Quando as árvores de Natal eram de verdade

 

O Natal da minha infância em Colorado, tinha cheiros característicos, o da barba de pau umedecida e o da resina da araucária. A mãe mandava que eu fosse passear num certo dia de véspera e ao regressar, ao por o pé na soleira da porta, era tomado por um ambiente com o aroma da mata. Na sala de casa tinha uma árvore de natal me esperando com uma estrela no alto, e envolvida num manto de delicadas esferas coloridas e ninhos abandonados de pássaros que ficaram dependurados nos galhos das laranjeiras, às vezes algum vinha acompanhado de um ovo que não vingou.

No sopé se alastrava um projeto arquitetônico da mãe para os filhos. Ali estava o espírito de alguém com alma de criança dando forma aos detalhes. A disposição de cada item da criação tinha um significado, uma finalidade e uma direção. Todos os caminhos levavam à manjedoura onde estava uma criança, símbolo da natalidade entre as civilizações da terra, exemplo de fé, de paz e de esperança.

É raro ver uma mãe enfeitando uma árvore de verdade com a delicadeza de antes. Hoje, o arcabouço vem com código de barras.

 

A penitência que virou moda

 

Como qualquer criança da minha idade, lá pelos sete ou oito anos, vivendo no interior, também fui um guri arteiro. Na falta de opções a gente sempre achava o que fazer muito embora contrariasse as regras dos adultos.

Certo dia de verão, depois de uma briguinha de rua que evoluiu para socos e pontapés, fui me esconder na gruta até aliviar a ira da minha mãe que não admitia filho brigando por aí. A gruta que até hoje existe, era úmida, embalada ao som de uma vertente de água que atraía os andarilhos a caminho da cidade, paravam ali para matar a sede. Alguns levados pelo sossego do lugar aproveitavam para fazer uma oração a santa Lourdes e uns até contavam seus pecados. Naquela tarde ouvi confissões e só não estipulei penitência porque me encontrava em situação clandestina, escondido atrás da santa

Mais tarde, quando calculei que a ira da mãe havia passado saltei de cima do altar da gruta para pegar a estrada e retornar pra casa mas, uma pedra pontuda quase me deixa nu. O calção cinza feito com um corte de saco de pano de açúcar cristal foi contemplado com um rasgo que ia do meio da coxa até a cintura. Não fosse a peça de elástico que segurava o calção eu teria problemas para sair da gruta a caminho de casa. Fui embora segurando o rasgo com a mão direita, camuflado em macegas e plantações de milho e soja.

Mais tarde a mãe retornou da lavoura, esperei que ela descansasse a enxada e se desfizesse do cesto da colheita e antes do sermão, me adiantei para pedir desculpas e mostrar para ela o calção em trapos.

Foi então que ela me disse:

– Isso é castigo por tudo aquilo que você anda fazendo, é pra pagar teus pecados.

Hoje quando vejo gente na rua com calças de joelhos, pernas e bunda rasgadas, me faz viajar a memória para a velha gruta e as palavras da dona Ilga. Eles jamais vão imaginar que, para mim, aquela roupa é uma penitência para pagar seus pecados e que, quanto mais rasgos, maior é a pena.

Sim, a penitência como castigo do pecado virou moda. Tenha a santa paciência.

 

O MEC do Messias

 

O pai, sr. Brasil, entra no quarto e se depara com a filha devorando um Kama Sutra. Quase ignorando a sua presença ela continua lendo e observando as posições.
 
Num impulso messiano o pai arranca o livro das mãos da menina aos gritos de – Pouca vergonha!
 
Ameaça jogá-lo pela janela quando é interrompido, calmamente, pela filha que diz:
 
– Estou estudando, pai.
 
– O quêêêê… Estudando esta imoralidade, esta safadeza? Não sei por que não te quebro ao meio sua…
 
– Olha com o que vai dizer…
 
– Sua desajustada
 
– Ah, melhor
 
– E ainda tá me tirando?
 
– Posso explicar?
 
– Nada vai me convencer
 
– Pai, leituras, filmes e revistas eróticas fazem parte novo currículo escolar, educação sexual, sexualidade, sacou?
 
– Sacou porra nenhuma, ficou louca, bebeu, fumou? Parece alucinada.
 
– Tou te falando que é o currículo.
 
– Não queira me enrolar, inventa outra história, te peguei no flagra com esta… esta…
 
– É melhor deixar pra lá e acreditar em mim, sério, é a nova realidade da escola.
 
– Mas nem que a vaca tussa, vou já trocar você de colégio e tá proibida de pisar lá a partir de agora.
 
– Mas pai…
 
– Mais um ai e vou te encher de porrada!
 
Pensou melhor e resolveu anunciar a sentença da filha ali mesmo:
 
– Vou colocar você na escola do Júnior, séria e educadora, não quero filha puta, vagabunda, depravada…
 
Visívelmente transtornado, aos berros, sai do quarto com um Kama Sutra debaixo do braço e quase o coração sai pela goela ao ver, em cima da escrivaninha, uma edição da G Magazine. Dá de mão na revista e sai do quarto chamando Joana, a empregada.
 
– Fica de olho na Kathyanne, não deixa que ela saia do quarto e nem pensar em sair pra rua.
 
Tenta insistentemente ligar para a mulher que está no salão de beleza fazendo cabelo, pé e mão para o encontro de casais da TFP à noite. Leva algum tempo para atender, deixando Brasil impaciente até que enfim:
 
– Joyce, vem já pra casa, peguei a Kathy mergulhada em livros e revistas de pornografia, uma pouca vergonha o que tá acontecendo nesta casa.
 
Minutos depois Joyce rompe a porta de casa, ainda com um bob’s no cabelo. Júnior também chega da aula, quase ao mesmo tempo. O pai pede pra Joana chamar a filha no quarto e inicia uma inquisição na sala de jantar.
 
– Depois de muitos palavrões, batidas na mesa, chute nas cadeiras e ameaças de fechar a escola para sempre e denunciar tudo para presidente da nação, é interrompido pelo filho.
 
– Mas pai, lá na minha escola também é assim.
 
– Como assim, essa putaria toda?
 
– Sim pai acabei de ver um filme do ministro, sadomasoquismo puro, homem com homem, direto, o ministro inclusive, no papel principal, vestido de noiva.
 
– Do que você tá falando pirralho desgraçado, que ministro é este?
 
– O Frota pai.
 
– Que Frota? Caralho!
 
– O Alexandre Frota, ministro da Cultura, tou virando fã dele, ele traça tudo o cara é de fudê.
 
– CHEGA!!!
 
– Mas pai agora é praxe estudar a vida dele, a professora disse que são ordens de Brasília.
 
O pai acusa o golpe, sente que perdeu o controle da casa, o sangue sobe de um jeito incontrolado, o pai tem um chilique, vira os olhos, amolece o corpo e desaba no carpete.
 
Enquanto a empregada chama a ambulância, Joyce sacode o marido aos gritos de:
 
– Acorda Brasil… acorda!!!
Crônica: Flávio Damiani
Arte: Daniel Cruz

 

Memórias de um sacristão proscrito

 

Lá se vai meio século quando, no dia do aniversário da dona Ilga, fui excluido da sacristia pela simples razão de trocar as bebidas do altar. Havia na frigideire da casa canônica, uma garrafa de cachaça Marumby, junto com as de vinho que, por ocuparem espaço menor do que um garrafão, era colocado em garrafas com rótulos de bebidas variadas, desde a gasosa às cervejas, e claro, a cachaça. Era onde abastecíamos os pequenos cristais, galheteiros para a eucaristia. No lusco-fusco, dei de mão na primeira garrafa que se apresentou. Era a maldita da cachaça. Sem prestar o mínimo de atenção e ao menos desconfiar da presença da intrusa, completei o vinho que restava no reservatório.

Foi numa noite de sábado, minha mãe não costumava ir á missa, nem no dia do seu aniversário. Ficou em casa preparando um jantar de carnes e massas e eu mal podia esperar a hora de chegar para comemorar com a família e mesa farta os seus 44 anos.

Vestido de coroinha, uma batina vermelha e uma túnica branca – sobrepeliz, eu estava concentrado ao lado do altar. Enquanto o monsenhor rezava a missa eu tentava entender a desavença que tive a tarde numa disputa de bolitas, modalidade três covinhas, no pátio do colégio. Perdi um único e raro baletão com o desenho das Três Marias e o Cruzeiros do Sul, o mais cobiçado. Desconfiei da trapaça, o mindinho de um pé desviou a leiteira que lancei com precisão, mas que beirou e não caiu na caçapa. Foi uma armadilha, pensei, e já estava prestes a sair dali para desafiar os inimigos e declarar uma guerra de taquaras, sem precedentes, quando ouvi protestos do sacerdote em meio a celebração. Freiras agitadas na sacristia, a missa parou na eucaristia.

– O vinho virou cachaça, disse a irmã Terezinha

– Milagre, alguém gritou lá de fora

– O Monsenhor tá furioso, parou a missa, disse dona Carlota

– É coisa do demônio, falou o coletor de esmolas

– Quem foi que abasteceu o altar? Perguntou a irmã Zoé

Os olhos se voltaram para o sacristão, já sem as vestes de coroinha e como um raio abandonou o local vestindo bermuda de saco de farinha de trigo, tingida de azul Guarany, suspensórios, uma camisa volta ao mundo e botina de couro esfolado.

Durante o jantar de aniversário a casa foi visitada pelas irmãs, a notícia se espalhou depressa, ceia interrompida, só faltou o sermão do padre. O assunto encerrou quando minha mãe questionou a presença da cachaça na geladeira.

No dia seguinte procurei meus adversários do jogo de sábado para negociar ou declarar guerra. Recuperei o bolitão, no tapa, mas voltou.

 

A velhinha das sete quedas

 

Dona Palmira já nasceu desastrada. A parteira gorda, apoiou de mau jeito, todo seu peso sobre o leito da natividade e quebrou a cama ao puxar o rebento que, ao sair, fraturou o pé; foi a primeira queda.

Demorou a andar por conta do pé descontado, mas venceu a luta e acertou o passo. Com o tempo se acostumou aos tombos, alguns puxando água do poço, quando não conseguia firmar o garrão e quase descia corda abaixo puxada pelo balde d´água, outros tombos foram leves, sem maiores consequências, como escorregar na lama e descer a rua sem carrinho de lomba, quedas comuns em dias de chuva.

Mas, ultimamente algumas ocorrências foram registradas com frequência, nas missas de domingo. Palmirinha, poderia se chamar Mira, mas por uma ironia do destino o nome acabou no diminutivo, não combinando com pernas e braços longos e um porte físico avantajado. Enfim, quando se nasce Eva, vira Evinha, Ana, Aninha, Vitalina vira Vita e Abrelino pra chamar de Lino. Vai entender a intenção dos pais, a criatividade das tias ou o apelido dado pelos amigos, enfim, voltamos a Mira, aliás, a Palmirinha e suas quedas domingueiras. Foram sete nos últimos seis meses, contabilizadas pela Cristiane Damiani, que casou com um Xavier e que também atende por Cris Xavier, mais uma redução do nome.  Três tombos na escadaria da igreja, um no confessionário, ao tentar se ajoelhar para contar seus pecados, outro tentando subir o altar e finalmente um tropeção no banco da igreja ao sair da missa foram a gota d’água para que o padre consultasse o médico. O sacerdote atravessou a rua e narrou ao doutor os fatos registrados com a velha senhora e suas frequentes quedas.

Na primeira oportunidade que teve, justamente durante uma consulta de rotina, o galeno aproveitou para ampliar o checape. Desviou a atenção do pé e subiu aos olhos da paciente. Não precisou nem diagnóstico do laboratório, viu na hora que dona Palmirinha apresentava uma severa opacidade do cristalino.

O problema foi desvendado ali mesmo, no consultório, acusando uma estreita relação entre as cataratas e as sete quedas.

A PELEJA DO MAL CONTRA O BEM

Montaram a baderna

Armou-se a fuzarca

Em nome do bem

O mal se destaca.

 

Roubaram a crença

Do povo sofrido

Que desprevenido

Confiou no poder.

 

Um bando de arteiros

Urubus, carniceiros,

Aniquilaram num golpe

A constituição.

 

Caçaram direitos

De um povo liberto

Só eles tão certos

Em toda a nação.

 

Desviam recursos

Não sobra dinheiro

Segurança, saúde

Em má situação.

 

O mal se supera

E o bem não convence

O mal s’empodera

Em nome do bem.

 

E o povo perdido

Confia na mídia

Espera Justiça

Que tarda ou não vem.

 

E já não entende

Por que tanta briga

Por que tanta gente

Na tal confusão?

 

E lá na igreja

Procura resposta

apegado na crença

Ajoelha no altar.

 

Por bem meu senhor

M’explica afinal

Se o mal o bem

Ou se o bem faz o mal?

 

Só uma perguntinha ao Jucá: Se não tem pecado por que o perdão?

A tentativa do senador Romero Jucá do PMDB de Roraima, de conceder aos presidentes da Câmara, do Senado e do Supremo Tribunal Federal – STF a mesma prerrogativa do presidente da República de não serem processados por atos estranhos ao exercício do mandato, foi uma confissão aberta de que suas excelências cometem atos estranhos e de que o poder está minado de gente deste tipo. Verdadeiros picaretas que se especializam desviar e vender de tudo o que conseguem surrupiar da pátria mãe corrompendo políticos, empresários, grandes industrias daqui e de fora, gente famosa das colunas sociais que se deixam corromper, até com a mãe do Badanha, com todo o respeito ao centromédio gremista dos anos 40 e sua progenitora.

Jucá ao tentar passar no Senado, nesta semana, a Proposta de Emenda Constitucional – PEC, que livra da punição a bandidagem que exerce os maiores cargos no poder, dispara o alerta, até mesmo dos mais céticos e doentios defensores desta canalhice toda, de que tem alguma coisa por de trás da cortina e que o espetáculo não tem nada a ver com o roteiro anunciado. Afinal por que motivo se protegeria alguém tão sério, correto, belo e recatado?

O Jucá, diga-se de passagem, transita livremente no poder muito embora, para o grande público, ele tenha se afastado depois que a Polícia Federal interceptou ligações do então ministro do Planejamento, cargo que ele exercia no governo Temer, admitindo esquema de corrupção no atual governo e falando em mudanças para estancar as investigações da operação Lava Jato.

Aliás, o grampo encontra-se na Suprema Corte aos cuidados do ex-ministro Teori Zavascki morto recentemente num misterioso acidente de avião no litoral fluminense.

Então Jucá, o que te levou a adotar medidas para proteger os santos do poder?
Se não tem pecado, por que o perdão?

Os tempos eram outros

Abro com a observação de que eu já havia publicado não faz muito estra crônica, mas agora recebo esta ilustração do cartunista Daniel Cruz e não posso deixar de fazer o registro do filho dando num nó no pai e o pai se safando como pode na pura controvérsia..

Pulhas

– O que é um canalha, pai?

– O Bolsonaro

– Mas o senhor disse que era o Cunha

– Este é um pulha

– Mas pulha não era o Lula

– Isso ele foi, em outra época

– Quando o senhor torcia pros canalhas?

– Sim! Não! mais ou menos

– Porque o senhor mudou?

– Porque eu torci pro Jean ganhar o BBB

– Humm, o que errou o cuspe?

– O próprio

– Mas o senhor é também contra a Globo

– Totalmente

– Mas assistia o BBB

– Isso foi em outra época

– O senhor também disse que a Dilma roubava

– É que eu assisti na TV, deu no rádio e no jornal

– Então quem embolsa é o Bolsonaro e não a Dilma?

– Nunca pus a mão no bolso dele pra te dar certeza

– E o Tiririca pai quando ele disse – sim – você quase teve um infarto

– Ele é o Judas

– Mas o Judas não são os…. aqueles da Lava-Jato/

– Os delatores

– Isso, você sempre disse que eies eram Judas

– Sim, Judas foi o cagoete

– Cago o que?

– NÃO! Não é o que você tá pensando

– Nunca ouvi falar deste tal de cagote

– É cagoete filho, um delator

– Um Judas você quer dizer…

– Não deixa de ser, uma versão moderna

– Você disse que se fosse deputado não ia falar tanta merda

– Maneirando as palavras filho, não falaria mesmo, diria sim ou não em respeito ao povo e a nação

– Mas aqui em casa você antes de dizer sim ou não sempre faz um discurso feito deputado aprovando o impeachment da Dilma.

– Filho, por Deus, por você, teus irmãos, tua mãe, o gato e o cachorro, chega de perguntas tá?

Deus ficou tiririca

Parlamentares regidos pelo fervor na devoção, na crença e na Tradição Família e Propriedade – TFP, deram um show no impeachment. Deputados justificando seu voto em nome de Deus, depois, claro, da família e dos seus interesses. Foi um festival de louvor que até Deus duvida. Apelar pela devoção não faz um Brasil melhor, o que faz é a consciência do voto e quem tem consciência não precisa justificar suas ações. Transferir atitudes é não assumir a responsabilidade, é temer a verdade e faltar com o seu compromisso para o qual foi indicado. É uma forma de não se sentir culpado, afinal, foi Deus quem mandou. Falar em nome de Deus ou do Estado é temeroso porque engloba uma série de situações e de interesses. Já em nome do eleitor, do pai, da mãe, do filho ou de quem quer que seja não descredencia a justificativa. No ganha ou perde tudo é justificável, até mesmo cunhar dizeres na roupa ou na pele, mas falar em nome de Deus é muito ariscado e pior ainda é representá-lo, já que o criador supremo é onipotente e pode não ter gostado nada do que rolou na Câmara dos deputados que aprovou o Impeachment da presidenta Dilma na noite deste domingo, 17 de abril de 2016.

Quando os funerais eram bem comemorados

Antigamente os funerais eram bem comemorados. Tinha parente que só aparecia no velório. Certo dia um locutor da rádio ao ler o convite para enterro convidou toda a cidade para as “comemorações” e por pouco não revelou o menu. Sim, o menu porque dia de velório misturava dor, sentimentos e comilança.

Quando alguma pessoa idosa estava por morrer, já desenganado pelo médico que geralmente estipulava uma “data de partida”, se iniciava na casa um verdadeiro ritual de preparação de doces e salgados para receber as visitas.

Carneava-se porco, galinha ou se o morto era bem popular, que reuniria boa parte da cidade, sacrificava-se uma rês. Também tinha velório humilde que distribuía bolachinhas, que ficavam por meses guardadas em latas, e eram servidas com chá, mate, leite e café preto.

Outros se resumiam numa pastelaria, como foi o caso do seu Mano, que era o diminutivo de Manoel. No leito da morte, sentiu um cheiro de fritura que vinha da cozinha e chamou a neta para saber o que estavam preparando. Ao saber que era pastel, pediu para que a neta trouxesse um para ele, mas ouviu da voz inocente da menina:

– A vó disse que os pasteis são pro velório!

Quando o seu Vito, fazendeiro famoso e de bom coração estava por morrer, logo toda a parentaia foi avisada. No dia seguinte começaram a chegar os convidados e nada dele partir. Passaram-se três longos dias até que o seu Vito se entregou. Uma verdadeira quermesse.

Os funerais eram locais de encontros de familiares e movimentavam as comunidades. Os adultos se revezavam em confortar os de casa, recordavam bons e maus momentos da vida do falecido. Não era tão raro assim ouvir gargalhadas quando o assunto era o lado engraçado de quem partia. Às crianças cabia espantar as moscas que rondavam o caixão.

Hoje a tradição ficou de lado, a falta de tempo, a facilidade de se deslocar, as redes sociais oferecem on-line, quer dizer, transmitem ao vivo a cerimonia e também, pelo fato dos velórios não serem mais em casa. Isso tudo tornou sem graça o último adeus.