Mitos

Procusto é um personagem da mitologia grega, portanto, um mito. Simboliza a negação da ciência e a relativização de vidas humanas. Era um gigante que trabalhava em uma estalagem nas altas colinas de Ática, onde oferecia hospedagem para os viajantes. Na casa em que morava, na serra de Elêusis, ele tinha uma cama de ferro, com o seu exato tamanho, e era ali que ele acolhia os viajantes.

Se fossem altos, Procusto decepava pés e cabeças para ajustá-los à cama e os de pequena estatura eram esticados até atingirem o tamanho suficiente. Daí o nome, Procusto “o esticador”. Enquanto aplicava a punição às suas vítimas, repetia: “Se você se destacar, cortarei seus pés. Se você demonstrar ser melhor que eu, cortarei sua cabeça.”

O mito deu origem à síndrome de Procusto, reconhecida pela psicologia e psicanálise. É um conceito de oportunismo, que aparece no ambiente de trabalho e de largo emprego na política para destruir quem é mais preparado, inteligente. É assim que o portador da síndrome expõe o seu arrogo, sua estupidez. Boicotam ideias com a intenção de diminuí-los. É o egoísmo sobre aqueles que prosperam.

Ao perceber alguma vitória que não a sua, a pessoa sente-se extremamente  ameaçada e não consegue comemorar algo que não seja feito por ela. Enfim, são pessoas com perfis frustrados ou autoestimas muito frágeis, avessos a lideranças e desafios.

Antes que eu esqueça, deixa contar como acabou o reinado de terror do nosso personagem. Ele foi capturado pelo herói ateniense Teseu, que o prendeu em sua própria cama e cortou-lhe a cabeça e os pés, aplicando-lhe a mesma crueldade que sentenciava aos seus hóspedes.

Por aqui aguardamos um Teseu que, ou estique a corda, ou corte o mal pela raiz.

 

É preciso desconstruir o Pinóquio

O Brasil era, até bem pouco tempo, o segundo colocado no ranking de ignorância sobre a nossa realidade, só perdia para a África do Sul. Agora deve estar em primeiro. O brasileiro à direita, gosta de distorcer os fatos, persistir no erro, adora uma mentirinha e por gostar tanto de bofeira, elegeu um Pinóquio para inflar sua ira e satisfazer seu ego. E cá estamos ferrados nas mãos de um aloprado.

Ô Gepeto, vê se vem logo consertar o estrago.

Por pouco

 

Entrei na sorveteria naquela tarde pensando nos sabores a escolher. Logo vi um homem alterado na voz, chamando pela filha pequena. O cara era uma tora, cada braço dava uma perna, das minhas, o pescoço era a minha cintura, com folga, a testa mais parecia uma plataforma de retroescavadeira apropriada para quebrar ossos, começado pelo nariz. O tênis de cor acinzentada parecia uma sapata de sustentação de um prédio de oito andares.

Peguei a casquinha e me aprumei para recheá-la, quando ele repetiu:

– Perto do pai, fica perto do pai.

A menina veio na minha direção, agarrando a minha perna.

– Eu falei perto do pai, disse ele com uma voz ainda mais exaltada.

A menina apertou ainda mais a minha perna, que estava mais gelada do que os sorvetes no freezer.

Foi quando uma mulher se aproximou, pegou a criança pela mão dizendo:

– Vem com a mamãe, deixa o papai servir o sorvete.

O clima não ficou dos melhores já que, afinal, a mãe não deu pistas sobre quem é o pai? Era o mínimo que a clientela esperava.

Larguei a casquinha, já esmigalhada e ingressei na calçada da Rua. Disparei sem rumo, como se passasse da primeira pra quinta marcha num piscar de olhos e sem olhar para trás. Juro que senti o chão tremer às minhas costas mas, segui firme obedecendo a lei da física, aquela dos corpos em movimento e ao mesmo tempo calculando o estrago que seria caso uma patrola alcançasse o Corolla, por exemplo.

 

Se os repórteres abandonarem a árvore, Bolsonaro perde o palanque

 

Ouvi outro dia o relato de um jornalista político de Brasília falando sobre a insalubridade que é ficar debaixo de uma árvore esperando pelo Bolsonaro.

Já fomos melhores, os jornalistas nunca, em momento algum, baixaram a guarda para políticos de ocasião. Cada vomitada tóxica que sai da boca do Bolsonaro repercute na mídia e nas redes sociais como se fosse novidade. Nunca será um furo de reportagem porque as declarações são coletivas, mas são escadas para que os horrores ditos por este cara alcancem a mídia. Ele não tem argumentos e nem capacidade intelectual para se comunicar de outra forma. É o seu palanque eleitoral porque de outra forma ele não se sustentaria, foge do debate político como o diabo foge da cruz.

Bolsonaro é um farsante que se apega às palavras rasas para fulminar seus desafetos, entre os quais a imprensa que cumpre o seu papel de apurar a verdade. Aliás, ele odeia a verdade e está aí o motivo de tanta raiva dos jornalistas.

Então, o meio encontrado por ele para despachar seu ódio logo cedo foi transformar a árvore em palanque eleitoral. Depois, delirar com a reação pública, acompanhando a repercussão pelas redes sociais, sentado na privada do Palácio do Planalto, não aquela perto da biblioteca porque ele odeia cheiro de livros, mas do seu gabinete que deve ter um perfume adequado a badalhoca que produz.

O palanque que lhe resta é casualmente um símbolo que ele odeia por estar associada ao meio ambiente, mas que resiste á estupidez diária do Bolsonaro e empresta a sua sombra aos profissionais de imprensa que cumprem o seu papel de reportar os fatos.

Se os repórteres abandonarem a árvore, o trapaceiro perde o palanque.

 

Agora pode

– Pai, capitão é mais que general?

– Não filho, até chegar a general o capitão tem que ser major, acho que é  assim.

– Mas tem capitão que manda em general.

– Não filho, não tem, não pode

– E o Bolsonaro?

– O que é que tem ele?

– Tem general abaixo dele

– Bolsonaro é ex-militar

– Mas recebe como capitão, não recebe?

– Acho que recebe sim, mas ele não é mais capitão 

– Mas continua sendo chamado de capitão 

– Isso é eufemismo

– Então é por isso que você chama ele de capitão,  já chamou de mito que eu sei

– Capitão é mais autêntico

– Então você ainda o considera um capitão 

– Digamos que sim, ele é um líder, maior de todos

– Maior que general

– Evidente

– Mas você disse que capitão não pode mandar em general

– Agora pode

 

Cachinhos de ouro

Desci a Rua Dr. Flores como quem salta do trem em movimento, travando as pernas para não tropeçar nas pessoas, ainda mais com aquele chão de garoa. Ali perto uma mulher repetindo a mesma ladainha:
– Compro ouro e cabelo… compro ouro e cabelo…

Refeito eu daquele equilibrismo sem corda, passando ass mãos para ajeitar fiapos do cabelo, vi que a mulher me observava num olhar sereno, quase me pedindo em namoro. Mas o movimento dos seus lábios foi para dizer apenas:
– Compro ouro.

 

Mídia comparsa, povo alienado

Os senhores e senhoras da comunicação contemporizando as asneiras ditas pelo Paulo Guedes como sendo uma infelicidade do infeliz ministro. Em momento algum falam que nem o dólar a $4.35, que deveria favorecer as exportações, está resolvendo. Escondem do cidadão que houve uma queda de 40 por cento nas exportações da indústria na comparação com janeiro de 2019 (dados dia institutos de pesquisas confirmados pela Federação das Indústrias – Fiergs), que os americanos rebaixaram o Brasil e não estão comprando aqui, nem a China. Que cem mil mil empregadas domésticas custam menos que o cartão corporativo do Bolsonaro. Enfim, por que será que temos um povo alienado, que segue a tropa sem se importar com o abismo?

Perguntinha complicada

No ônibus, sentado ao lado de uma senhora de aparência humilde, ao passar pela Avenida Mauá no centro de Porto Alegre, ela olha uma enorme faixa no prédio da “ocupação Saraí” e me pergunta:
– Eles invadiram este prédio?
– Não, eles ocuparam, quando alguma coisa está desocupada, se ocupa.
– Ahhhmmm
– Invasão é quando alguém chega na sua casa, lhe coloca pra fora e fica morando lá.
– Entendi.
– É mais ou menos o que os Estados Unidos fazem com os árabes, os africanos e outros países pelo mundo, reforcei o argumento.
Ela não pareceu muito interessada no meu argumento, até me pareceu tê-lo ignorado.
Mais uns meros a frente ela, pensativa e preocupada, diz:
– E eles pagam água e luz?
Putz!!!

Vai saber… é de matar curioso

No lotação a mulher ao lado saca o celular e inicia uma conversa. Claro que eu só ouço o que ela diz.

– Oi amiga, tudo bem?

– Eu também.

– Ela tá bem?

– Humm, bom…

– Ele melhorou?

– Vocês são amigos já faz um bom tempo né?

– O que foi mesmo que aconteceu com ele?

– Ai amiga, que constrangedor…

Aí a conversa se desenrola aos resmungos e um bom tempo e aenhora só ficou no humm, affe, ixe, a fudê… até que a certa altura da viagem toma novos contornos.

– Sim, vamos hoje a tarde

– É longe sim, dez horas de vigem, fora as paradas (risos)

– Vamos a Rê, o Dê, a Mi e Eu.

– Visitar o filho da Rê que mora lá.

– É, o mais novo, o Puí, ele tem uma filha que nasceu faz pouco.

– Sim, é Gabrieli, nome de pompa, com dois éles e ipsolon no final, dizem que é linda.

(Arrumando então: Gabrielly – ninguém é adivinha).

A mulher levanta ligeiro e pede pro motorista deixá-la na esquina, a lotação já estava na esquina, ela desce correndo sem que tivesse a oportunidade de saber ao menos o rumo da viagem e que tipo de mal constrangedor foi aquele do amigo da amiga.

 

 

O pó dos delírios

Procurem entender a minha angustia – na madrugada estou escrevendo, com a janela aberta pro lado do mato, com o ventilador de teto na testa porque não suporto o ar refrigerado. Lá pelas tantas dou uma pausa para esvaziar o que sobrou na xícara de café preto, mais pra frio do que pra morno. Depois do último gole sinto que duas asas se manifestaram no fundo da caneca. Alguém sabe afinal, se o pó da asa da mariposa é fatal?

Por que fui perguntar? Os amigos me tiraram, atocharam todas pelas redes sociais, desde pó alucinógeno ao ataque de caganeira, ou que mata em três ou quatro dias.

Pura mentira, deveriam trabalhar pro Bolsonaro, patrocinados pelo véio da Havan, de tanto fake que inventaram.

Tou aqui, vivinho da silva. Nada de alucinógeno, só ainda um pouco alucinado com o que aconteceu.