A Nova Geração de poetas e compositores de Passo Fundo

Avançavam os anos 70, regime militar em alta e os festivais de músicas de protestos se espalhavam pelo país. Em Passo Fundo não era diferente e o Festival Estudantil da Música Popular – FEMPO era a oportunidade para revelar novos talentos como Jussara Gomez, Maria Margareth Lins Rossal Marga Rossal e tantos outros. Suas letras e músicas eram imbatíveis, como também eram imbatíveis as letras do Ubiratan Porto, idealizador do “Grupo Literário Nova Geração”, que reunia poetas, trovadores, escritores, letristas, compositores. Ao lado do Paulo Monteiro, formamos um trio de bons e quase que inseparáveis amigos. A aproximação só foi desfeita quando o Ubiratan concluiu a faculdade de direito na UPF e retornou para Porto Alegre. Depois disso nos encontramos raras vezes. Refugiado na praia de Capão da Canoa, litoral gaúcho, partiu deste mundo faz quatro anos.
Num destes festivais estudantis, para me vingar de uma conhecida que havia me esnobado, resolvi responder em versos a indelicadeza daquela malcriada.

Encontrei o Ubiratan no “chatô”, era como chamávamos a quitinete que ele alugava na Rua Morom no centro da cidade. Mostrei a letra para ele e disse que a noite levaria para a Escola de Samba Bom Sucesso colocar a música. O Bira de imediato disse que me acompanhava, ele não perderia nunca uma roda de samba. O terreiro da escola ficava no bairro Boqueirão, perto do estádio do Esporte Clube Gaúcho. Precisava descer um barranco até chegar à casa do Eucalião, músico e líder da escola, nos fundos dela é que ficava a quadra de ensaios. No horário marcado chegamos lá, já era noite e estava um breu. Descemos tateando até o quintal e batemos palma para anunciar a chegada despertando a fúria de dois enormes cães que avançaram feito leões na savana. Já com um pouco de luz refletindo de um poste no pátio da casa, corremos em direção a duas árvores e tratamos de subir o mais rápido possível. O Bira num pé de pera e eu num pé de laranja de umbigo. A diferença é que o pé de pera não tem espinhos. Espetado até as orelhas senti um golpe no traseiro. Lá se foi o bolso da minha calça Jeans levado pelos caninos do canino. Aos gritos de “sai cachorrada”, por parte dos donos da casa, eles se afastaram. Trêmulos, feito vara verde, descemos das árvores para sermos acolhidos com pedidos de desculpas e preocupação.

Depois do susto que quase nos fez esquecer o motivo pelo qual estávamos ali, tratei de puxar a letra do samba do bolso, o mesmo bolso que fora levado pelo cachorro. Procuramos pelo pátio e só encontramos fragmentos da letra.

– Ele comeu o samba, disse o Charão, outro músico que trazia nas mãos uma pequena estrofe onde se lia a palavra “uma estrela caindo é superstição”, o resto borrado pela baba.

Precisei reescrever a letra que já nem mais lembrava direito como tinha feito. O Bira tinha uma memória de elefante e lembrava algumas partes. Assim fomos recompondo o samba e o susto.

O causo do casal do pau oco de Colorado

Árvores podem viver eternidade, comparadas à idade humana. Um jequitibá-rosa de Santa Rita de Passa-Quatro, São Paulo, por exemplo, tem mais de três mil anos e é a árvore mais velha catalogada no Brasil.

Mas no município de Colorado, bem na região do planalto gaúcho uma árvore não tão frondosa e nem tão antiga como o velho Jequitibá se tornou famosa por ter amparado o casal do pau oco em seu tronco sem a pretensão de entrar para a história.

Reza o falatório que foi o olho clínico do escultor com inclinação ao barroco, Luiz Damiani, que percorrendo as terras da família, deparou-se com dois grandes nós no tronco de uma árvore oca, de madeira morta e desfolhada. Raciocínio rápido, não perdeu a oportunidade de colocar em prática a sua criatividade. Munido de martelo e talhadeira deu asas à imaginação. Dos entalhes surgiram um homem e uma mulher que pareciam conversar num local nada convencional. Ele não calculava, no entanto, as proporções que a sua criação artística tomaria daquele dia em diante.

Na mesma época, lá pelos idos dos anos 60, corria na cidade um boato sobre o sumiço de um casal de namorados cujos pais não aprovavam a união. Anoiteceram e não amanheceram no povoado. As suspeitas recorrentes eram as de que eles tinham se retirado para um lugar secreto para dar um fim às suas vidas, numa jura de amor eterno, além da vida terrestre. Soube-se depois que eles fugiram para o Mato Grosso na busca da paz e da felicidade, vivendo felizes para sempre.

O seu Bigio, um lenhador negro que carregava nas costas um saco enorme, cheio de quinquilharias e que botava medo nas crianças, costumava cortar o caminho de casa usando a trilha do mato de onde ele já havia sacrificado centenas de árvores e que conhecia como a palma da mão. Mas naquele dia ele ouviu na cidade que a alma do casal desaparecido andava assombrando o povoado. Enquanto avançava entre as arvores, mascando fumo em rama e loco para chegar em casa e se jogar na cama, ia matutando sobre as histórias que ouviu no armazém. Gostava de exagerar na cachaça e naquele dia não foi diferente. Achava que aquela era uma história bizarra, mentira das grandes.

– Desde quando se viu fantasma por aqui, eles não existem e se existem é causo pra assustar bobo, pregar peça em quem tem medo. Ia pensando em voz alta.

Bigio se considerava um valentão, afinal, botava medo na gurizada, gostava de trago e tabaco, e ainda por cima era um demolidor das matas. Não era de graça que seu sobrenome era Machado.

Mais alguns passos, a visão dele se esbugalhou, os olhos saltaram, o saco de estopa voou pelos ares e o descrente tomou o caminho contrário de onde vinha, pros rumos do campo aberto. Corria feito boi desgovernado, se enroscou numa cerca de arame farpado antes de avançar numa plantação de milho. Tropeçou em morangas e abóboras, rolou mais do que correu e abriu uma trilha no milharal. Só parou nos fundos de uma serraria onde se jogou com a roupa esfarrapada debaixo da bica que movia a roda d’água que por sua vez acionava as engrenagens da serra mestra do engenho de madeira. Achou que o banho frio o despertaria do pesadelo, de um sonho que não aconteceu.

Mais tarde contou toda a verdade sob o olhar desconfiado dos marceneiros que não acreditaram na história. Naquela noite, por motivos alheios, arrepiado de medo, ele dormiu por lá, num cochão de serragem, prometendo a si mesmo que nunca mais beberia uma única gota de álcool. Tornou-se abstêmio, até a morte.

No dia seguinte um guri, sem saber da história, percorria a mata assoviando feito pintassilgo, com o bodoque engatilhado, pronto para abater, caso atravessasse, uma rolinha gorda e distraída, que seria o almoço do dia. Por perto também estava o artista, contemplando a sua obra. Ao ver que o amigo se aproximava, tratou de se esconder no tronco para lhe dar um susto, coisa comum entre a criançada do interior e em seguida disparou um diálogo áspero. Do nada, gritos estranhos e inesperados romperam o silêncio da mata, afugentaram os pássaros, coelhos, pacas e ratões e, claro o amigo que disparou entre as árvores num emaranhado de cipós, pata de vaca e unhas de gato. Foi grito por toda parte, o artista imitando um casal brigado e o guri aos berros abrindo caminho no emaranhado de plantas achando que o casal, que viu de relance, eram fantasmas que alcançavam seus calcanhares. Todo arranhado rompeu a casa mais próxima, feito um raio. Levou um bom tempo para tomar fôlego e relatar o que acabara de ver. Logo chegou o artista com cara de inocente, mas ao notar que o coração do amigo estava prestes a sair pela boca, resolveu se desculpar e falar a verdade.

Mesmo assim, ao retornar para casa ele não mais tomou o caminho do mato, traçou um novo rumo, fazendo uma longa volta pela estrada. Não queria novas surpresas, nem novas emoções, nem mesmo novas aventuras. O susto bastou para deixá-lo desconfiado, podia não acreditar em assombração, mas vai que elas existem? Enfim, “Yo no creo em brujas, pero que las hay, las hay”

Foto do criador e suas criaturas para provar que o causo tem procedência e foi documentado

Luiz Damiani