A penitência que virou moda

 

Como qualquer criança da minha idade, lá pelos sete ou oito anos, vivendo no interior, também fui um guri arteiro. Na falta de opções a gente sempre achava o que fazer muito embora contrariasse as regras dos adultos.

Certo dia de verão, depois de uma briguinha de rua que evoluiu para socos e pontapés, fui me esconder na gruta até aliviar a ira da minha mãe que não admitia filho brigando por aí. A gruta que até hoje existe, era úmida, embalada ao som de uma vertente de água que atraía os andarilhos a caminho da cidade, paravam ali para matar a sede. Alguns levados pelo sossego do lugar aproveitavam para fazer uma oração a santa Lourdes e uns até contavam seus pecados. Naquela tarde ouvi confissões e só não estipulei penitência porque me encontrava em situação clandestina, escondido atrás da santa

Mais tarde, quando calculei que a ira da mãe havia passado saltei de cima do altar da gruta para pegar a estrada e retornar pra casa mas, uma pedra pontuda quase me deixa nu. O calção cinza feito com um corte de saco de pano de açúcar cristal foi contemplado com um rasgo que ia do meio da coxa até a cintura. Não fosse a peça de elástico que segurava o calção eu teria problemas para sair da gruta a caminho de casa. Fui embora segurando o rasgo com a mão direita, camuflado em macegas e plantações de milho e soja.

Mais tarde a mãe retornou da lavoura, esperei que ela descansasse a enxada e se desfizesse do cesto da colheita e antes do sermão, me adiantei para pedir desculpas e mostrar para ela o calção em trapos.

Foi então que ela me disse:

– Isso é castigo por tudo aquilo que você anda fazendo, é pra pagar teus pecados.

Hoje quando vejo gente na rua com calças de joelhos, pernas e bunda rasgadas, me faz viajar a memória para a velha gruta e as palavras da dona Ilga. Eles jamais vão imaginar que, para mim, aquela roupa é uma penitência para pagar seus pecados e que, quanto mais rasgos, maior é a pena.

Sim, a penitência como castigo do pecado virou moda. Tenha a santa paciência.

 

O MEC do Messias

 

O pai, sr. Brasil, entra no quarto e se depara com a filha devorando um Kama Sutra. Quase ignorando a sua presença ela continua lendo e observando as posições.
 
Num impulso messiano o pai arranca o livro das mãos da menina aos gritos de – Pouca vergonha!
 
Ameaça jogá-lo pela janela quando é interrompido, calmamente, pela filha que diz:
 
– Estou estudando, pai.
 
– O quêêêê… Estudando esta imoralidade, esta safadeza? Não sei por que não te quebro ao meio sua…
 
– Olha com o que vai dizer…
 
– Sua desajustada
 
– Ah, melhor
 
– E ainda tá me tirando?
 
– Posso explicar?
 
– Nada vai me convencer
 
– Pai, leituras, filmes e revistas eróticas fazem parte novo currículo escolar, educação sexual, sexualidade, sacou?
 
– Sacou porra nenhuma, ficou louca, bebeu, fumou? Parece alucinada.
 
– Tou te falando que é o currículo.
 
– Não queira me enrolar, inventa outra história, te peguei no flagra com esta… esta…
 
– É melhor deixar pra lá e acreditar em mim, sério, é a nova realidade da escola.
 
– Mas nem que a vaca tussa, vou já trocar você de colégio e tá proibida de pisar lá a partir de agora.
 
– Mas pai…
 
– Mais um ai e vou te encher de porrada!
 
Pensou melhor e resolveu anunciar a sentença da filha ali mesmo:
 
– Vou colocar você na escola do Júnior, séria e educadora, não quero filha puta, vagabunda, depravada…
 
Visívelmente transtornado, aos berros, sai do quarto com um Kama Sutra debaixo do braço e quase o coração sai pela goela ao ver, em cima da escrivaninha, uma edição da G Magazine. Dá de mão na revista e sai do quarto chamando Joana, a empregada.
 
– Fica de olho na Kathyanne, não deixa que ela saia do quarto e nem pensar em sair pra rua.
 
Tenta insistentemente ligar para a mulher que está no salão de beleza fazendo cabelo, pé e mão para o encontro de casais da TFP à noite. Leva algum tempo para atender, deixando Brasil impaciente até que enfim:
 
– Joyce, vem já pra casa, peguei a Kathy mergulhada em livros e revistas de pornografia, uma pouca vergonha o que tá acontecendo nesta casa.
 
Minutos depois Joyce rompe a porta de casa, ainda com um bob’s no cabelo. Júnior também chega da aula, quase ao mesmo tempo. O pai pede pra Joana chamar a filha no quarto e inicia uma inquisição na sala de jantar.
 
– Depois de muitos palavrões, batidas na mesa, chute nas cadeiras e ameaças de fechar a escola para sempre e denunciar tudo para presidente da nação, é interrompido pelo filho.
 
– Mas pai, lá na minha escola também é assim.
 
– Como assim, essa putaria toda?
 
– Sim pai acabei de ver um filme do ministro, sadomasoquismo puro, homem com homem, direto, o ministro inclusive, no papel principal, vestido de noiva.
 
– Do que você tá falando pirralho desgraçado, que ministro é este?
 
– O Frota pai.
 
– Que Frota? Caralho!
 
– O Alexandre Frota, ministro da Cultura, tou virando fã dele, ele traça tudo o cara é de fudê.
 
– CHEGA!!!
 
– Mas pai agora é praxe estudar a vida dele, a professora disse que são ordens de Brasília.
 
O pai acusa o golpe, sente que perdeu o controle da casa, o sangue sobe de um jeito incontrolado, o pai tem um chilique, vira os olhos, amolece o corpo e desaba no carpete.
 
Enquanto a empregada chama a ambulância, Joyce sacode o marido aos gritos de:
 
– Acorda Brasil… acorda!!!
Crônica: Flávio Damiani
Arte: Daniel Cruz

 

Metáforas

O grilo falante esqueceu de avisar o pequeno gafanhoto que o que se combina em casa não se fala na Rua. Quando lembrou já era tarde, o estrago já estava a caminho. Mexeu com as aranhas justiceiras deixando-as em alerta. Suas teias foram reforçadas formando uma rede de desconfiança. Elas são quietas, unidas e corporativas.

O grilo, por sua vez já havia reclamado das cigarras por não gostar da sua forma de comunicação com os outros insetos. Prometeu cortar regalias e foi ao bispo para negociar o desmatamento químico do átrio em todas as igrejas onde vivem as cigarras transformando-as num envenenado jantar do formigueiro.

Mas as formigas não se contentam mais com cigarras, afinal, elas são trabalhadoras e compram comida, armazenam em suas amplas dispensas e preparam os melhores pratos feitos com os eletrodomésticos que conseguiram comprar graças aos programas sociais do molusco.

As formigas, no entanto, nunca tiveram uma boa relação com o grilo, elas são trabalhadoras e ele fala demais. Um por se posicionar favor da retirada das conquistas da categoria trabalhadora da qual as formigas são as legitimas representantes, outra pelo seu cego desejo de esmagá-las pisando seus carreiros.

As formigas também estão quietas, elas não são corporativas, mas são cooperativas e educadas por terem acesso às escolas. Também não tem força nas pesquisas porque a pesquisa raramente vai a periferia.

Memórias de um sacristão proscrito

 

Lá se vai meio século quando, no dia do aniversário da dona Ilga, fui excluido da sacristia pela simples razão de trocar as bebidas do altar. Havia na frigideire da casa canônica, uma garrafa de cachaça Marumby, junto com as de vinho que, por ocuparem espaço menor do que um garrafão, era colocado em garrafas com rótulos de bebidas variadas, desde a gasosa às cervejas, e claro, a cachaça. Era onde abastecíamos os pequenos cristais, galheteiros para a eucaristia. No lusco-fusco, dei de mão na primeira garrafa que se apresentou. Era a maldita da cachaça. Sem prestar o mínimo de atenção e ao menos desconfiar da presença da intrusa, completei o vinho que restava no reservatório.

Foi numa noite de sábado, minha mãe não costumava ir á missa, nem no dia do seu aniversário. Ficou em casa preparando um jantar de carnes e massas e eu mal podia esperar a hora de chegar para comemorar com a família e mesa farta os seus 44 anos.

Vestido de coroinha, uma batina vermelha e uma túnica branca – sobrepeliz, eu estava concentrado ao lado do altar. Enquanto o monsenhor rezava a missa eu tentava entender a desavença que tive a tarde numa disputa de bolitas, modalidade três covinhas, no pátio do colégio. Perdi um único e raro baletão com o desenho das Três Marias e o Cruzeiros do Sul, o mais cobiçado. Desconfiei da trapaça, o mindinho de um pé desviou a leiteira que lancei com precisão, mas que beirou e não caiu na caçapa. Foi uma armadilha, pensei, e já estava prestes a sair dali para desafiar os inimigos e declarar uma guerra de taquaras, sem precedentes, quando ouvi protestos do sacerdote em meio a celebração. Freiras agitadas na sacristia, a missa parou na eucaristia.

– O vinho virou cachaça, disse a irmã Terezinha

– Milagre, alguém gritou lá de fora

– O Monsenhor tá furioso, parou a missa, disse dona Carlota

– É coisa do demônio, falou o coletor de esmolas

– Quem foi que abasteceu o altar? Perguntou a irmã Zoé

Os olhos se voltaram para o sacristão, já sem as vestes de coroinha e como um raio abandonou o local vestindo bermuda de saco de farinha de trigo, tingida de azul Guarany, suspensórios, uma camisa volta ao mundo e botina de couro esfolado.

Durante o jantar de aniversário a casa foi visitada pelas irmãs, a notícia se espalhou depressa, ceia interrompida, só faltou o sermão do padre. O assunto encerrou quando minha mãe questionou a presença da cachaça na geladeira.

No dia seguinte procurei meus adversários do jogo de sábado para negociar ou declarar guerra. Recuperei o bolitão, no tapa, mas voltou.

 

A velhinha das sete quedas

 

Dona Palmira já nasceu desastrada. A parteira gorda, apoiou de mau jeito, todo seu peso sobre o leito da natividade e quebrou a cama ao puxar o rebento que, ao sair, fraturou o pé; foi a primeira queda.

Demorou a andar por conta do pé descontado, mas venceu a luta e acertou o passo. Com o tempo se acostumou aos tombos, alguns puxando água do poço, quando não conseguia firmar o garrão e quase descia corda abaixo puxada pelo balde d´água, outros tombos foram leves, sem maiores consequências, como escorregar na lama e descer a rua sem carrinho de lomba, quedas comuns em dias de chuva.

Mas, ultimamente algumas ocorrências foram registradas com frequência, nas missas de domingo. Palmirinha, poderia se chamar Mira, mas por uma ironia do destino o nome acabou no diminutivo, não combinando com pernas e braços longos e um porte físico avantajado. Enfim, quando se nasce Eva, vira Evinha, Ana, Aninha, Vitalina vira Vita e Abrelino pra chamar de Lino. Vai entender a intenção dos pais, a criatividade das tias ou o apelido dado pelos amigos, enfim, voltamos a Mira, aliás, a Palmirinha e suas quedas domingueiras. Foram sete nos últimos seis meses, contabilizadas pela Cristiane Damiani, que casou com um Xavier e que também atende por Cris Xavier, mais uma redução do nome.  Três tombos na escadaria da igreja, um no confessionário, ao tentar se ajoelhar para contar seus pecados, outro tentando subir o altar e finalmente um tropeção no banco da igreja ao sair da missa foram a gota d’água para que o padre consultasse o médico. O sacerdote atravessou a rua e narrou ao doutor os fatos registrados com a velha senhora e suas frequentes quedas.

Na primeira oportunidade que teve, justamente durante uma consulta de rotina, o galeno aproveitou para ampliar o checape. Desviou a atenção do pé e subiu aos olhos da paciente. Não precisou nem diagnóstico do laboratório, viu na hora que dona Palmirinha apresentava uma severa opacidade do cristalino.

O problema foi desvendado ali mesmo, no consultório, acusando uma estreita relação entre as cataratas e as sete quedas.

Um museu do pão bem perto da gente

Se você perguntar ao Google quantos museus do pão existe no mundo, de cara ele vai direcionar para o da freguesia de Seia em Portugal. Mas olhando bem e correndo a tela, ainda na primeira página, aparece o museu do pão do município de Ilópolis no Rio Grande do Sul. O de Seia eu não conheço, embora tenha passado por ele duas vezes, uma subindo e outra descendo a Serra da Estrela, degustando queijos de ovelha numa tarde de intensa nevasca.

Já o museu do pão de Ilópolis eu conheci quase que por acaso. Conversando com a Béi da floricultura que também é vereadora, relatou com entusiasmo a atração do lugar, uma preciosidade guardada na cidade, que eu ouvia falar mas não sabia que ficava lá.

– O museu do pão é aqui?

– Sim, depois da praça pega a direita, anda duas quadras, na esquina.

moinho 3

Um moinho, construído em 1930 pelo carpinteiro Garibaldi Bertuol, era movido a vapor e todo o maquinário está lá. O curioso é que a menina que guia os visitantes jurou que o equipamento ainda funcionam.

moinho 1

Ao ver o bom estado de conservação eu não titubeei e mesmo sem a pedra mó em movimento, posso atestar que ela está falando a verdade.

moinho 2 Afinal eu me criei, quando criança, moendo quirera num moinho na cidade de Colorado, o que me atesta um certo pedigree de conhecimento.

museu do pão 2       Museu do pao 1

O museu, instalado no antigo depósito de grãos da  moenda, oferece um passeio, por meio de maquinários e assessórios, desde o plantio do trigo ou do milho até o pão chegar na mesa.

OFICINA: Todas as sextas feiras pela manhã tem curso de panificação, de graça.

museu do pçao 3

Da próxima vez vou mais cedo para tomar o meu café da manhã com um pão feito a capricho com as minhas próprias mãos.

É preciso madrugar porque Ilópolis fica a quase 200 quilômetros de Porto Alegre, ou dormir por lá.

ROSA DOS VENTOS: Um detalhe, você anda pela cidade ouvindo música ao longe que se espalha em todas as direções. São louvores transmitidos pelos alto-falantes da igreja Matriz. Sim, em Ilópolis sobrevive a voz do poste.

Aí vem o Fufuca

O deputado federal André Fufuca, 28 anos, assume a presidência da Câmara dos Deputados enquanto o presidente da Câmara Rodrigo Maia vai ocupar o lugar de Temer, no período em que o Temer leiloa o Brasil na China.

Fufuca é o protótipo do guri que não precisou se esforçar para correr atrás de votos, pois é herdeiro dos velhos figurões da política do Maranhão entre eles o seu pai, o Fufuca mais rodado, que é prefeito de uma cidade do interior. Nasceu no PSDB, foi para o PEN e hoje está no PP, tudo isso em menos de sete anos. É da turma do Eduardo Cunha, inclusive nem apareceu para votar, certamente contra, a cassação do seu pastor. Também entendeu que não havia  motivos para o impeachment do Temer, mas votou pelo da Dilma. Enfim, um exemplo de coxinha, mimado e bem mandado.

Pois é este grande chefe que vai comandar a reforma política do país no período em que exercerá a presidência da Câmara Federal. Meu Fuca na garagem não acreditou quando contei para ele que o futuro político da nação estava nas mãos da família. Só acreditou quando liguei o rádio e se certificou de que não se tratava de nenhuma pegadinha. Fiquei com a impressão que o “Mujiquinha”, como é carinhosamente tratado, baixou os faróis e deu um suspiro de rebaixar a suspensão. Não foi comemoração, senão teria buzinado.

Com certeza os ocupantes do mais alto escalão da nação brasileira tomaram todas as precauções para que o Fufuca não desgoverne e coloque em risco o plano em marcha. Como ele já passou pelo PEN, certamente já vem com Drive instalado com o manual de instruções incluido, é só baixar.

O causo do casal do pau oco de Colorado

Árvores podem viver eternidade, comparadas à idade humana. Um jequitibá-rosa de Santa Rita de Passa-Quatro, São Paulo, por exemplo, tem mais de três mil anos e é a árvore mais velha catalogada no Brasil.

Mas no município de Colorado, bem na região do planalto gaúcho uma árvore não tão frondosa e nem tão antiga como o velho Jequitibá se tornou famosa por ter amparado o casal do pau oco em seu tronco sem a pretensão de entrar para a história.

Reza o falatório que foi o olho clínico do escultor com inclinação ao barroco, Luiz Damiani, que percorrendo as terras da família, deparou-se com dois grandes nós no tronco de uma árvore oca, de madeira morta e desfolhada. Raciocínio rápido, não perdeu a oportunidade de colocar em prática a sua criatividade. Munido de martelo e talhadeira deu asas à imaginação. Dos entalhes surgiram um homem e uma mulher que pareciam conversar num local nada convencional. Ele não calculava, no entanto, as proporções que a sua criação artística tomaria daquele dia em diante.

Na mesma época, lá pelos idos dos anos 60, corria na cidade um boato sobre o sumiço de um casal de namorados cujos pais não aprovavam a união. Anoiteceram e não amanheceram no povoado. As suspeitas recorrentes eram as de que eles tinham se retirado para um lugar secreto para dar um fim às suas vidas, numa jura de amor eterno, além da vida terrestre. Soube-se depois que eles fugiram para o Mato Grosso na busca da paz e da felicidade, vivendo felizes para sempre.

O seu Bigio, um lenhador negro que carregava nas costas um saco enorme, cheio de quinquilharias e que botava medo nas crianças, costumava cortar o caminho de casa usando a trilha do mato de onde ele já havia sacrificado centenas de árvores e que conhecia como a palma da mão. Mas naquele dia ele ouviu na cidade que a alma do casal desaparecido andava assombrando o povoado. Enquanto avançava entre as arvores, mascando fumo em rama e loco para chegar em casa e se jogar na cama, ia matutando sobre as histórias que ouviu no armazém. Gostava de exagerar na cachaça e naquele dia não foi diferente. Achava que aquela era uma história bizarra, mentira das grandes.

– Desde quando se viu fantasma por aqui, eles não existem e se existem é causo pra assustar bobo, pregar peça em quem tem medo. Ia pensando em voz alta.

Bigio se considerava um valentão, afinal, botava medo na gurizada, gostava de trago e tabaco, e ainda por cima era um demolidor das matas. Não era de graça que seu sobrenome era Machado.

Mais alguns passos, a visão dele se esbugalhou, os olhos saltaram, o saco de estopa voou pelos ares e o descrente tomou o caminho contrário de onde vinha, pros rumos do campo aberto. Corria feito boi desgovernado, se enroscou numa cerca de arame farpado antes de avançar numa plantação de milho. Tropeçou em morangas e abóboras, rolou mais do que correu e abriu uma trilha no milharal. Só parou nos fundos de uma serraria onde se jogou com a roupa esfarrapada debaixo da bica que movia a roda d’água que por sua vez acionava as engrenagens da serra mestra do engenho de madeira. Achou que o banho frio o despertaria do pesadelo, de um sonho que não aconteceu.

Mais tarde contou toda a verdade sob o olhar desconfiado dos marceneiros que não acreditaram na história. Naquela noite, por motivos alheios, arrepiado de medo, ele dormiu por lá, num cochão de serragem, prometendo a si mesmo que nunca mais beberia uma única gota de álcool. Tornou-se abstêmio, até a morte.

No dia seguinte um guri, sem saber da história, percorria a mata assoviando feito pintassilgo, com o bodoque engatilhado, pronto para abater, caso atravessasse, uma rolinha gorda e distraída, que seria o almoço do dia. Por perto também estava o artista, contemplando a sua obra. Ao ver que o amigo se aproximava, tratou de se esconder no tronco para lhe dar um susto, coisa comum entre a criançada do interior e em seguida disparou um diálogo áspero. Do nada, gritos estranhos e inesperados romperam o silêncio da mata, afugentaram os pássaros, coelhos, pacas e ratões e, claro o amigo que disparou entre as árvores num emaranhado de cipós, pata de vaca e unhas de gato. Foi grito por toda parte, o artista imitando um casal brigado e o guri aos berros abrindo caminho no emaranhado de plantas achando que o casal, que viu de relance, eram fantasmas que alcançavam seus calcanhares. Todo arranhado rompeu a casa mais próxima, feito um raio. Levou um bom tempo para tomar fôlego e relatar o que acabara de ver. Logo chegou o artista com cara de inocente, mas ao notar que o coração do amigo estava prestes a sair pela boca, resolveu se desculpar e falar a verdade.

Mesmo assim, ao retornar para casa ele não mais tomou o caminho do mato, traçou um novo rumo, fazendo uma longa volta pela estrada. Não queria novas surpresas, nem novas emoções, nem mesmo novas aventuras. O susto bastou para deixá-lo desconfiado, podia não acreditar em assombração, mas vai que elas existem? Enfim, “Yo no creo em brujas, pero que las hay, las hay”

Foto do criador e suas criaturas para provar que o causo tem procedência e foi documentado

Luiz Damiani

A PELEJA DO MAL CONTRA O BEM

Montaram a baderna

Armou-se a fuzarca

Em nome do bem

O mal se destaca.

 

Roubaram a crença

Do povo sofrido

Que desprevenido

Confiou no poder.

 

Um bando de arteiros

Urubus, carniceiros,

Aniquilaram num golpe

A constituição.

 

Caçaram direitos

De um povo liberto

Só eles tão certos

Em toda a nação.

 

Desviam recursos

Não sobra dinheiro

Segurança, saúde

Em má situação.

 

O mal se supera

E o bem não convence

O mal s’empodera

Em nome do bem.

 

E o povo perdido

Confia na mídia

Espera Justiça

Que tarda ou não vem.

 

E já não entende

Por que tanta briga

Por que tanta gente

Na tal confusão?

 

E lá na igreja

Procura resposta

apegado na crença

Ajoelha no altar.

 

Por bem meu senhor

M’explica afinal

Se o mal o bem

Ou se o bem faz o mal?

 

Deus ficou tiririca

Parlamentares regidos pelo fervor na devoção, na crença e na Tradição Família e Propriedade – TFP, deram um show no impeachment. Deputados justificando seu voto em nome de Deus, depois, claro, da família e dos seus interesses. Foi um festival de louvor que até Deus duvida. Apelar pela devoção não faz um Brasil melhor, o que faz é a consciência do voto e quem tem consciência não precisa justificar suas ações. Transferir atitudes é não assumir a responsabilidade, é temer a verdade e faltar com o seu compromisso para o qual foi indicado. É uma forma de não se sentir culpado, afinal, foi Deus quem mandou. Falar em nome de Deus ou do Estado é temeroso porque engloba uma série de situações e de interesses. Já em nome do eleitor, do pai, da mãe, do filho ou de quem quer que seja não descredencia a justificativa. No ganha ou perde tudo é justificável, até mesmo cunhar dizeres na roupa ou na pele, mas falar em nome de Deus é muito ariscado e pior ainda é representá-lo, já que o criador supremo é onipotente e pode não ter gostado nada do que rolou na Câmara dos deputados que aprovou o Impeachment da presidenta Dilma na noite deste domingo, 17 de abril de 2016.