele chão de garoa. Ali perto uma mulher repetindo a mesma ladainha:
– Compro ouro e cabelo… compro ouro e cabelo…

Refeito eu daquele equilibrismo sem corda, passando ass mãos para ajeitar fiapos do cabelo, vi que a mulher me observava num olhar sereno, quase me pedindo em namoro. Mas o movimento dos seus lábios foi para dizer apenas:
– Compro ouro.

 

A célula que não vingou

Foi no Instituto Estadual Cecy Leite Costa de Passo Fundo, na antiga escadaria, tomada por mato, que nos idos dos anos 70 tentamos organizar uma “Célula Revolucionária de Resistência”, que consistiria em ação fulminante contra a direção do educandário que vivia em constante guerra com os insurgentes.

Nossos encontros noturnos, às escondidas, reunia meninos e meninas inconformados com as regras impostas aos alunos que fervilhavam ideias de desobediência em pleno regime de exceção, entre elas: Não podia fumar nos corredores, banheiros ou no pátio, nem dar pinga às Evangélicas ou Testemunhas de Jeová porque elas iniciavam a pregação já no primeiro gole, nem namorar e muito menos gazetear aula para pegar um jogo na TV P&B da Colorado RQ do bar da frente.

Uma noite fomos descobertos pela professora de Ciências que em questão de minutos, destruiu a nossa fórmula revolucionária num “chispam todos que a aula já começou”.

A célula abandonou as escadarias sem escalar, sequer, um degrau da rebeldia.

Mídia comparsa, povo alienado

Os senhores e senhoras da comunicação contemporizando as asneiras ditas pelo Paulo Guedes como sendo uma infelicidade do infeliz ministro. Em momento algum falam que nem o dólar a $4.35, que deveria favorecer as exportações, está resolvendo. Escondem do cidadão que houve uma queda de 40 por cento nas exportações da indústria na comparação com janeiro de 2019 (dados dia institutos de pesquisas confirmados pela Federação das Indústrias – Fiergs), que os americanos rebaixaram o Brasil e não estão comprando aqui, nem a China. Que cem mil mil empregadas domésticas custam menos que o cartão corporativo do Bolsonaro. Enfim, por que será que temos um povo alienado, que segue a tropa sem se importar com o abismo?

As velhinhas francesas queriam o meu mate

“laisse tomber le thé”

Foi lá pelos meados de 90 que eu fotografava, com uma Nikon, alguns iates de luxo ancorados em Saint Tropez na Rivera Francesa, tomando um chimarrão.

Um grupo de senhoras com seus cachorrinhos, se aproximou para saber o que eu bebia, (não lembro bem, mas posso assegurar que a Brigitte Bardot figurava entre elas).

Numa mistura de vários idiomas, expliquei que se tratava de tea brasilian, ou thé, ou chá, ou mate, ou chimas, enfim, de um jeito ou de outro elas entenderam.

Eis que uma das simpáticas francesinhas da terceira idade, pediu para tirar uma foto ao meu lado, o que prontamente foi atendida. Aí veio outra, outra e mais outra.

Uma das últimas senhorinhas, com o rosto um tanto desfigurado por causa da maquiagem exposta ao calor do mediterrâneo, derretendo e descendo pelas laterais de orelha a orelha, além dos lábios exageradamente pintados de cereja, pediu a cuia e fez menção de levar a bomba à boca.

Prevendo a lambuzeira bomba abaixo, descendo até a erva, tentei interromper o movimento que ela fazia mas, sem conseguir salvar o mate e raciocinar uma frase em francês ao mesmo tempo, apenas gritei:
“No Boté la Bombê en la Boqué”.
Se ela entendeu eu não sei, mas que largou, largou.