Acareação

– Mãe, você bateu panela contra a Dilma, não foi?
– Sim, por que?
– E disse que não votou no Temer
– Sim, quem votou na Dilma, votou no Temer
– E você postou que o Temer não era o que você esperava
– Bem, não foi o que a gente pensava que seria
– Então quem bateu panela apoiou o Temer
– Não apoiamos ninguém, ninguém
– Mas se vocês tiraram a Dilma, sabiam do Temer
– Não sabíamos, não dava na TV, no trabalho, as amigas, só falavam mal da Dilma
– Mas a TV continua não dando nada do Temer e você disse que não gosta dele.
– É que eu quero continuar no meu emprego de carteira assinada e benefícios trabalhistas, quero ser respeitada como mulher e quero me aposentar em vida
A mãe pegou uma panela para fazer o jantar e o filho alcançou uma colher grande ordenando: – Bate mãe, bate!

O professor e o jornalista

São bem próximas as funções de professor e de jornalista. As duas cumprem suas pautas do dia em lugares distintos, mas com a mesma finalidade, a de transmitir informação e conhecimento. Um professor traça o seu plano de aula na expectativa de repassar, de forma clara, o que tem no conteúdo. Para um jornalista não é diferente, sai da redação no foco de colher as informações necessárias para “fechar a matéria” e repassar em forma de notícia ao leitor, ao ouvinte ou telespectador.

Os dois carregam na consciência suas dúvidas, sabendo que, dependendo da situação, devem inverter a pauta, buscar outros meios de trabalhar o assunto e dispor da criatividade, o suficiente para construir uma boa aula ou uma boa notícia. É preciso muitas vezes recorrer ao improviso, ao acaso, desconstruindo o planejado, sabendo interpretar o que o momento exige.

Se os alunos tiverem outra interpretação do que estiver no “script-pedagógico”, um professor não pode, de forma alguma, traçar um “quadro negro” da situação, e sim buscar formas que gerem alternativas para esclarecer dúvidas, crises, imprevistos, afinal, não existe uma única forma de passar conhecimento, há um universo de maneiras e não existem fórmulas criadas para cada tipo de surpresa.

No caso do jornalista, se a pauta não corresponder à realidade dos fatos, ele vai ser obrigado a modificar o roteiro e ter a sensibilidade de filtrar a o assunto e produzir a sua informação de maneira clara, que responda as perguntas e as respostas se encaixem no texto.

A melhor saída é ouvir sempre o outro têm a dizer para daí então, baseado nas fontes da rua ou da sala de aula, construir uma pauta conjunta.

Para aguçar a curiosidade é preciso alterar ou inverter a pauta sim, na maioria das vezes, ou quase sempre. Abrace a turma, abrace a pauta e saiba que um bom improviso é a melhor forma de se mover numa saia justa.

Sensibilidade e criatividade andam de mãos dadas e, se não tiverem esta capacidade, os alunos não terão uma boa aula, ou as senhoras e os senhores ouvintes, uma boa notícia.

Às professoras Darli Collares e Patrícia Camini da Faculdade de Educação da UFRGS, por provocarem o tema.  

Sofrer por dentro, calado

Pai e filho assistiam na televisão as últimas notícias sobre o pacote do Governo do Estado propondo a extinção de fundações e autarquias no Rio Grande do Sul, quando o pai não se conteve e largou um sonoro – CRÁPULA.

Com olhar surpreso o filho indagou:

– Porque você votou nele então?

– Porque ele disse que ia mudar

– O quê?

– Tudo meu filho, tudo

– Mas ele tá mudando, cumprindo com o que prometeu

– Mas não deste jeito

– Mas ele explicou o jeito que ia mudar?

– Não filho, não explicou

– Então porque você votou na proposta dele?

– Porque ele me fez pensar assim, mas agora vi que fui enganado

– Mas lá na tua repartição todos votaram nele também

– Sim, a maioria prá não dizer a totalidade

– E agora ele vai acabar com a fundação onde você trabalha e ainda vai te mandar embora

– É o que andam dizendo filho

– Você sempre reclamou do teu salário mesmo, qual é o problema?

– O problema é que vou ficar sem salário embora fosse uma merreca

– Mas você disse que ultimamente não via a cor do dinheiro

– Não, eu não via a cor do salário porque o dinheiro vem em conta-gotas, parcelado

– Mas ele prometeu na campanha que ia parcelar os salários?

– Não, ele não prometeu, aliás, não prometeu nada, não apresentou plano algum

– E vocês votaram nele mesmo assim…

– É filho, foi um lapso

– A tia Veroca bem que avisou

– Mas ela é petralha

– Mas os petralhas não parcelavam os salários

– Sim, isso é verdade, todo o final de mês tava lá na conta, valor integral

– Mas lembro que você vibrou quando o deputado Jardel votou pelo aumento de impostos para pagar em dia os salários dos servidores

– Não lembro disso meu filho

– Sim, você gritou aí nesta mesma poltrona que foi mais um golaço

– Ah, força de expressão porque ele foi meu ídolo no Grêmio

– Você votou nele também, não votou?

– Sim, votei

– Nessa ele errou o cabeceio como diz a tia Veroca, os salários continuam batendo na trave e respingando na rede

– Pois é!

– E agora pai, como vamos sobreviver?

– A gente dá um jeito

– Vou ter que sair da escola particular?

– Era o que eu iria mesmo te falar, temos boas escolas públicas

Aí entra o noticiário nacional da televisão anunciando que o Governo Federal assina medida provisória com mudanças na política para a educação

Os dois ouvem calados que, entre outras coisas, o ensino gratuito deixa de ser prioridade

O pai sofre calado, olhando o boneco do pato na mesa de canto da sala, o nariz de palhaço e a máscara do japonês da federal, que usou nas manifestações a favor do impeachment, dependurados na parede

Na manhã seguinte o filho sai para arrumar um emprego, já com planos de abandonar o ensino fundamental.

 

 

Memórias de guri

As tardes na infância eram longas, os dias eram intermináveis, as semanas demoravam meses, os meses em anos e os anos pareciam séculos que não acabavam mais. A transição no calendário era demorada, a folhinha das datas custava cair. O outono era outono, inverno era inverno de verdade, a primavera tinha jardins imensos nos canteiros da frente ou ao longo do patio das casas, formando corredores que iam da porta de entrada ao portão da estrada.

A grande mesa de madeira nobre, feita de um angico ou talvez um louro ou grápia, ocupava maior parte da varanda, rodeada de cadeiras de palha e junco. Também tinha csdeira de balanço, de vime trançada, que rangia conforme o peso de quem nela se acomodasse para ouvir radio a noite ou para uma cesta depois do almoço.

As tardes de segunda e de terça eram preguiçosas e mormacentas. O ar parado concentrava de forma irritante, o canto das cigarras nas cerejeiras, num zunido ensurdecedor. A vaca mugia no pasto, chamando a cria para aproveitar a sombra de um cinamomo e se proteger do sol que castigava as várzeas e coxilhas. O calor que saia da terra, formava uma espécie de labareda de vapor, por onde cruzavam formigas cortadeiras, que levavam para um ninho próximo, as folhas de uma grande roseira branca, que se erguera na coluna de madeira e se debruçara de um lado ao outro do oitão da casa.

Debaixo de um pé de plátano as galinhas e os galos descansavam, acomodados no vão das raízes, enquanto as ninhadas de pintos de duas ou três semanas, caçavam insetos num tapete de avencas esparramadas no barranco de terra, perto do rio. A água corrente e barulhenta do lajeado de pedras era um preguiçoso convite a não fazer nada.

No lanche da tarde, uma fatia de pão de trigo ou de milho,  queijo, salame, um naco de doce de pera e limonada. Biscoito de manteiga e bolachas cobertas de glacê, salpicados com açucar colorido, eram reservados para as visitas.

Na cabeceira da mesa na varanda, um menino de suspensórios e cabelo cadete tentava concertar a capa solta da Cartilha do Guri. Usava o pegajoso âmbar, recém extraído do tronco de uma ameixeira, para colar as partes que se soltaram. Era uma cola natural e eficiente também para selar envelopes de cartas.

As 54 páginas da publicação das edições Tabajara de 1962 eram intermináveis, um grande desafio para quem estava iniciando nas letras. Era pela cartilha que se transitava entre as hipóteses de escrita pré-silábica, silábica e, com muito custo, mal se chegava ao nível silábico alfabético. Era um ano inteiro tentando entender o que se passava naquelas folhas escritas, pontuadas e desenhadas. Escrever bola e bota era uma enorme dificuldade. Como que dois objetos diferentes tinham letras tão iguais?

Pato e pote então era um martírio, mas ficava mais fácil entender quando se associava que o pato come no pote. Estas comparações, no entanto,não serviam para boi e formiguinha. O boi enorme tinha só três letras e a formiguinha era uma carreirinha sem fim. Ficava mais fácil aprender que a palavra era compridinha quando se cantava – a formiguinha vai na carreirinha levar comidinha pra sua filhinha –

Calculo que os professores e pesquisadores da escrita, aprovariam esta musiquinha da formiguinha no processo de alfabetização de guris e gurias preguiçosos em sala de aula. Também era uma forma de despistar as tardes de sono, onde nenhuma brisa soprava para refrescar a memória ou acender os ânimos da pobre criança que suava para aprender o bê-a-bá.

As mães e as tias mais velhas, pouco letradas tentavam dar uma forcinha e soletravam letra por letra em voz baixa até formarem uma palavra. Assim, Olavo era desmembrado em: O – l – a – v – o, que virava: Oooola-vo, pra finalmente se unir numa só, e Olavo virava motivo de orgulho para quem pronunciava por inteiro. As frases formadas por artigos e palavras eram tão demoradas para serem decifradas que, quando chegasse na última, a pessoa já tinha se esquecido da primeira. Dava tempo de correr para tomar um banho no rio e voltar.

Se havia dificuldade em aprender a ler e a escrever com tanta coisa a observar ao nosso redor, tínhamos ao menos, a convicção e a certeza que as flâmulas na parede da sala pertenciam ao Internacional, o Palmeiras e o Vasco da Gama os times de coração do meu pai. E no alto da porta da varanda uma faixa bordada em tecido anunciava que “Nesta casa mora um casal feliz”. Não se sabia o significado das letras, nem se elas estavam em ordem dentro da frase, o importante é que todos já tinham decorado e pronunciavam o que estava escrito com a maior perfeição do mundo.

Só resta agradecer as professoras Lia de português e Rita de matemática. Seus nomes eram rimas e viravam música:

“Se lia na aula da Lia e se irrita na aula da Rita”.

Muito obrigado às duas que marcaram a infância de guris e gurias em cima de cartilhas e de cadernos pautados e quadriculados. Vocês foram nossas guias.

Rap da PEC e das ocupações

 

                 RAP DA PEC

Nós não queremos – a PEC opressora

Que exclui o aluno – e a professora

 

Escolas de arte – e de filosofia

Escola de música – e de sociologia

Escola do campo – escola da terra

Escola urbana – e da periferia

 

Resistiremos – não vem, não insiste

Não recuaremos – a luta persiste

É nosso direito – a lei nos permite

 

Não privatize – a educação

Nós não queremos – as tuas lições

Nem tua presença – nas ocupações

 

 

O país das boas práticas

A ratazana preocupada com a desordem das coisas resolveu colocar em curso um Projeto de Boas Práticas para organizar a sociedade dos roedores e torná-los mais habilitados no seu dia a dia em busca de alimentos e se protegerem das emboscadas do felino da casa.

Assim todos teriam um código de sobrevivência e poderiam transitar livremente por locais nunca dantes permitidos sem que interferissem na rotina do lar.

Sairiam das canalizações dos esgotos e subiriam para um patamar aconchegante onde teriam direito a três refeições ao dia, aposentos individuais, espaços coletivos para discutir normas e valores e aulas práticas, com professores formados dentro da comunidade que multiplicariam o conhecimento, ensinando táticas de boas maneiras para acessar a dispensa sem esparramar os grãos, evitando desta maneira a ira dos patrões, que não passavam de meros usurpadores da pátria, adeptos a morte à míngua do que zerar a fome da nação. Deixariam por exemplo, de se contentar só com a pipoca que cai no chão do cinema e passariam a reproduzir sua própria arte. Seriam finalmente emancipados, independentes.

Mas toda esta movimentação despertou a atenção do gato que espreguiçava em almofadas e sofás da mais fina seda, com livre acesso às dependências da casa e como quem não quisesse nada circulava discretamente pelos gabinetes e reuniões de família captando as energias negativas de quem tem muito e muito quer.

Certo dia o gato espreitou o movimento e seguiu a caravana até o sótão de um casario abandonado, descobrindo o plano dos camundongos. No conforto da sua almofada, nos dias que se sucederam, começou a planejar um golpe. Visitou mais vezes o sótão e não conseguiu detectar nenhuma formula que o permitisse contra-argumentar às propostas dos roedores e seus meios de inclusão.

Numa destas espreitas, ávido por um álibi, ouviu a ratazana comentar que para manter o processo e partir para seus próprios meios de produção, tornando-se independentes da casa do patrão, precisariam pedir ajuda às formigas que armazenavam riquezas de sobra em suas galerias e poderiam perfeitamente auxiliar com incentivos à rataria. Em troca os ratos ajudariam a cavar tocas em locais íngremes, de solo rochoso, rico em minérios, além de colherem folhas e galhos secos para que as formigas pudessem forrar seus ninhos e se protegerem do inverno.

Foi aí que o bichano viu a oportunidade de interromper o processo de Boas Práticas, temendo que seu reinado fosse para o beleléu. Ao mesmo tempo temia a falta de ratos para perseguir e justificar a sua importância na hierarquia doméstica. Foi então que resolveu agir, não admitiria o fim das mordomias tornando-se um gato sem serventia e o próximo a ser comido.

Entrou na sala para o espanto de todos e travou-se um grande debate entre o gato e a rata.

– Vocês não podem pedir auxilio às formigas, afinal, elas são mineradoras do reino, perfurando galerias em busca de riquezas.

– Não estamos fazendo nada de errado, apenas propondo uma troca.

– Esta troca é inconstitucional, ela só é permitida aos grandes investidores e não para programas sociais.

– Mas não estamos tirando nada de ninguém.

– Você pensa que não, mas como a aristocracia vai se manter com um proletariado como vocês fazendo parte do bolo?

– Mas ninguém aqui falou que vai ser para sempre!

– Nem uma fatia pode ser retirada e ponto final sentenciou o gato que retirou-se da sala para buscar ajuda e colocar um fim àquela insubordinação, àquela rebeldia coletiva.

Logo os ratos partiram atrás de Justiça pedindo apoio ao cachorro da casa, com quem eles estreitavam uma certa relação de amizade.

O cão de guarda, que mantinha um espaço territorial próximo de uma área de vegetação espessa que, por ironia chamava de Mato Grosso, era responsável pela vigilância e a ordem não apenas da casa, mas também do quintal, portanto e de certo modo ficava de olho no gato para mantê-lo dentro das regras. Afinal, o cão era um justiceiro e prometeu ajuda aos ratos.

Na reunião seguinte o cão foi para o sótão, para o espanto do gato, ouviu atentamente os dois lados.

Concluiu que se o gato não tivesse mais serventia na casa ele também correria o risco de ser chutado e os dois perderiam as mordomias as quais estavam acostumados. Quem pagaria aquela ração deliciosa, os dentes afiados, os banhos quentinhos e as sessões de massagem e de tosa?

Mas o que os ratos não sabiam, era que o cão e o gato mantinham uma atividade paralela que ia desde os desvios de cargas de filés e peixes que abasteceriam a geladeira da casa até a uma requintada rede de contatos internacionais para a venda de carne enlatada com valores superfaturados e subornos aos operadores dos contratos.

O cão retirou então qualquer possibilidade de ajuda e permitiu que o gato continuasse o seu processo de cassação dos direitos dos ratos e afastasse a ratazana do processo.

Quando a verdade vai dar uma volta

 

O filho, pré-adolescente, faz o tema de casa na mesa da sala, uma redação sobre a verdade, enquanto o pai, no sofá, mexe no celular lendo ou respondendo mensagens.

– Pai, o que é uma verdade?

– Verdade? Bom, verdade… é dizer o que é, é ser sincero.

– Um pai sempre diz a verdade para o filho?

– Mas é claro, quando eu menti prá você?

– Quando eu era pequeno você disse que a carne do boi crescia na bandeja e da galinha num saco plástico.

– Se eu falasse a verdade você não comeria carne.

– E a televisão que manda beber leite porque é saudável, é a mesma que diz que ele está cheio de mistura (uréia, água oxigenada, formol, bicarbonato).

– Isso é um crime, eles deveriam obrigar essa gente a tomar um caminhão de leite adulterado.

– Você mesmo disse que mentiram dizendo que era obrigatório o uso de extintor de incêndio nos carros.

– Ah, isso sim, mentiram e roubaram da gente… foi igual o golpe do kit de primeiros socorros aplicado antigamente.

– Você acredita que políticos falam a verdade?

– Eles tentam chamar a atenção.

– Antes da eleição é uma coisa, depois é outra.

– Há uma grande diferença entre o discurso e a prática.

– E esta gente conhecida que a policia prende, tá sempre negando a verdade, nunca tem culpa, sempre são inocentes.

– Eles tem o direito de negar.

– Em quem vou acreditar?

O pai olha para o filho com ar penalizado, e não diz nada.

– Você mesmo disse pai, que o Neymar deixou o Brasil na mão na final da copa inventando uma lesão.

– Foi um show pra TV mostrar, autopromoção pra valorizar seu passe.

– O Galvão mentiu?

– Ele, a comissão técnica, a FIFA, os patrocinadores…

– Você acha que o Neymar é um bruxo?

– Bruxo?

– Sim, previu o Brasil levaria sete gols da Alemanha e inventou a lesão, foi você mesmo quem falou.

– Eu, o Brasil inteiro e o Romário

– Tá difícil escrever sobre a verdade se só encontro mentiras.

– Ela deve estar em algum lugar.

– Você mesmo me disse que foi a babá quem provocou a separação do Chimbinha e da Joelma do Calypso, bem como aconteceu com a Gisele Bündchen.

– Li na coluna do Simão, acho.

– Viu, além de não ter certeza, ainda pode ser uma baita mentira.

– Tá filho, chega de perguntas, faz a tua redação que eu vou assistir o noticiário da televisão.

– Então vamos lá, eu vou escrever assim pai, ouve aí: “Em quem vou acreditar? Quem fala a verdade? Para onde ela foi? Deve ter saído para dar um passeio durante o noticiário; anda de mal com a televisão que tem boicotado a sua presença. A verdade não tem casa e aqui em casa é um exemplo de que ela sumiu já faz um bom tempo”.

Pausa

O pai desliga a TV

Silêncio…

 

 

Diploma pra quê?

 

Afirmando que os estudantes não são clientes que vêm comprar certificados e criticando o modelo universitário com seus conteúdos voltados à formação de mão de obra para o mercado de trabalho, o filósofo italiano, Nuccio Ordine, abriu a Aula Magna do semestre da Universidade Federal do Rio Grande do Sul para um Salão de Atos lotado de professores e alunos. “Se você perguntar aos calouros – por que estão na Universidade? – a resposta geral sempre é para conseguir um diploma.

Não poderia ser diferente quando temos um mercado consumista, voltado para a concorrência e a vocação para espremer o empregado até a última gota de maneira que ele não pense e assim obedeça e não reclame, é obrigado a reduzir a convivência social ou familiar ao máximo para que durma cedo, madrugue e produza mais.

A escola e a universidade deveriam ser uma  busca pelo melhor, para ser livre. O saber ensina a criticar, para que se pense com autonomia. Mas, o contexto social hoje tem uma lógica utilitarista, com imposição de ganho que proíbe e impede a paixão em nome do prazer desinteressado e gratuito. Vivemos num contexto político dominado pela ditadura da maximização do lucro. Temos dificuldade em responder nossos próprios questionamentos. A máquina que deveria disponibilizar espaços para que a humanidade tivesse tempo para viver e raciocinar sobre o significado das coisas acaba alienando e escravizando. O vocabulário, o poder de identificar o certo do errado, de separar o bem do mal, de ouvir e de pensar vão se distanciando a partir da intolerância, da falta de transparência, da imposição de idéias e palavras, da analise unilateral das coisas, de se achar a única pessoa que pensa corretamente no universo ao ponto de se considerar um Deus e sair pregando o evangelho, abrindo templos e recolhendo as riquezas que tanto condena e espalhando o medo do apocalipse.

Voltamos então a esta ganância de querer mais e comprar sua liberdade. Nuccio lembra que no universo do utilitarismo uma faca é melhor que uma poesia, porque o instrumento é material. O pensador John Lock já definia que “Ler e escrever versos impede de ganhar dinheiro e coloca em risco o patrimônio familiar”. Portanto, pouco se valoriza o bem cultural, muito embora Grécia e Itália souberam ganhar dinheiro com seus patrimônios da humanidade, distribuídos ao ar livre pelos dois países. Outros continentes preferem destruir a história em nome de um progresso limitado, na maioria das vezes assassino e avassalador.

Assim é na educação, as universidades e escolas estão transformadas em empresas, onde o crédito e o débito são as principais palavras e a única ideia que vendem é a do diploma que mais tarde vai amarelar numa parede a espera de um reconhecimento.

Enfim, não sabemos dar importância aos saberes inúteis que deveriam nutrir o espírito. Não temos consciência sobre as coisas que nos fazem sobreviver. Ao citar uma anedota de Wallace, Nuccio resume esta falta de consciência das coisas que nos cercam: “Dois jovens peixes nadando, encontram um peixe ancião em direção oposta, que abana pros jovens e pergunta – como está a água? Os jovens se olham e se questionam – água? O que é isto?”.

Não se pode distinguir o que nos cerca porque não somos educados para entender, mas para obedecer e ter um diploma na parede que também não se sabe pra quê.

A Utilidade do Inútil

O tema norteia a Aula Magna que abre o ano acadêmico de 2016 da Universidade Federal do Rio Grande do Sul no próximo dia 10 às 10 horas da manhã no Salão de Atos da UFRGS. Na “lousa”, professor e filósofo italiano Nuccio Ordine, dono de uma extensa ficha intelectual dedicado ao estudo da rebeldia – e de um rebelde em particular, o teólogo Giordano Bruno, assassinado pela Inquisição por defender ideias consideradas heréticas, como um sistema solar heliocêntrico e de um universo infinito. Odine defende ainda outro tipo de rebeldia, um tipo de conhecimento que muitos classificariam de “inútil”.

No mais recente livro de Odine A Utilidade do Inútil (Editora Zahar com tradução do professor da UFRGS Luiz Carlos Bombassaro), ele faz uma comparação simples, mas que leva a aprofundar o pensamento sobre as conseqüências quando a utilidade do capitalismo, um sistema que defende que o tempo é dinheiro e o que vale é o empreendedorismo. “No universo do utilitarismo, um martelo vale mais que uma sinfonia, uma faca mais que um poema, uma chave de fenda mais que um quadro: porque é fácil compreender a eficácia de um utensílio, enquanto é sempre mais difícil compreender para o que serve a música, a literatura ou a arte”.

A Utilidade do Inútil não deixa de ser uma crítica a determinadas características incontornáveis da cultura contemporânea como a de atrelar o valor de algo a sua possibilidade de gerar lucro. Isso reflete na idéia de que tudo que se aprende tem que ser direcionada a preparação para o mercado. Na hora do aperto e do corte de gastos o gatilho sobra para as atividades artísticas, afetando privilégios como os direitos do consumidor à cidadania, na sociedade e mesmo na escola.

A fome do capital caça o que não se devora.

A Aula Magna tem entrada franca, por ordem de chegada. Quem não for pode acompanhar pela internet em aovivo.ufrgs.br/ufrgstv/

 

Ladainhas, novenas e capitéis

É o que dá entrar no facebook sem estar preparado para tanta informação inútil de maneira nada aproveitável. O ócio campeia nas redes sociais e o ódio é apenas uma forma de acobertar a covardia daqueles que não tem coragem de falar em público. Sim, as redes sociais são públicas, mas também são privadas para quem quer se esconder por detrás de uma tela golpeando o teclado, espargindo toda a raiva e o veneno de quem não foi convidado para entrar, mas que também não tem a menor intenção de sair.

São nômades a procura de um lugar seguro para acomodar a caravana. São ricos, pobres, depressivos, hiperativos, ladrões, bandidos, beatos, honestos, íntegros ou safados, bem ou mal educados, que se empoderam de uma ferramenta democrática que compartilha amores, desamores, paixões repentinas, declarações, assuntos sérios e besteiras, na ânsia de levar o mais longe possível, atingir o maior número de internautas na esperança de que leiam longas, repetidas e desanimadoras ladainhas bem como pedem para compartilhar suas novenas com intenção de agradar os santos, os arcanjos e os querubins e realizar seus desejos solicitados durante promessas fervorosas feitas com devoção no capitel de cada estrada. (pra quem não sabe ou não é daqui – capitéis são pequenos santuários, locais de oração, instalados em estradas rurais substituindo as capelas)

O facebook acima de tudo é um lugar para extrapolar, judiar, jurar, amar ou tripudiar e pedir desculpas. Pode acomodar a mais pura inocência ou acobertar a mais cruel ameaça e o mais brutal dos crimes.

O que não se quer dizer cara a cara se diz no face, lugar sagrado, onde o bem e o mal disputam o mesmo espaço.