O quase affair da Faye Dunaway

Não lembro o ano nem o numero do festival, mas foi em Gramado na serra gaúcha, num agosto de muito frio, mês que o mundo do cinema se reúne para exibir e escolher os melhores filmes da temporada. Recordo que naquele ano os simpáticos cubano do Guantanamera ganharam o Kikito de filme estrangeiro e me lembro da Faye é claro.

Estávamos frente-a-frente numa sala reservada de um hotel de luxo. Ela de vestido preto, eu, de terno e gravata. Ela sentou e cruzou as pernas e eu abri um rosário de maus pensamentos, me sentindo um Don Juan DeMarco na sua frente, imaginando que ela me observasse feito um Johnny Depp.

Ela me cumprimentou num inglês tradicional, calculo que tinha um estranho sotaque. Eu a cumprimentei em português, procurando evitar o sotaque do Sul e ficamos por aí.

Ela baixou a cabeça com um ar de reprovação ou de vergonha por não entender o meu idioma. Aí notei que o meu personagem estava mais para Marlon Brando.

Nos momentos seguintes ela só sabia que me daria uma entrevista e eu que faria algumas perguntas, sem que entendêssemos bulhufas.

– Um tradutor por favor!

Lá vem a camareira do hotel para resolver o impasse e estabelecer uma conversa.

E tudo o que eu havia planejado em dizer ao pé do ouvido da Faye foi adiado, ficou para outro dia. Por pouco o affair não se consumou; não fosse a língua.