Caviar e torresmo só para os ricos

Alguém sabe explicar por que o torresmo é tão caro?

Me espantei ao ver uma placa num armazém de beira de estrada na região de Vila Maria, anunciando o preço do torresmo. Não acreditei e perguntei ao bodegueiro se aquele valor era real.

– Aqui ainda é cinquenta, mas tem lugar que chega a setenta reais o quilo.

– Caramba, e por quê?

– É o preço.

Fiquei então imaginando que a tal iguaria que sempre faz parte das rodas de samba e pagode e é cantada por músicos e compositores, deve ter passado de um nível de mesa de bar para os restaurantes de luxo ao lado do caviar por exemplo. O garçom anuncia:

– Pra entrada temos as opções de caviar Au Blinis ou torresmo Au Chef Zé Silva. O primeiro é light o segundo nem tanto.

No cardápio aparecem os preços e os acompanhamentos, o caviar é servido com vodca, o torresmo com uma purinha de alambique, o preço é o mesmo.

Há quem diga que o Eike já estava de olho neste novo eldorado, deixando de lado suas minas de ouro para se dedicar a compra e venda de torresmo, um mercado bem mais lucrativo, explorando o porco na origem. Ainda na maternidade o porquinho receberia um brinco de qualidade que o acompanharia do chiqueiro aos embutidos.

Enfim, o torresmo receberia uma avaliação da ANVISA revelando que ele não é prejudicial à saúde como andam falando, que pode fazer parte de uma dieta equilibrada na feijoada e que deve ser consumido com moderação.

O torresmo deixaria de ser o vilão dos gordinhos e se tornaria um complemento rico em proteína com valores diários que não afetam o colesterol.

Surgiria a dieta do torresmo que o Eike exigiria no seu cardápio em Bangu, para repor as calorias desperdiçadas entre uma delação e outra.

O torresmo poderia se tornar sim um vilão da inflação chegado ao ponto de derrubar o Temer e acabaria se transformando em herói nacional. Desbancaria o Renan, o Jucá e o Padilha num piscar de olhos. O Meireles renunciaria e o STF aceitaria a denuncia de golpe do torresmo sem segredo de justiça, mesmo que não houvesse uma explicação clara que incriminasse a supervalorização deste derivado do porco. Enfim, iria direto pra banha.

Retomei a estrada tentando compreender o papel que o torresmo deixa de exercer na vida das pessoas, mas só pude concluir que é mais um alimento que some da mesa do pobre.

Foi aí que entendi uma piada que rola nas redes sociais onde uma mulher pede para que não mandem para ela mensagens de datas especiais como o dia do amigo e termina dizendo:

– Mandem torresmo.

 

Os servidores gauchos e a caça ao pokémon dos salários

O servidor público do estado do Rio Grande do Sul anda azarado no jogo. O aplicativo não serve para encontrar, por exemplo, o pokémon da integralidade salarial. Procuram entre arbustos, bosques e galhos e só encontram o Go em frangalhos.

Noutro dia foram procurar na Secretaria da Fazenda e, sem pista, rolaram escada abaixo, sobrou até pra jornalista.

Só o pokémon do salário parcelado é que tem sido encontrado, mas ele mal chega e sai e é facilmente encontrado na farmácia, no açougue, no supermercado.

Pelo quinto mês consecutivo o governo gaúcho parcela o pagamento dos salários dos servidores (em março foi pago em 9 vezes). O gerente da Loja Piratini, que já foi garoto propaganda da Tumelero, opta pelo pagamento em suaves prestações.

Promoção especial: É pegar ou largar!

A gente brinca, mas a situação é séria.

A pergunta micuim: Porque uns governadores pagaram em dia e outros não?

Vai ser preciso abrir a caixa preta dos cofres públicos pra ver a cor do dinheiro?

Enfim, este pokémon não é nenhum guri arteiro pregando peça no bolso alheio. Ele não descobre onde está o dinheiro. Ai que dor, pokémon assim não serve pro servidor.

Ah, primeiramente, fora com esta conversa de que não há dinheiro, a história é repetitiva e todos sabem onde querem chegar.

 

Os bobos da corte querem me fazer de palhaço

Primeiro a operação para prender perigosos terroristas, entre eles um criador de galinhas do interior gaúcho, com toda a pompa e exorbitância do cargo de ministro da Justiça de Temer, o ex-advogado do Primeiro Comando da Capital – PCC, Alexandre de Moraes. A atitude do ministro de transformar a prisão de suspeitos sem prova alguma num show midiático, foi condenada pelo serviço de inteligência brasileiro alegando entre outras coisas de que ele pode ter alertado os verdadeiros gansos islâmicos. Aliás,o próprio chefe Temer não gostou nada do que viu. 
 
Depois foi a vez do Temer que, na busca pela popularidade, convoca a imprensa para vê-lo buscar o filho na escola numa demonstração narcisista de causar inveja. Paparazzi se engalfinhando para pegar o melhor ângulo, ajudando a derrubar o conceito de quem não consegue decolar. Vale lembrar que o ex-presidente Fernando Collor também fazia da mídia marionetes, na desesperada busca de recuperação da sua decadente popularidade. 
 
Por último o ministro de Relações Exteriores José Serra que não aprendeu a lição da ex-ministra Kátia Abreu que lhe serviu uma taça de vinho sobre o terno, depois de ser deselegantemente chamada por ele de namoradeira. Pois o chanceler, sim, agora Serra é chanceler, foi ao México e lá debulhou mais um rosário de machismo e preconceito contra as mulheres ao dizer que o país da América Central é perigoso porque metade do Senado é formado por mulheres. Não se dando por vencido por sua piada sem graça, convidou a secretária de Relações Exteriores do México para a abertura das Olimpíadas, alertado sobre o perigo da sua vinda que poderá alertar as mulheres brasileiras.
 
No Brasil as mulheres não representam 20% das cadeiras no Senado e elas também não foram lembradas para compor o ministério interino de Temer. Talvez o problema de Serra com as mulheres se explique pelo fato de que nas eleições presidenciais de 2010 ele foi derrotado pela Dilma Roussef.

Que semaninha… Moro, Pesquisa, Temer e as Galinhas

Terminamos uma semana em que o juiz Sérgio Moro disse que não larga o osso, ou seria a cartilagem? de Lula, numa visível demonstração parcial das suas intenções. Ou seja: ele quer ralar o ex-presidente a qualquer preço e para isso toma partido, o que não é nenhuma novidade, mas, enfim, pros menos esclarecidos é bom que se repita.

A Folha de São Paulo pirou na matemática e publicou de forma grosseira, intencional e criminosa os dados de uma pesquisa, colocando em cheque os institutos que trabalham sério na avaliação dos dados. A Folha estampou na capa, sem o mínimo pudor, que 50% dos brasileiros desejavam que o presidente interino, Michel Temer, concluísse o mandato de Dilma e continuasse como presidente até 2018, enquanto apenas 3% do eleitorado era favorável a novas eleições, e apenas 4% desejava que Dilma e Temer renunciassem. De onde saíram os números que protegem um governo impopular, continua sendo uma incógnita.

Por fim, os telejornais oficiais da TV aberta noticiaram durante todo o final de semana que as novas medidas econômicas para o país só serão anunciadas depois da definição do impeachment da presidente afastada. Um deputado da base aliada chegou a alegar que a decisão em não anunciar as medidas seria em respeito à Dilma. Ora, convenhamos, num grupo que vende e entrega a mãe não podemos espera outra a coisa a não ser um pé no traseiro e para anunciar medidas impopulares o caminho deve estar limpo.

Pra terminar, só falta o inter perder pra Ponte Preta e se aproximar da área de exclusão.

Aí eu me isolo, vou plantar batatas, porque criar galinhas ta ficando perigoso.

Levando um lero

Dia de chuva, de mormaço, marrento, eu cheio de textos por fazer, usando repelente para afastar a chicungunha, aí toca o telefone fixo, é do telemarketing:

Cartoon telemarketinDaniel

– Bom dia, aqui é Mirela da Net, com quem eu falo.

– Cáspio

– Como?

– Cáspio, sabe o mar Cáspio?

– Só conheço Cidreira senhor

– É um mar que não tem saída pro mar.

– Não entendi senhor

– Não vem ao caso, é Mirela com “I”

– Com “Y”, e dois elles

– Sei

– Estou ligando senhor pra dizer que a Net e a Oi agora estão juntas, o senhor sabia?

– Não fazia ideia

– Então, eu estou ligando para lhe oferecer um plano tipo ilimitado.

– Opa, ilimitado?

– De Oi pra Oi.

– Assim não me interessa

– Ah, mas tem twitter livre

– Não uso twitter

– Mas tem 1 giga de internet

– Isso dá pra quantos minutos ao dia?

– Depende do quanto o senhor usar

– 24 horas

– Aí não dá

– Mas eu tenho um plano da TIM com internet livre

– Não existe internet livre

– Mas ela fica o ano inteiro ligada e nunca acaba

– Eu conheço plano deles, já tive também, eles dão mais gigas

– E porque vocês não dão?

– É que o nosso é um plano especial

– Especial em quê?

– Eu posso lhe encaminhar a fatura?

– Fatura de quê?

– Do nosso plano especial

– Mas o que ele oferece além da TIM, que também não é lá aquela coisa.

– Então, essa coisa é melhor em nosso plano

– Que coisa?

– A coisa que o senhor reclama

– Mas eu não te falei coisa alguma; que coisa!

– Se o senhor não tá contente com a TIM eu posso encaminhar o melhor plano e a fatura.

– De onde você tirou essa?

– Tá escrito aqui pra eu falar pro senhor, o nosso plano é o melhor de todos

– Melhor em quê, eu quero saber.

– Senhor, mas o combinado é pra eu ligar oferecer o plano e pedir se posso encaminhar a fatura.

– Sem internet ilimitada não tem papo

Nesta hora a moça ficou calada, a linha caiu e ela não retornou mais a ligação, mas quero dizer a Myrella que estou à espera de uma contraproposta, poque a TIM é uma encrenca.

 

Ilustraçao: Daniel Cruz

 

 

Ladainhas, novenas e capitéis

É o que dá entrar no facebook sem estar preparado para tanta informação inútil de maneira nada aproveitável. O ócio campeia nas redes sociais e o ódio é apenas uma forma de acobertar a covardia daqueles que não tem coragem de falar em público. Sim, as redes sociais são públicas, mas também são privadas para quem quer se esconder por detrás de uma tela golpeando o teclado, espargindo toda a raiva e o veneno de quem não foi convidado para entrar, mas que também não tem a menor intenção de sair.

São nômades a procura de um lugar seguro para acomodar a caravana. São ricos, pobres, depressivos, hiperativos, ladrões, bandidos, beatos, honestos, íntegros ou safados, bem ou mal educados, que se empoderam de uma ferramenta democrática que compartilha amores, desamores, paixões repentinas, declarações, assuntos sérios e besteiras, na ânsia de levar o mais longe possível, atingir o maior número de internautas na esperança de que leiam longas, repetidas e desanimadoras ladainhas bem como pedem para compartilhar suas novenas com intenção de agradar os santos, os arcanjos e os querubins e realizar seus desejos solicitados durante promessas fervorosas feitas com devoção no capitel de cada estrada. (pra quem não sabe ou não é daqui – capitéis são pequenos santuários, locais de oração, instalados em estradas rurais substituindo as capelas)

O facebook acima de tudo é um lugar para extrapolar, judiar, jurar, amar ou tripudiar e pedir desculpas. Pode acomodar a mais pura inocência ou acobertar a mais cruel ameaça e o mais brutal dos crimes.

O que não se quer dizer cara a cara se diz no face, lugar sagrado, onde o bem e o mal disputam o mesmo espaço.

 

Do Rio Doce ao Bataclan

Bastou um fato do outro lado do Atlântico para que o pobre e agonizante jornalismo esquecesse o seu principal desastre nacional e direcionasse o foco para os acontecimentos em Paris. Era o que faltava para que a grande mídia procurasse desviar a atenção de uma nação inteira, deixasse de investigar as causas locais e passasse a investigar as causas de uma ação premeditada de fundamentalistas fanáticos que, em nome da paz, fazem guerra contra quem, também em nome da paz, brinca de jogar bombas no território alheio.

Os atentados em Paris na última sexta-feira, vitimando centenas de pessoas na casa de shows Bataclan e em cinco outros locais, deixando feridos, abafaram por completo os noticiários das grades redes (não critico aqui diretamente os profissionais), mas os patrões, que já vinham demonstrando certo desconforto para falar da agonia de dois estados brasileiros e por conseqüência de um desastre ambiental provocado pelo rompimento de uma barragem de lama tóxica que engoliu casas, pessoas e contaminou as águas do Rio Doce, um dos maiores do mundo, afetando o ecossistema de maneira incalculável. As informações tentavam culpar um suposto abalo sísmico pelo desastre e se resumiam ao tipo de providência que estava sendo tomadas, deixando em segundo plano a extensão do problema.  Os verdadeiros responsáveis procuravam amenizar a situação divulgando ações paliativas como as chamadas medidas emergenciais, comum e  necessárias em qualquer cataclisma, assim como: Vamos providenciar água e desatolar os mortos prá dizer que estamos fazendo a nossa parte.

Paris caiu do céu, justo no chafurdado momento brasileiro. O foco passou a ser a investigação dos responsáveis pelos atentados em Paris e a ameaça aos americanos, mesmo que o Estado Islâmico já tenha assumido a culpa. Aqui já se conhece os culpados, mas eles jamais assumirão a culpa. Nos dois casos, quem paga o preço pela ganância, pela intolerância, pela irracionalidade e a total falta de compromisso com o outro é aquele que está em casa e de uma hora para outra, sem aviso prévio, é encoberto pela lama ou está num show Heavy Metal e é atingido por uma rajada de balas oriundas do comércio internacional de armas. Morrem sem saber o motivo.

 

 

 

 

Texto de uma menina de 13 anos para alertar gente grande

Graziela Alves tem 13 anos, mora na cidade de Taubaté, São Paulo, e não tem o mínimo preconceito de falar sobre ela e sobre o que pensa quando o assunto é diversidade. Suas palavras superam a imbecilidade de homens e mulheres, ideologias políticas, moralistas, conservadoras e de religiosidade, dos que se achar no direito de ensinar bons costumes quando não sabem o que acontece do lado de fora da porta da sua casa, as vezes nem dentro. Enfim, orgulha-me uma juventude que pensa, fala, expõe seus pensamentos, que diz o que pensa, sem recato. Isso representa continuidade, uma nova geração preocupada com os conceitos, com o currículo da vida. Graziela merece ser lida por todos adolescentes porque é um exemplo de simplicidade, de texto direto e sem rodeios. Um exemplo de que da inocência das palavras se pode transformar um mundo cercado de violência, preconceito, homofobia, de intolerância à diversidade, tudo provocado pelo homem que não sabe conviver com suas próprias criações. Publico na íntegra o texto da pequena Grazi – PARA ALERTAR GENTE GRANDE:

“Meus professores nunca falam sobre questões que eu acho que deveriam ser mencionadas nas aulas. Raramente tem um comentário sobre como a sociedade sempre foi machista, sobre partes da história que a gente estuda (como quando excluíram as mulheres da constituição, na França), ou sobre a intolerância com judeus durante o holocausto.

Talvez seja por isso que tantas pessoas na minha sala pensem do jeito que pensam. Já me acostumei a ouvir sobre como Deus criou o homem e a mulher para ficarem juntos; ou que a mulher não deve usar certas roupas em público e agir de certo jeito para não provocar os homens. Eu, apesar de ser bem nova, me orgulho do que penso e digo quando me pedem opiniões. Acho que é tão importante discutir o feminismo e o movimento da comunidade LGBT quanto falar sobre guerras na síria e explicar fórmulas. Me sinto muito isolada no meio em que vivo, pois ninguém pensa como eu. Se dou minha opinião, logo me falam que o que eu estou dizendo é um absurdo, quando o verdadeiro absurdo é aquele racismo, machismo e aquela homofobia reproduzida pelos meus amigos. Pior que ouvir meninos sendo machistas, é ouvir todas essas coisas, e até coisas piores, vindo de meninas. Nós deveríamos nos aceitar do jeito que somos, e não rir de uma menina mais gordinha por usar uma calça mais colada ou um short mais curto. Deveríamos nos unir e nos importar com nós mesmas e com as outras, sem levar em consideração se é gorda, alta, “feia”, se tem cabelo liso ou cacheado. Deveríamos defender o nosso direito de nos expressarmos e agirmos como quisermos, não de um jeito x pois o jeito y vai “chamar a atenção dos meninos”. O feminismo é muito importante para mim e para todas as meninas e mulheres, pois é o movimento que luta e nos garante nossos direitos. Sem o feminismo, muitas mulheres ainda seriam chamadas de bruxas e queimadas em fogueiras. Hoje em dia, isso acontece do jeito “moderno”: somos chamadas de vários nomes por vivermos como queremos, sendo que esse é um direito de todas as pessoas, não importa o gênero. A sociedade, depois de tanto tempo, continua muito machista: se recusa a dar voz a quem precisa (nesse caso, as mulheres), e não faz nada para impedir que sejamos quase crucificadas. Tantas pessoas ainda pensam na mulher como um ser que deve ser calma e relaxada, elegante e bem arrumada em todas as situações. Não seria problema tratar as mulheres e meninas de um jeito x se tratássemos os homens e meninos desse mesmo jeito.

Temos que dar voz para todas as mulheres, pois todas nós merecemos ser ouvidas. Eu mereço dar minha opinião na sala de aula sem ficar nervosa por saber que irão rir de mim. Todas as meninas que tem cabelos cacheados merecem continuar desse jeito sem ter medo que digam que seus cabelos são “duros” ou “ruins”. Independente do que fez no passado, faz no presente ou fará no futuro, todas as mulheres merecem ter o direito de se vestirem, se expressarem, de agirem, pensarem, falarem e viverem como bem entenderem. Todas nós somos especiais. E eu queria muito que pais e professores ajudassem seus filhos, meus amigos, a entenderem isso.

Mulher não é um objeto.
Negro não é ladrão, nem escravo.
Gays, lésbicas, transsexuais e todos da comunidade LGBT não são pecadores.
Eles são quem são, e não podem mudar isso. Todos nós temos o direito de vivermos como quisermos, ao mesmo tempo que todos nós temos o dever de aceitar e respeitar os outros, independente de quem ou como for.”

Velha infância

As doenças mais comuns na minha infância eram conhecidas por sarampo, varíola, catapora, varicela, caxumba. Acho até que os sintomas de algumas eram semelhantes.  Quando uma criança empipocava a pele, ela era misturada às demais para que todas contraíssem o vírus ao mesmo tempo, o que facilitava o cuidado coletivo. Assim, todas ficariam curadas mais ou menos ao mesmo tempo, reduzindo desta forma o trabalho de acompanhamento. Outra providência era que todos perderiam o mesmo período de aula e retornavam juntas. Certa vez uma turma inteira contraiu varicela e a professora foi obrigada a suspender as aulas por falta de alunos. O maior cuidado era com a caxumba que podia descer para os testículos dos meninos e provocar um estrago.

Outra providência tomada pelos pais era a administração de remédios para combater verminose. Como a água não era tratada e poucos tinham acesso aos filtros de barro, as frutas eram consumidas no arvoredo sem o cuidado de lavar as mãos, a presença de vermes era certa. Não recordo se existiam campanhas de combate à verminose, mas lembro das “chumbadeiras de bichas”, uma espécie de benzedeira, que durante uma reza, uma ladainha, derramava chumbo derretido dentro de um copo de água que era colocado na cabeça da criança. Uma crença para controlar as lombrigas, como uma espécie de transição de um ciclo de acordo com o calendário gregoriano.

Sal amargo e óleo de rícino também eram outras maneiras de combater os vermes. De gosto horrível eram enfiados com uma colher goela adentro, sempre com a ajuda de um adulto para controlar os chutes e tapas e segurar fechada a boca da criança até a certeza de que aquela gosma já tinha tomado o rumo do estômago.

Isso foi há muitos anos, quando não existia saneamento básico, hospitais, postos de saúde, água filtrada, encanada, engarrafada, a abundância de Mac’s, Wal’s, Hut’s, Fast’s. Uréia naquele tempo era um produto colocado nas plantações de milho, hoje evoluiu tanto que é utilizado para o melhoramento do leite. Parecia até que as doenças também eram diferentes. Os alimentos tinham gosto e matavam a fome de verdade. Um tempo em que a qualidade da sobremesa mexia com as bichas.

 

Dona Firmina e a EJA

Dona Firmina aparenta uns cinquenta e poucos, mora na Zona Sul de Porto Alegre e espera um ônibus da linha Belém Novo. Frequenta aulas da EJA*, tudo para se ver livre do marido que trabalha durante o dia e a noite aparece em casa para reclamar da vida, feito um oprimido.

– Eu faço EJA, mais pra me encontrar com as amigas que também querem sair de casa, todas como eu, marido que incomoda e fica torturando a gente. Chega a ser repugnante!

– Hummmm!!!

– É meio bagunçadinha a coisa; quando o professor não aparece a gente fala da vida alheia (risos)

– A senhora trabalha?

– Em casa, sempre fui do lar. Meu filho e minha filha já tão se casando, eles quase nem aparecem, mas aquele traste vem todas as noites torrando a minha paciência.

– Aí a escola foi a salvação…

– Não, a igreja é a salvação, a escola é prá passar o meu tempo, me ocupar.

– A senhora… como é mesmo o seu nome?

– Firmina.

– A senhora, dona Firmina, não vai à escola para estudar?

– Claro que vou, mas para fazer amigos também. A gente se reúne nos fins de semana prá estudar nos livros e fazer os trabalhos. Quase tudo o que eles falam eu já tinha visto nos cadernos dos meus filhos, e eu mesma estudei até a quinta série. Gosto quando falam de desenhos, quadros, pinturas, contam como o mundo era antes da gente ter nascido.

– História?

– Isso, mostram desenhos, o que os índios faziam… gosto ainda das “disserções” que o professor passa no quadro e manda a gente escrever em casa.

– Dissertações?

– Acho que é isso, tenho um caderno e conto nele as minhas histórias. Parece um diário.

– Entendi, e o seu marido nunca pegou o seu diário?

– Se ele pegar tou frita… (risos)

– E por que o seu marido anda sempre de mau humor?

– Acho que ele tá cansado de tudo, as vezes penso que até de mim. Não sei, mas acho que ele tem uma saudade matadeira de onde veio. Veio muito moço pra cidade. Lá fora ele sempre disse que era feliz. Deveria ter suas namoradinhas, os amigos pra sacanagem. Aqui se casou comigo, tivemos os filhos e ele não pode mais voltar.

Encosta o ônibus prá Belém Novo e dona Firmina embarca com a amiga que recém conhecera na parada e que já se tornara a sua confidente. Foi embora sem me dar a oportunidade de perguntar onde ela estuda, se tem planos futuros, se a EJA é uma porta que se abre para a sua vida, se ela não assiste novela e, o mais curioso, se ela me emprestaria seu diário para eu dar uma olhadinha.

Também não consegui agradecer a mulher que estava com ela, que fez todas as perguntas, que a questionou o tempo todo e que deve ter descoberto muito mais histórias da dona Firmina durante a viagem de ônibus.

Acho que vocês concluíram que escrevo este relato sem ao menos ter feito uma única pergunta à personagem. Fui simplesmente um mero coadjuvante, bisbilhotando a vida alheia de alguém que para se livrar do marido, voltou aos bancos escolares. Moral da história:

– Caso não haja solução, procure a EJA.

 

*EJAÉ a modalidade de ensino, fundamental e médio, da rede escolar pública brasileira, também adotada por algumas redes particulares, que recebe os jovens e adultos que não completaram, por qualquer motivo, os anos da educação básica em idade apropriada.