O pinto e a bomba do mate

Herculano, nascido e criado no campo precisava fazer uns exames, aqueles de rotina, o “xecapi” como ele mesmo definia, que consiste em fazer exame de sangue, marteladinha no joelho pra conferir os reflexos, contar 33 entre outros.
Mas desta vez a médica incluiu na requisição uma investigação nada tradicional, prescreveu uma colonoscopia cuja avaliação incluí outra via de acesso ao esqueleto, um túnel até então mantido intacto a qualquer tentativa de abuso ou invasão.
– Sabe como é que é, o senhor come muita  carne gorda e tal, precisamos verificar.
Disse a médica, procurando amansar o paciente, um tanto alterado com a resenha descrita por ela.
 
Na salinha, a simpática enfermeira passava-lhe as instruções de preparo para o exame que consistia em uma dieta leve a base de merengue e líquidos claros.
 
– Suspendo o mate?
 
– Não precisa, mas se for beber, use camisinha.
 
Herculano não aprofundou detalhes sobre a camisinha, já estava por demais envergonhado da situação pela qual iria passar, afinal, náo é fácil abrir as pregas para alguém desconhecido, ainda por cima, sedado.
 
Na madrugada, véspera do exame, de bombacha arriada, sentado solito na porta do rancho, enquanto mateava e contava estrelas, Herculano matutava em silêncio, cabisbaixo, olhando desconfiado para o preservativo tamanho murcho.
De fato ele não conseguia entender a relação da bomba com o pinto.

 

 

Metáforas

O grilo falante esqueceu de avisar o pequeno gafanhoto que o que se combina em casa não se fala na Rua. Quando lembrou já era tarde, o estrago já estava a caminho. Mexeu com as aranhas justiceiras deixando-as em alerta. Suas teias foram reforçadas formando uma rede de desconfiança. Elas são quietas, unidas e corporativas.

O grilo, por sua vez já havia reclamado das cigarras por não gostar da sua forma de comunicação com os outros insetos. Prometeu cortar regalias e foi ao bispo para negociar o desmatamento químico do átrio em todas as igrejas onde vivem as cigarras transformando-as num envenenado jantar do formigueiro.

Mas as formigas não se contentam mais com cigarras, afinal, elas são trabalhadoras e compram comida, armazenam em suas amplas dispensas e preparam os melhores pratos feitos com os eletrodomésticos que conseguiram comprar graças aos programas sociais do molusco.

As formigas, no entanto, nunca tiveram uma boa relação com o grilo, elas são trabalhadoras e ele fala demais. Um por se posicionar favor da retirada das conquistas da categoria trabalhadora da qual as formigas são as legitimas representantes, outra pelo seu cego desejo de esmagá-las pisando seus carreiros.

As formigas também estão quietas, elas não são corporativas, mas são cooperativas e educadas por terem acesso às escolas. Também não tem força nas pesquisas porque a pesquisa raramente vai a periferia.

O arsenal e a fagulha

Doutor Tenebro estava parado diante da churrasqueira, pasmo com a notícia que acabara de ler. Uma fagulha pode ter provocaso o incêndio num barraco da periferia, matando duas crianças que ficaram em casa, sozinhas, enquanto a mãe saiu para trabalhar.

A nota foi publicasa sem muito destaque, já que o a tragédia foi bem longe da sua cidade, aliás, do outro lado do pais, mas despertou o interesse do velho advogado, pelo tamanho poder de destruição de uma faísca.

Como um tição tão pequeno pode fazer tanto estrago? Era a pergunta que o doutor fazia para ele mesmo. Ideias tenebrosas lhe vieram a memoria, enquanto olhava uma pilha de carvão acomodada sobre buchas de jornais.

No Fundo, o que mais chamou a atenção do dr. Tenebro, foi a repentina descoberta de cortar caminho para iniciar o fogo do churrasco, uma batalha que enfrentava todas as semanas. Suas armas eram o jornal de domingo, uma garrafa de álcool e um a caixa de fósforos. Chegava a gastar todo o suprimento num mesmo dia e, em algumas situações, precisava apelar para o forno a gás.

Não entendia como que ele, dotado de todo o arsenal para um incêndio de grandes proporções tinha menos poder de fogo comparado a uma simples fagulha.

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O gatuno de Passo Fundo

 

Saio do supermercado Zaffari da Rua XV de Novembro com uma dúzia de pães franceses, que a gauchada chama de cacetinho. Avanço na direção da casa da minha irmã que aguardava com uma canja para fazer frente ao minuano que soprava nesta noite gelada. Alguns passos adiante, nas proximidades do edifício treme-treme, do nada surge um vulto que, de um jeito decidido foi tirando a minha frente e indagando sobre minha recém aquisição no mercado.

– Pães, apenas pães.

– Não se trata de um assalto, mas, se os pães não vierem de boa…

– Vai sujar suas mãos por meia dúzia de cacetinhos?

– Não é isso, vai alcançar na boa?

– Mas quem sabe repartimos?

– Já falei de boa.

Minutos depois lá estava eu na fila do pão solicitando nova remessa.

A atendente era a mesma, com um olhar estranho entregou-me o pacote. Desta vez tomei outro rumo, desviando pela Rua Teixeira Soares, cruzando o Hospital São Vicente na direção do antigo quartel do Exército até atingir a Tavessa Wolmar Salton.

Qual não foi minha surpresa ao ver, debaixo de uma marquise, o meu algoz com os meus pães, já acompanhados de queijo e salame e uma garrafa térmica de café com leite.

Sim, identifiquei item por item porque parei na frente dele e perguntei se o meliante precisava de mais alguma coisa.

Na maior calma ele continuou mastigando e disse que já estava servido.

– Por hoje tou satisfeito, respondeu com um ar de gentileza.

Chegou a oferecer os cacetinhos que sobraram, mas eu nunca faria esta desfeita, claro que se viessem com o queijo e o salame a conversa mudava de rumo.

– Fica pra você, afinal é fruto do TEU trabalho, proclamei quase aos berros e me retirei.

Nem meia hora depois, eu, na canja, pensando naquele andarilho que degustava nas minhas barbas um sanduba de pão, queijo e salame. Confesso, é o meu sanduiche predileto.

 

Descartando a carta de vinhos

No requintado restaurante o sommelier vem a mesa com uma carta de cem diferentes tipos de vinhos finos.

Detalha os melhores por suas características – safra, uva, frutado, encorpado, buquê…

De cara fiquei Desconfiado, afinal, o trabalho de um sommelier na antiguidade, Renascença, por aí, era o de verificar se a bebida não estava envenenada. Eram dotados de extrema habilidade, “detectavam as substâncias perigosas que se ocultavam em comidas e bebidas”, afirma o professor google através da wikipédia. Ficaram famosos em Paris, viraram profissionais. Paladar aguçado, comiam e bebiam um pouquinho, nada o suficiente para que um formicida o abatesse ali, na mesa, na frente do cliente.

Eu olhava atento para o escanção, como são chamados pelos portugueses, e imaginando quantos tombos não terá levado até hoje experimentando vinhos numa noite movimentada na casa de pasto. Teria ele um dia exagerado numa dose perfumada com o doce aroma de um veneno letal e retornado a mesa naquela noite para enfeitiçar os clientes e levá-los para sua taberna celestial? Fiquei imaginando se lá em cima aceitariam meus cartões de créditos a perder de vista, regado com outros ingredientes como vales refeição, transporte e pré-datado.

Eu já estava tonto com tanta explicação quando ele encerrou tal eludição, sem provar um unico gole de todos que apresentou e  foi perguntado:

– Qual será sua escolha?

– O que não vai me dar dor de cabeça, respondi.