Só uma perguntinha ao Jucá: Se não tem pecado por que o perdão?

A tentativa do senador Romero Jucá do PMDB de Roraima, de conceder aos presidentes da Câmara, do Senado e do Supremo Tribunal Federal – STF a mesma prerrogativa do presidente da República de não serem processados por atos estranhos ao exercício do mandato, foi uma confissão aberta de que suas excelências cometem atos estranhos e de que o poder está minado de gente deste tipo. Verdadeiros picaretas que se especializam desviar e vender de tudo o que conseguem surrupiar da pátria mãe corrompendo políticos, empresários, grandes industrias daqui e de fora, gente famosa das colunas sociais que se deixam corromper, até com a mãe do Badanha, com todo o respeito ao centromédio gremista dos anos 40 e sua progenitora.

Jucá ao tentar passar no Senado, nesta semana, a Proposta de Emenda Constitucional – PEC, que livra da punição a bandidagem que exerce os maiores cargos no poder, dispara o alerta, até mesmo dos mais céticos e doentios defensores desta canalhice toda, de que tem alguma coisa por de trás da cortina e que o espetáculo não tem nada a ver com o roteiro anunciado. Afinal por que motivo se protegeria alguém tão sério, correto, belo e recatado?

O Jucá, diga-se de passagem, transita livremente no poder muito embora, para o grande público, ele tenha se afastado depois que a Polícia Federal interceptou ligações do então ministro do Planejamento, cargo que ele exercia no governo Temer, admitindo esquema de corrupção no atual governo e falando em mudanças para estancar as investigações da operação Lava Jato.

Aliás, o grampo encontra-se na Suprema Corte aos cuidados do ex-ministro Teori Zavascki morto recentemente num misterioso acidente de avião no litoral fluminense.

Então Jucá, o que te levou a adotar medidas para proteger os santos do poder?
Se não tem pecado, por que o perdão?

Os tempos eram outros

Abro com a observação de que eu já havia publicado não faz muito estra crônica, mas agora recebo esta ilustração do cartunista Daniel Cruz e não posso deixar de fazer o registro do filho dando num nó no pai e o pai se safando como pode na pura controvérsia..

Pulhas

– O que é um canalha, pai?

– O Bolsonaro

– Mas o senhor disse que era o Cunha

– Este é um pulha

– Mas pulha não era o Lula

– Isso ele foi, em outra época

– Quando o senhor torcia pros canalhas?

– Sim! Não! mais ou menos

– Porque o senhor mudou?

– Porque eu torci pro Jean ganhar o BBB

– Humm, o que errou o cuspe?

– O próprio

– Mas o senhor é também contra a Globo

– Totalmente

– Mas assistia o BBB

– Isso foi em outra época

– O senhor também disse que a Dilma roubava

– É que eu assisti na TV, deu no rádio e no jornal

– Então quem embolsa é o Bolsonaro e não a Dilma?

– Nunca pus a mão no bolso dele pra te dar certeza

– E o Tiririca pai quando ele disse – sim – você quase teve um infarto

– Ele é o Judas

– Mas o Judas não são os…. aqueles da Lava-Jato/

– Os delatores

– Isso, você sempre disse que eies eram Judas

– Sim, Judas foi o cagoete

– Cago o que?

– NÃO! Não é o que você tá pensando

– Nunca ouvi falar deste tal de cagote

– É cagoete filho, um delator

– Um Judas você quer dizer…

– Não deixa de ser, uma versão moderna

– Você disse que se fosse deputado não ia falar tanta merda

– Maneirando as palavras filho, não falaria mesmo, diria sim ou não em respeito ao povo e a nação

– Mas aqui em casa você antes de dizer sim ou não sempre faz um discurso feito deputado aprovando o impeachment da Dilma.

– Filho, por Deus, por você, teus irmãos, tua mãe, o gato e o cachorro, chega de perguntas tá?

Deus ficou tiririca

Parlamentares regidos pelo fervor na devoção, na crença e na Tradição Família e Propriedade – TFP, deram um show no impeachment. Deputados justificando seu voto em nome de Deus, depois, claro, da família e dos seus interesses. Foi um festival de louvor que até Deus duvida. Apelar pela devoção não faz um Brasil melhor, o que faz é a consciência do voto e quem tem consciência não precisa justificar suas ações. Transferir atitudes é não assumir a responsabilidade, é temer a verdade e faltar com o seu compromisso para o qual foi indicado. É uma forma de não se sentir culpado, afinal, foi Deus quem mandou. Falar em nome de Deus ou do Estado é temeroso porque engloba uma série de situações e de interesses. Já em nome do eleitor, do pai, da mãe, do filho ou de quem quer que seja não descredencia a justificativa. No ganha ou perde tudo é justificável, até mesmo cunhar dizeres na roupa ou na pele, mas falar em nome de Deus é muito ariscado e pior ainda é representá-lo, já que o criador supremo é onipotente e pode não ter gostado nada do que rolou na Câmara dos deputados que aprovou o Impeachment da presidenta Dilma na noite deste domingo, 17 de abril de 2016.

Quando os funerais eram bem comemorados

Antigamente os funerais eram bem comemorados. Tinha parente que só aparecia no velório. Certo dia um locutor da rádio ao ler o convite para enterro convidou toda a cidade para as “comemorações” e por pouco não revelou o menu. Sim, o menu porque dia de velório misturava dor, sentimentos e comilança.

Quando alguma pessoa idosa estava por morrer, já desenganado pelo médico que geralmente estipulava uma “data de partida”, se iniciava na casa um verdadeiro ritual de preparação de doces e salgados para receber as visitas.

Carneava-se porco, galinha ou se o morto era bem popular, que reuniria boa parte da cidade, sacrificava-se uma rês. Também tinha velório humilde que distribuía bolachinhas, que ficavam por meses guardadas em latas, e eram servidas com chá, mate, leite e café preto.

Outros se resumiam numa pastelaria, como foi o caso do seu Mano, que era o diminutivo de Manoel. No leito da morte, sentiu um cheiro de fritura que vinha da cozinha e chamou a neta para saber o que estavam preparando. Ao saber que era pastel, pediu para que a neta trouxesse um para ele, mas ouviu da voz inocente da menina:

– A vó disse que os pasteis são pro velório!

Quando o seu Vito, fazendeiro famoso e de bom coração estava por morrer, logo toda a parentaia foi avisada. No dia seguinte começaram a chegar os convidados e nada dele partir. Passaram-se três longos dias até que o seu Vito se entregou. Uma verdadeira quermesse.

Os funerais eram locais de encontros de familiares e movimentavam as comunidades. Os adultos se revezavam em confortar os de casa, recordavam bons e maus momentos da vida do falecido. Não era tão raro assim ouvir gargalhadas quando o assunto era o lado engraçado de quem partia. Às crianças cabia espantar as moscas que rondavam o caixão.

Hoje a tradição ficou de lado, a falta de tempo, a facilidade de se deslocar, as redes sociais oferecem on-line, quer dizer, transmitem ao vivo a cerimonia e também, pelo fato dos velórios não serem mais em casa. Isso tudo tornou sem graça o último adeus.

 

Ladainhas, novenas e capitéis

É o que dá entrar no facebook sem estar preparado para tanta informação inútil de maneira nada aproveitável. O ócio campeia nas redes sociais e o ódio é apenas uma forma de acobertar a covardia daqueles que não tem coragem de falar em público. Sim, as redes sociais são públicas, mas também são privadas para quem quer se esconder por detrás de uma tela golpeando o teclado, espargindo toda a raiva e o veneno de quem não foi convidado para entrar, mas que também não tem a menor intenção de sair.

São nômades a procura de um lugar seguro para acomodar a caravana. São ricos, pobres, depressivos, hiperativos, ladrões, bandidos, beatos, honestos, íntegros ou safados, bem ou mal educados, que se empoderam de uma ferramenta democrática que compartilha amores, desamores, paixões repentinas, declarações, assuntos sérios e besteiras, na ânsia de levar o mais longe possível, atingir o maior número de internautas na esperança de que leiam longas, repetidas e desanimadoras ladainhas bem como pedem para compartilhar suas novenas com intenção de agradar os santos, os arcanjos e os querubins e realizar seus desejos solicitados durante promessas fervorosas feitas com devoção no capitel de cada estrada. (pra quem não sabe ou não é daqui – capitéis são pequenos santuários, locais de oração, instalados em estradas rurais substituindo as capelas)

O facebook acima de tudo é um lugar para extrapolar, judiar, jurar, amar ou tripudiar e pedir desculpas. Pode acomodar a mais pura inocência ou acobertar a mais cruel ameaça e o mais brutal dos crimes.

O que não se quer dizer cara a cara se diz no face, lugar sagrado, onde o bem e o mal disputam o mesmo espaço.

 

Do Rio Doce ao Bataclan

Bastou um fato do outro lado do Atlântico para que o pobre e agonizante jornalismo esquecesse o seu principal desastre nacional e direcionasse o foco para os acontecimentos em Paris. Era o que faltava para que a grande mídia procurasse desviar a atenção de uma nação inteira, deixasse de investigar as causas locais e passasse a investigar as causas de uma ação premeditada de fundamentalistas fanáticos que, em nome da paz, fazem guerra contra quem, também em nome da paz, brinca de jogar bombas no território alheio.

Os atentados em Paris na última sexta-feira, vitimando centenas de pessoas na casa de shows Bataclan e em cinco outros locais, deixando feridos, abafaram por completo os noticiários das grades redes (não critico aqui diretamente os profissionais), mas os patrões, que já vinham demonstrando certo desconforto para falar da agonia de dois estados brasileiros e por conseqüência de um desastre ambiental provocado pelo rompimento de uma barragem de lama tóxica que engoliu casas, pessoas e contaminou as águas do Rio Doce, um dos maiores do mundo, afetando o ecossistema de maneira incalculável. As informações tentavam culpar um suposto abalo sísmico pelo desastre e se resumiam ao tipo de providência que estava sendo tomadas, deixando em segundo plano a extensão do problema.  Os verdadeiros responsáveis procuravam amenizar a situação divulgando ações paliativas como as chamadas medidas emergenciais, comum e  necessárias em qualquer cataclisma, assim como: Vamos providenciar água e desatolar os mortos prá dizer que estamos fazendo a nossa parte.

Paris caiu do céu, justo no chafurdado momento brasileiro. O foco passou a ser a investigação dos responsáveis pelos atentados em Paris e a ameaça aos americanos, mesmo que o Estado Islâmico já tenha assumido a culpa. Aqui já se conhece os culpados, mas eles jamais assumirão a culpa. Nos dois casos, quem paga o preço pela ganância, pela intolerância, pela irracionalidade e a total falta de compromisso com o outro é aquele que está em casa e de uma hora para outra, sem aviso prévio, é encoberto pela lama ou está num show Heavy Metal e é atingido por uma rajada de balas oriundas do comércio internacional de armas. Morrem sem saber o motivo.

 

 

 

 

Texto de uma menina de 13 anos para alertar gente grande

Graziela Alves tem 13 anos, mora na cidade de Taubaté, São Paulo, e não tem o mínimo preconceito de falar sobre ela e sobre o que pensa quando o assunto é diversidade. Suas palavras superam a imbecilidade de homens e mulheres, ideologias políticas, moralistas, conservadoras e de religiosidade, dos que se achar no direito de ensinar bons costumes quando não sabem o que acontece do lado de fora da porta da sua casa, as vezes nem dentro. Enfim, orgulha-me uma juventude que pensa, fala, expõe seus pensamentos, que diz o que pensa, sem recato. Isso representa continuidade, uma nova geração preocupada com os conceitos, com o currículo da vida. Graziela merece ser lida por todos adolescentes porque é um exemplo de simplicidade, de texto direto e sem rodeios. Um exemplo de que da inocência das palavras se pode transformar um mundo cercado de violência, preconceito, homofobia, de intolerância à diversidade, tudo provocado pelo homem que não sabe conviver com suas próprias criações. Publico na íntegra o texto da pequena Grazi – PARA ALERTAR GENTE GRANDE:

“Meus professores nunca falam sobre questões que eu acho que deveriam ser mencionadas nas aulas. Raramente tem um comentário sobre como a sociedade sempre foi machista, sobre partes da história que a gente estuda (como quando excluíram as mulheres da constituição, na França), ou sobre a intolerância com judeus durante o holocausto.

Talvez seja por isso que tantas pessoas na minha sala pensem do jeito que pensam. Já me acostumei a ouvir sobre como Deus criou o homem e a mulher para ficarem juntos; ou que a mulher não deve usar certas roupas em público e agir de certo jeito para não provocar os homens. Eu, apesar de ser bem nova, me orgulho do que penso e digo quando me pedem opiniões. Acho que é tão importante discutir o feminismo e o movimento da comunidade LGBT quanto falar sobre guerras na síria e explicar fórmulas. Me sinto muito isolada no meio em que vivo, pois ninguém pensa como eu. Se dou minha opinião, logo me falam que o que eu estou dizendo é um absurdo, quando o verdadeiro absurdo é aquele racismo, machismo e aquela homofobia reproduzida pelos meus amigos. Pior que ouvir meninos sendo machistas, é ouvir todas essas coisas, e até coisas piores, vindo de meninas. Nós deveríamos nos aceitar do jeito que somos, e não rir de uma menina mais gordinha por usar uma calça mais colada ou um short mais curto. Deveríamos nos unir e nos importar com nós mesmas e com as outras, sem levar em consideração se é gorda, alta, “feia”, se tem cabelo liso ou cacheado. Deveríamos defender o nosso direito de nos expressarmos e agirmos como quisermos, não de um jeito x pois o jeito y vai “chamar a atenção dos meninos”. O feminismo é muito importante para mim e para todas as meninas e mulheres, pois é o movimento que luta e nos garante nossos direitos. Sem o feminismo, muitas mulheres ainda seriam chamadas de bruxas e queimadas em fogueiras. Hoje em dia, isso acontece do jeito “moderno”: somos chamadas de vários nomes por vivermos como queremos, sendo que esse é um direito de todas as pessoas, não importa o gênero. A sociedade, depois de tanto tempo, continua muito machista: se recusa a dar voz a quem precisa (nesse caso, as mulheres), e não faz nada para impedir que sejamos quase crucificadas. Tantas pessoas ainda pensam na mulher como um ser que deve ser calma e relaxada, elegante e bem arrumada em todas as situações. Não seria problema tratar as mulheres e meninas de um jeito x se tratássemos os homens e meninos desse mesmo jeito.

Temos que dar voz para todas as mulheres, pois todas nós merecemos ser ouvidas. Eu mereço dar minha opinião na sala de aula sem ficar nervosa por saber que irão rir de mim. Todas as meninas que tem cabelos cacheados merecem continuar desse jeito sem ter medo que digam que seus cabelos são “duros” ou “ruins”. Independente do que fez no passado, faz no presente ou fará no futuro, todas as mulheres merecem ter o direito de se vestirem, se expressarem, de agirem, pensarem, falarem e viverem como bem entenderem. Todas nós somos especiais. E eu queria muito que pais e professores ajudassem seus filhos, meus amigos, a entenderem isso.

Mulher não é um objeto.
Negro não é ladrão, nem escravo.
Gays, lésbicas, transsexuais e todos da comunidade LGBT não são pecadores.
Eles são quem são, e não podem mudar isso. Todos nós temos o direito de vivermos como quisermos, ao mesmo tempo que todos nós temos o dever de aceitar e respeitar os outros, independente de quem ou como for.”

O significado da “maçã pra profe”

Um dia Isaac Newton estava debaixo de um pé de maçã quando levou uma pancada na cabeça. Uma fruta caíra da macieira e há quem diga que o impacto tenha alinhado seus miolos dando a ele a possibilidade de formular a lei da gravitação. É aquela tal lei que diz que tem um imã no meio da terra e que este imã atrai os corpos. Mas nada tem a ver com a atração entre homens e mulheres ou de gênero, esta é uma outra atração. Enfim, todos os corpos do universo que possuem massa atraem outros corpos, o que se conclui que é por isso que as pizzarias sempre estão lotadas.

Mesmo com toda esta explicação em que o próprio Newton afirmou muitas vezes de que a inspiração para formular sua teoria da gravitação foi a observação da queda de uma maçã de uma árvore, tem aqueles que tentam mudar a história, afirmando que a maçã é um mito e que ele não chegou à sua teoria de maneira repentina. Sim, até aí eu concordo que deve ter levado algum tempo para ele se recuperar do impacto, na têmpora, causado pela fruta e descobrir que a maçã não caiu por acaso e sim para contribuir com a ciência e apagar da história o seu papel de vilã como responsável pela expulsão de Adão e Eva do paraíso ou de entalar na garganta da Branca de Neve, quase fazendo com que o Dunga pronunciasse umas palavras antes da chegada do príncipe.

Desde então a maçã começou a ser relacionada ao saber, ao conhecimento, e sempre que um aluno andava mal das pernas na escola, em que as notas no boletim mais pareciam uma manifestação do PT, lá aparecia ele com uma maçã na tentativa de limpar a barra, contar com uma ajudinha, demonstração de carinho e afeto ou puxa-saquismo puro. Reza a lenda que a teoria da maçã até hoje é utilizada por empreiteiras.

Claro que tudo não passa de teorias, que não se deve acreditar em bruxas embora a maçã que ela entregou à Branca de Neve quase provocou sua morte, que Adão e Eva preferiram ouvir os conselhos de uma serpente e não as instruções divinas e comeram a maçã do pecado, ou que Newton estava realmente cochilando debaixo de uma árvore depois de ter ingerido uma garrafa de sidra e, portanto, nem sabe direito se o que caiu em sua cabeça foi mesmo uma maçã ou o casco da garrafa que ele havia deixado na forquilha.

Em todos os casos, não dê bola às conversas e teorias banais, afinal nem se sabe ao certo o que aconteceu com o Newton, muito menos o significado da maça para a professora. Portanto, não se omita em fazer feliz quem te ensinou a ler e escrever. Nunca deixe de cumprir com suas obrigações como aluno. Leve uma maçã para a profe, mesmo que seja a última vez que você vai vê-la numa sala de aula.

Para a amiga/professora da Ufrgs Susana Rangel

 

 

O trago de canha que separou o sacerdote do sacristão

 

O pequeno Serapião, hoje grandalhão, estudava num colégio de freiras onde as aulas de religião eram obrigatórias e valiam notas. Os alunos maus tinham além das aulas, o dever, como penitência, de servir as missas da semana e nos finais de semana. Recebiam um sermão das freiras e um catecismo, que deveria ser estudado e decorado.

A lição era tomada na aula seguinte. Foram tantas as advertências, que logo se aprendia a arte de ser um coroinha, o caminho da sacristia. Serapião estava quase se tornando um sacristão profissional, não fosse um pequeno deslize.

Num final de tarde de sábado, entre um castigo e outro, entre uma penitência, novenas e “trocentas avemarias” de arrependimento dos pecados, que não passavam de alguns desaforos durante brigas na pracinha ou desobediência em casa e na escola, ouviu a voz da freira, lá da sacristia:

– Não esqueça de repor o vinho do altar!

O vinho, que na eucaristia representa o sangue de cristo era colocado num recipiente de vidro, tipo galheteiro, que durante a celebração, é misturado à água e consumido pelo padre junto com a hóstia, esta representa o corpo de cristo: vinho – sangue, hóstia – corpo.

O reservatório ainda tinha um pouco menos da metade, mas, por via das dúvidas, já que teria uma missa no sábado a noite, e duas no domingo, resolveu reabastecê-lo. De posse daquele recipiente, foi à casa canônica (residência paroquial), e completou o vinho que faltava. Estava quase anoitecendo e a escuridão na cozinha, não permitiu identificar direito qual das garrafas continha o “Sangue de Cristo”. Abriu a geladeira, sem luz interna, e transferiu a quantidade necessária para completar o recipiente. Chegou a transbordar, deixando na casa paroquial um forte aroma familiar, mas não ao ponto duma criança de apenas 8 anos identificar aquele perfume. À noite, na hora da eucaristia, lá estava serapiãozinho, vestido de sacristão, com uma bata longa e vermelha, sobreposta por outra menor, branca, mais fina, cheia de rendas e bordados, batendo um sininho toda vez que o padre erguia o cálice. O gesto do sacerdote remetia o coroinha à imagem do capitão Bellini da seleção brasileira de futebol, levantando a taça na copa do mundo de 1958 na Suécia.

Ao puxar à boca para golpear o vinho, o monsenhor fez uma cara de feia, não bebeu do cálice bento e com uma voz irritada perguntou:

– A minha empregada está na igreja?

Ninguém entendeu o motivo e as freiras ficaram agitadas tentando compreender o que estava se passando. O agito se estendeu à sacristia enquanto o monsenhor virou-se para o único sacristão e ordenou para que encontrasse a empregada,  sentenciando: – Com a máxima urgência! .

Ocorreu uma pausa na missa, fato nunca antes presenciado na história da Igreja.

Já na sacristia uma das freiras entrou apavorada denunciando que alguém tinha misturado cachaça ao vinho do padre, no caso, o monsenhor.

Prevendo que aquela seria uma noite de perturbações, cobranças e castigos, de uma só vez “piãozinho”, como era carinhosamente chamado até então, arrancou as vestimentas, dependurou no armário e foi para casa, ainda confuso e sem saber direito o que o esperava. A noite foi agitada para ele, embora reinava uma certa calma no povoado. Nem soube se a missa chegou ao amém final.

Pela manhã, da varanda da casa, ele viu uma das freira atravessando o campinho do colégio em direção a sua casa. A mãe do menino-sacristão, não era muito ligada à igreja e também não era muito chegada às freiras, mas, numa comunidade conservadora, sempre se esperava pelo pior, ainda mais para quem tinha antecedentes. Num piscar de olhos rolou pra baixo da cama, na tentativa de se esconder, a uma distância que pudesse acompanhar a prosa da mãe e da freira, e claro, esperar a sentença.

Por um viés da porta, só via os pés da freira sobre o assoalho de madeira. Ela relatou o ocorrido na noite anterior como se o lugarejo não soubesse de nada. As tias e a vizinhança já tinham se encarregado de espalhar a noticia ainda naquela noite, contada com exageros, chegando a ter alguns requintes de crueldade.

Blá, blá, blá daqui; blá, blá, blá de lá e a mãe do pequeno sacristão interrompeu a conversa com uma pergunta que parecia um tanto quanto inocente, mas o suficiente para matar a curiosidade e deixar a freia com a pulga atrás da orelha:

– O que é que fazia uma garrafa de cachaça na geladeira do monsenhor?

Silêncio… e a prosa acabou por aí.

Por pregação histórica, o sacerdote deveria se alimentar apenas do “Sangue de Cristo”, e a presença da pinga poderia representar um pecado venial, um deslize sacerdotal.

A freira desconversou, gaguejou, circulou na sala e sem conseguir responder direito aquela pergunta traiçoeira e fulminante, tratou de ir embora sem mesmo despedir-se direito, alegando que o conselho da escola trataria do caso. Só não ficou claro se era o caso do sacristão ou da presença da água ardente na casa canônica.

Serapiãozinho, todo encagaçado continuou escondido, tremendo de medo e tentando controlar a respiração, e claro imaginando a sentença que seria aplicada.  – Talvez uma sova de laço com o cinto do pai que, por ser devoto, não perdoaria tal afronta ao sacerdote – pensou, ou quem sabe ficar uma semana sem ir ao campinho ou à praça para jogar bola e brincar com os amigos. Não haveria campeonato de arremesso de bosta contra o vento nem mesmo de cuspe à distância, duas modalidades em que ele era craque. Ao passar pela varanda, a mãe colocou a cabeça para dentro da janela do quarto e disse com um tom de voz suave que mais parecida de uma pessoa aliviada:

– Sai debaixo desta cama, e vem me ajudar na horta!