O cronista e suas fases

O fino da crônica está no espaço e no tempo em que ela ocorre. O cronista precisa ver uma cena, vivenciar um fato, ouvir, sentir, cheirar, criar e escrever com leveza, ironia e sensibilidade. O cronista que não anda nas ruas, não pega ônibus, não vai ao mercado público e não conversa com o taxista, o barbeiro, o engraxate, não pode ter a dimensão dos fatos. O cronista é aquele que está fora da cena, fora da noticia, fora do salão de baile. Ele não precisa anotar nada nem fotografar a briga de trânsito, ele só precisa ter a dimensão da história e associar os fatos. O cronista não tem lado, tem unhas e dentes afiados, uma língua envenenada, um texto mortal. É dever do cronista se acomodar num bar ou no café da padaria e ficar ouvindo o as conversas ao redor da sua mesa. A vida alheia é o fertilizante da memória para produzir histórias. O cronista é um observador, é o que não se envolve, é o que fica de longe contemplando o movimento, é o popular. É o fio condutor que se mantém neutro e não protege ninguém.

Fora isso, ele não passa de um fascinado que se impressiona quando se depara com a realidade dos fatos e sai relatando para o mundo o chão que pisa, depois, retorna a fraude do seu descaminho.

 

Um museu do pão bem perto da gente

Se você perguntar ao Google quantos museus do pão existe no mundo, de cara ele vai direcionar para o da freguesia de Seia em Portugal. Mas olhando bem e correndo a tela, ainda na primeira página, aparece o museu do pão do município de Ilópolis no Rio Grande do Sul. O de Seia eu não conheço, embora tenha passado por ele duas vezes, uma subindo e outra descendo a Serra da Estrela, degustando queijos de ovelha numa tarde de intensa nevasca.

Já o museu do pão de Ilópolis eu conheci quase que por acaso. Conversando com a Béi da floricultura que também é vereadora, relatou com entusiasmo a atração do lugar, uma preciosidade guardada na cidade, que eu ouvia falar mas não sabia que ficava lá.

– O museu do pão é aqui?

– Sim, depois da praça pega a direita, anda duas quadras, na esquina.

moinho 3

Um moinho, construído em 1930 pelo carpinteiro Garibaldi Bertuol, era movido a vapor e todo o maquinário está lá. O curioso é que a menina que guia os visitantes jurou que o equipamento ainda funcionam.

moinho 1

Ao ver o bom estado de conservação eu não titubeei e mesmo sem a pedra mó em movimento, posso atestar que ela está falando a verdade.

moinho 2 Afinal eu me criei, quando criança, moendo quirera num moinho na cidade de Colorado, o que me atesta um certo pedigree de conhecimento.

museu do pão 2       Museu do pao 1

O museu, instalado no antigo depósito de grãos da  moenda, oferece um passeio, por meio de maquinários e assessórios, desde o plantio do trigo ou do milho até o pão chegar na mesa.

OFICINA: Todas as sextas feiras pela manhã tem curso de panificação, de graça.

museu do pçao 3

Da próxima vez vou mais cedo para tomar o meu café da manhã com um pão feito a capricho com as minhas próprias mãos.

É preciso madrugar porque Ilópolis fica a quase 200 quilômetros de Porto Alegre, ou dormir por lá.

ROSA DOS VENTOS: Um detalhe, você anda pela cidade ouvindo música ao longe que se espalha em todas as direções. São louvores transmitidos pelos alto-falantes da igreja Matriz. Sim, em Ilópolis sobrevive a voz do poste.

A Nova Geração de poetas e compositores de Passo Fundo

Avançavam os anos 70, regime militar em alta e os festivais de músicas de protestos se espalhavam pelo país. Em Passo Fundo não era diferente e o Festival Estudantil da Música Popular – FEMPO era a oportunidade para revelar novos talentos como Jussara Gomez, Maria Margareth Lins Rossal Marga Rossal e tantos outros. Suas letras e músicas eram imbatíveis, como também eram imbatíveis as letras do Ubiratan Porto, idealizador do “Grupo Literário Nova Geração”, que reunia poetas, trovadores, escritores, letristas, compositores. Ao lado do Paulo Monteiro, formamos um trio de bons e quase que inseparáveis amigos. A aproximação só foi desfeita quando o Ubiratan concluiu a faculdade de direito na UPF e retornou para Porto Alegre. Depois disso nos encontramos raras vezes. Refugiado na praia de Capão da Canoa, litoral gaúcho, partiu deste mundo faz quatro anos.
Num destes festivais estudantis, para me vingar de uma conhecida que havia me esnobado, resolvi responder em versos a indelicadeza daquela malcriada.

Encontrei o Ubiratan no “chatô”, era como chamávamos a quitinete que ele alugava na Rua Morom no centro da cidade. Mostrei a letra para ele e disse que a noite levaria para a Escola de Samba Bom Sucesso colocar a música. O Bira de imediato disse que me acompanhava, ele não perderia nunca uma roda de samba. O terreiro da escola ficava no bairro Boqueirão, perto do estádio do Esporte Clube Gaúcho. Precisava descer um barranco até chegar à casa do Eucalião, músico e líder da escola, nos fundos dela é que ficava a quadra de ensaios. No horário marcado chegamos lá, já era noite e estava um breu. Descemos tateando até o quintal e batemos palma para anunciar a chegada despertando a fúria de dois enormes cães que avançaram feito leões na savana. Já com um pouco de luz refletindo de um poste no pátio da casa, corremos em direção a duas árvores e tratamos de subir o mais rápido possível. O Bira num pé de pera e eu num pé de laranja de umbigo. A diferença é que o pé de pera não tem espinhos. Espetado até as orelhas senti um golpe no traseiro. Lá se foi o bolso da minha calça Jeans levado pelos caninos do canino. Aos gritos de “sai cachorrada”, por parte dos donos da casa, eles se afastaram. Trêmulos, feito vara verde, descemos das árvores para sermos acolhidos com pedidos de desculpas e preocupação.

Depois do susto que quase nos fez esquecer o motivo pelo qual estávamos ali, tratei de puxar a letra do samba do bolso, o mesmo bolso que fora levado pelo cachorro. Procuramos pelo pátio e só encontramos fragmentos da letra.

– Ele comeu o samba, disse o Charão, outro músico que trazia nas mãos uma pequena estrofe onde se lia a palavra “uma estrela caindo é superstição”, o resto borrado pela baba.

Precisei reescrever a letra que já nem mais lembrava direito como tinha feito. O Bira tinha uma memória de elefante e lembrava algumas partes. Assim fomos recompondo o samba e o susto.

O causo do casal do pau oco de Colorado

Árvores podem viver eternidade, comparadas à idade humana. Um jequitibá-rosa de Santa Rita de Passa-Quatro, São Paulo, por exemplo, tem mais de três mil anos e é a árvore mais velha catalogada no Brasil.

Mas no município de Colorado, bem na região do planalto gaúcho uma árvore não tão frondosa e nem tão antiga como o velho Jequitibá se tornou famosa por ter amparado o casal do pau oco em seu tronco sem a pretensão de entrar para a história.

Reza o falatório que foi o olho clínico do escultor com inclinação ao barroco, Luiz Damiani, que percorrendo as terras da família, deparou-se com dois grandes nós no tronco de uma árvore oca, de madeira morta e desfolhada. Raciocínio rápido, não perdeu a oportunidade de colocar em prática a sua criatividade. Munido de martelo e talhadeira deu asas à imaginação. Dos entalhes surgiram um homem e uma mulher que pareciam conversar num local nada convencional. Ele não calculava, no entanto, as proporções que a sua criação artística tomaria daquele dia em diante.

Na mesma época, lá pelos idos dos anos 60, corria na cidade um boato sobre o sumiço de um casal de namorados cujos pais não aprovavam a união. Anoiteceram e não amanheceram no povoado. As suspeitas recorrentes eram as de que eles tinham se retirado para um lugar secreto para dar um fim às suas vidas, numa jura de amor eterno, além da vida terrestre. Soube-se depois que eles fugiram para o Mato Grosso na busca da paz e da felicidade, vivendo felizes para sempre.

O seu Bigio, um lenhador negro que carregava nas costas um saco enorme, cheio de quinquilharias e que botava medo nas crianças, costumava cortar o caminho de casa usando a trilha do mato de onde ele já havia sacrificado centenas de árvores e que conhecia como a palma da mão. Mas naquele dia ele ouviu na cidade que a alma do casal desaparecido andava assombrando o povoado. Enquanto avançava entre as arvores, mascando fumo em rama e loco para chegar em casa e se jogar na cama, ia matutando sobre as histórias que ouviu no armazém. Gostava de exagerar na cachaça e naquele dia não foi diferente. Achava que aquela era uma história bizarra, mentira das grandes.

– Desde quando se viu fantasma por aqui, eles não existem e se existem é causo pra assustar bobo, pregar peça em quem tem medo. Ia pensando em voz alta.

Bigio se considerava um valentão, afinal, botava medo na gurizada, gostava de trago e tabaco, e ainda por cima era um demolidor das matas. Não era de graça que seu sobrenome era Machado.

Mais alguns passos, a visão dele se esbugalhou, os olhos saltaram, o saco de estopa voou pelos ares e o descrente tomou o caminho contrário de onde vinha, pros rumos do campo aberto. Corria feito boi desgovernado, se enroscou numa cerca de arame farpado antes de avançar numa plantação de milho. Tropeçou em morangas e abóboras, rolou mais do que correu e abriu uma trilha no milharal. Só parou nos fundos de uma serraria onde se jogou com a roupa esfarrapada debaixo da bica que movia a roda d’água que por sua vez acionava as engrenagens da serra mestra do engenho de madeira. Achou que o banho frio o despertaria do pesadelo, de um sonho que não aconteceu.

Mais tarde contou toda a verdade sob o olhar desconfiado dos marceneiros que não acreditaram na história. Naquela noite, por motivos alheios, arrepiado de medo, ele dormiu por lá, num cochão de serragem, prometendo a si mesmo que nunca mais beberia uma única gota de álcool. Tornou-se abstêmio, até a morte.

No dia seguinte um guri, sem saber da história, percorria a mata assoviando feito pintassilgo, com o bodoque engatilhado, pronto para abater, caso atravessasse, uma rolinha gorda e distraída, que seria o almoço do dia. Por perto também estava o artista, contemplando a sua obra. Ao ver que o amigo se aproximava, tratou de se esconder no tronco para lhe dar um susto, coisa comum entre a criançada do interior e em seguida disparou um diálogo áspero. Do nada, gritos estranhos e inesperados romperam o silêncio da mata, afugentaram os pássaros, coelhos, pacas e ratões e, claro o amigo que disparou entre as árvores num emaranhado de cipós, pata de vaca e unhas de gato. Foi grito por toda parte, o artista imitando um casal brigado e o guri aos berros abrindo caminho no emaranhado de plantas achando que o casal, que viu de relance, eram fantasmas que alcançavam seus calcanhares. Todo arranhado rompeu a casa mais próxima, feito um raio. Levou um bom tempo para tomar fôlego e relatar o que acabara de ver. Logo chegou o artista com cara de inocente, mas ao notar que o coração do amigo estava prestes a sair pela boca, resolveu se desculpar e falar a verdade.

Mesmo assim, ao retornar para casa ele não mais tomou o caminho do mato, traçou um novo rumo, fazendo uma longa volta pela estrada. Não queria novas surpresas, nem novas emoções, nem mesmo novas aventuras. O susto bastou para deixá-lo desconfiado, podia não acreditar em assombração, mas vai que elas existem? Enfim, “Yo no creo em brujas, pero que las hay, las hay”

Foto do criador e suas criaturas para provar que o causo tem procedência e foi documentado

Luiz Damiani

Androvaldo e Quaresma – O suborno na sala dos espelhos

 

– Eu não tô a fim de pegar o pato sozinho, dizia o Androvaldo no salão dos espelhos, quase vazio.

Ele estava por todos os lados e falava consigo mesmo. Os espelhos da direita mostravam um Androvaldo tenso xingando a mãe do padre. Os da esquerda um Androvaldo sincero e disposto a ir até o fim com aquele desafio em que se meteu. Às costas estava Aquiles, um garçom de terno preto, camisa clara e gravata borboleta vermelha, trazia uma bandeja na mão esquerda sem copo ou comanda, abraçado ao Quaresma, um pato branco de bico amarelo-laranja, um marreco de Pequim, mas para os apostadores era um pato, um prato cheio para a platéia que se alvoroçava atrás dos espelhos.

O clube dos vidraceiros tinha como casa de apostas o salão dos espelhos, um octógono em forma de arena de onde era possível acompanhar competições como a mais nova modalidade: Largar o pato no picadeiro, sair em perseguição calçando meias de lã sobre a plataforma de tabuão coberta de cera. A pequena vantagem do pato é que ele voa, mas Androvaldo, bailarino da escolinha de artes cênicas, queria manter-se em pé, deslizando na pista como encenava o Lago dos Cisnes, na direção do pato.

Dada a largada o garçom lançou o Quaresma feito boliche mirando o meio do salão. Androvaldo partiu acrobaticamente usando um pé, depois o outro como se deslizasse sobre numa pista de gelo. A regra era não encostar sequer um fio de cabelo nos espelhos. Quaresma bateu asas e foi para um lado. Depois de passar lotado, fazer uma pirueta e um sit-spin perfeito, Androvaldo quase encostou o traseiro num dos espelhos. Voltou à carga, mas desta vez fazendo um zig-zag para confundir Quaresma que tentou voar em direção aos demais patos, nada mais do que sua imagem multiplicada nos espelhos.

Quaresma procurava os cantos o que dificultava o campo de ação de Androvaldo que a esta altura já maquinava uma saída maquiavélica para garantir o dinheiro das apostas do clube dos vidraceiros. Realimentando a idéia inicial de que não pegaria o pato sozinho, resolveu que usaria um laranja para consumar o fato. Afinal em toda a falcatrua sempre tem um laranja. Notou que e não seria difícil encontrar um, já que o garçom que ali estava vivia de gorjetas e por certo não recusaria uma propina, mesmo que viesse em forma de suborno.

Era um show de sincronia na pista até que o pato passou a demonstrar sinais de cansaço. Era a hora de agir, mas o pato era esperto e usou Aquiles como escudo, posicionando-se junto aos seus calcanhares. Afinal, Aquiles era seu dono e o criara desde que, talvez por descuido, foi chocado por uma galinha. Não guardava rancores por ter sido abandonado pelos pais ainda na casca do ovo.

Armou-se a grande oportunidade e sem perda de tempo, Androvaldo partiu na direção do pato e do garçom, num footwork perfeito, aplicando uma rasteira nos calcanhares de Aquiles que em milésimos de segundos desabou sem dó nem piedade sobre o coitado do Quaresma que mal pode fazer quá!!!

Era o fim de uma luta onde o pobre do pato, amassado e excluído, levara um golpe traiçoeiro e, como sempre, fora das regras do jogo.  Aquiles pegou o pato para Androvaldo que ficou com o dinheiro das apostas. O coitado do Quaresma pagou o pato.

Enquanto ainda cambaleava na pista juntando suas penas, o apostador contribuinte protestava o dinheiro pago para assistir à roubalheira. Perto dali Androvaldo colocava uma “ajudinha” no bolso do garçom e outra na mão do juiz… sim, havia um juiz para aplicar as regras.