O quase affair da Faye Dunaway

Não lembro o ano nem o numero do festival, mas foi em Gramado na serra gaúcha, num agosto de muito frio, mês que o mundo do cinema se reúne para exibir e escolher os melhores filmes da temporada. Recordo que naquele ano os simpáticos cubano do Guantanamera ganharam o Kikito de filme estrangeiro e me lembro da Faye é claro.

Estávamos frente-a-frente numa sala reservada de um hotel de luxo. Ela de vestido preto, eu, de terno e gravata. Ela sentou e cruzou as pernas e eu abri um rosário de maus pensamentos, me sentindo um Don Juan DeMarco na sua frente, imaginando que ela me observasse feito um Johnny Depp.

Ela me cumprimentou num inglês tradicional, calculo que tinha um estranho sotaque. Eu a cumprimentei em português, procurando evitar o sotaque do Sul e ficamos por aí.

Ela baixou a cabeça com um ar de reprovação ou de vergonha por não entender o meu idioma. Aí notei que o meu personagem estava mais para Marlon Brando.

Nos momentos seguintes ela só sabia que me daria uma entrevista e eu que faria algumas perguntas, sem que entendêssemos bulhufas.

– Um tradutor por favor!

Lá vem a camareira do hotel para resolver o impasse e estabelecer uma conversa.

E tudo o que eu havia planejado em dizer ao pé do ouvido da Faye foi adiado, ficou para outro dia. Por pouco o affair não se consumou; não fosse a língua.

 

 

Só uma perguntinha ao Jucá: Se não tem pecado por que o perdão?

A tentativa do senador Romero Jucá do PMDB de Roraima, de conceder aos presidentes da Câmara, do Senado e do Supremo Tribunal Federal – STF a mesma prerrogativa do presidente da República de não serem processados por atos estranhos ao exercício do mandato, foi uma confissão aberta de que suas excelências cometem atos estranhos e de que o poder está minado de gente deste tipo. Verdadeiros picaretas que se especializam desviar e vender de tudo o que conseguem surrupiar da pátria mãe corrompendo políticos, empresários, grandes industrias daqui e de fora, gente famosa das colunas sociais que se deixam corromper, até com a mãe do Badanha, com todo o respeito ao centromédio gremista dos anos 40 e sua progenitora.

Jucá ao tentar passar no Senado, nesta semana, a Proposta de Emenda Constitucional – PEC, que livra da punição a bandidagem que exerce os maiores cargos no poder, dispara o alerta, até mesmo dos mais céticos e doentios defensores desta canalhice toda, de que tem alguma coisa por de trás da cortina e que o espetáculo não tem nada a ver com o roteiro anunciado. Afinal por que motivo se protegeria alguém tão sério, correto, belo e recatado?

O Jucá, diga-se de passagem, transita livremente no poder muito embora, para o grande público, ele tenha se afastado depois que a Polícia Federal interceptou ligações do então ministro do Planejamento, cargo que ele exercia no governo Temer, admitindo esquema de corrupção no atual governo e falando em mudanças para estancar as investigações da operação Lava Jato.

Aliás, o grampo encontra-se na Suprema Corte aos cuidados do ex-ministro Teori Zavascki morto recentemente num misterioso acidente de avião no litoral fluminense.

Então Jucá, o que te levou a adotar medidas para proteger os santos do poder?
Se não tem pecado, por que o perdão?

Caviar e torresmo só para os ricos

Alguém sabe explicar por que o torresmo é tão caro?

Me espantei ao ver uma placa num armazém de beira de estrada na região de Vila Maria, anunciando o preço do torresmo. Não acreditei e perguntei ao bodegueiro se aquele valor era real.

– Aqui ainda é cinquenta, mas tem lugar que chega a setenta reais o quilo.

– Caramba, e por quê?

– É o preço.

Fiquei então imaginando que a tal iguaria que sempre faz parte das rodas de samba e pagode e é cantada por músicos e compositores, deve ter passado de um nível de mesa de bar para os restaurantes de luxo ao lado do caviar por exemplo. O garçom anuncia:

– Pra entrada temos as opções de caviar Au Blinis ou torresmo Au Chef Zé Silva. O primeiro é light o segundo nem tanto.

No cardápio aparecem os preços e os acompanhamentos, o caviar é servido com vodca, o torresmo com uma purinha de alambique, o preço é o mesmo.

Há quem diga que o Eike já estava de olho neste novo eldorado, deixando de lado suas minas de ouro para se dedicar a compra e venda de torresmo, um mercado bem mais lucrativo, explorando o porco na origem. Ainda na maternidade o porquinho receberia um brinco de qualidade que o acompanharia do chiqueiro aos embutidos.

Enfim, o torresmo receberia uma avaliação da ANVISA revelando que ele não é prejudicial à saúde como andam falando, que pode fazer parte de uma dieta equilibrada na feijoada e que deve ser consumido com moderação.

O torresmo deixaria de ser o vilão dos gordinhos e se tornaria um complemento rico em proteína com valores diários que não afetam o colesterol.

Surgiria a dieta do torresmo que o Eike exigiria no seu cardápio em Bangu, para repor as calorias desperdiçadas entre uma delação e outra.

O torresmo poderia se tornar sim um vilão da inflação chegado ao ponto de derrubar o Temer e acabaria se transformando em herói nacional. Desbancaria o Renan, o Jucá e o Padilha num piscar de olhos. O Meireles renunciaria e o STF aceitaria a denuncia de golpe do torresmo sem segredo de justiça, mesmo que não houvesse uma explicação clara que incriminasse a supervalorização deste derivado do porco. Enfim, iria direto pra banha.

Retomei a estrada tentando compreender o papel que o torresmo deixa de exercer na vida das pessoas, mas só pude concluir que é mais um alimento que some da mesa do pobre.

Foi aí que entendi uma piada que rola nas redes sociais onde uma mulher pede para que não mandem para ela mensagens de datas especiais como o dia do amigo e termina dizendo:

– Mandem torresmo.

 

O teatro das sombras

A sombra que faz sombra e assombra

Pode ser boa quando te protege do sol

Pode ser ruim quando te assombra

A sombra cai na água em não molha

Cai no fogo e não queima

A chuva cai quando tem sombra

E pode tornar a noite assombrosa

Os raios produzem sombras

A luz da varanda reproduz a sombra da goteira

A sombra ninguém alcança

Uiva efêmera nas masmorras dos castelos

De almas atemporais alucinadas

Não tem sombra na sala de cinema

Mas pode representar no teatro

Assombra gabinetes e plenários

O Planalto, o Piratini e o Paço

Assombra castelos e palácios

Como se o mal dominasse o bem.

E num passe de mágica

Na mistica ilusão do baralho

Num estalar dos dedos

Abracadabra e o castelo desaba.

É à sombra que se esconde e descansa a transparência, a luz da verdade, a verdade das coisas e as coisas que não se quer mostrar. As sombras impedem piquetes de avançar e é na calada da noite que a sombra mostra a sua face mais aterrorizante, travessa e cruel. Ao mesmo tempo mais doce, encantadora, inocente, convincente, cobiçável, como se fosse feita de mel.

O Piffero merece uma estátua na Arena Tricolor

A gestão de Vitório Piffero foi tão maléfica ao Internacional, e ao mesmo tempo tão benéfica ao Grêmio que o agora já ex-presidente colorado, já que Marcelo Medeiros, da chapa opositora, foi eleito, no sábado, com uma enxurrada de votos, deveria ser homenageado pelo tricolor.

Não precisamos fazer nenhum esforço de memória para concluirmos que duas das três alegrias da torcida gremista em 2016 foram proporcionadas pelo Inter e seu então presidente.

Quem não lembra que na semana de um Gre-Nal o Piffero mandou embora o técnico Diego Aguirre por birras gratuitas, assim como teve com Mano Menezes e tantos outros. Como resultado o Colorado amargou um histórico placar de 5 a zero. O Vitório entregou de mão beijada a vitória para o Grêmio, por goleada.

A última grande alegria veio ontem, o anunciado rebaixamento do Internacional para a série B do futebol brasileiro. Desde a última quarta-feira os gremistas são só alegria, uma delas proporcionada, novamente pelo Píffero que por se considerar acima de tudo acabou rebaixado. É a soberba levando uma goleada. Vitório, mesmo sendo Vitório, é um perdedor.

Sai pela porta dos fundos, mas merece uma estátua, igual aquela que tem do Fernandão no Beira-Rio, só que na Arena Tricolor.

O cabinho da Apple e o da maçã

Você já parou para pensar a importância do cabinho para a maçã?

Ele já brota nela, aliás, vem antes dela nascer. É o embrião, o cordão umbilical da maça e com aquele tamanhozinho faz dela grande e saborosa. É pelo cabinho que passam todas as vitaminas e sais minerais da fruta, o cabinho transporta água, muita água, é uma canalização gota a gota que não precisou de nenhum trabalho de engenharia hídrica para projetar sua função.

O cabinho acompanha a maça durante todo o seu ciclo, e mesmo depois que ela sai do galho ele fica com ela até que alguém resolve arrancá-lo com uma faca, limpar a flunfa que se forma no umbiguinho, devorando, picando ou moendo o seu conteúdo num liquidificador.

O cabinho é fiel à fruta e não fosse ele a lei da gravitação não teria sido formulada por Newton pois a maçã não teria despencado na hora certa na cabeça certa, o que seria um desastre para a física.

O cabinho, no entanto, não pode ser imitado. Steve Jobs que criou a Apple e não conseguiu (?) dar qualidade ao assessório que alimenta o aparelho. O carregador da bateria do telefone é um equivoco da industria eletrônica. Precisa ser trocado a cada seis meses, talvez nem chegue a tanto, a um preço de mais ou menos dez por cento do valor do telefone. Se a Apple acertou na qualidade da maça, errou no cabinho. Ou o equivoco é proposital?

 

A confusão do carteiro que foi parar na Justiça

Lourival, ao chegar em casa, recolheu a correspondência na caixa postal e entre elas havia uma do SPC.

A NET cobrava uma assinatura atrasada num valor absurdo, tipo dois meses de contrato.

Sem pestanejar foi até a gaveta da cômoda e procurou as últimas faturas quitadas. Faltava uma que ele conseguiu comprovar por meio de extrato bancário.

Lourival não quis conversa e foi logo reclamar seus direitos no tribunal. Procurou o juizado das pequenas causas e abriu um processo contra a operadora.

Não demorou muito e a audiência foi marcada.

Frente a frente o Lourival, a juíza conciliadora e três advogados da NET.

Ao terminar a leitura da ação, que pedia um reparo por danos morais, a juíza olha para Lourival e pergunta:

– E a dona Eunice?

– Que Eunice, pergunta Lourival

– A da conta, a assinatura está no nome dela.

Lourival quase teve um troço

– Eunice é a vizinha

– O senhor a representa?

– Nnnnnnão, gaguejou, claro que não

– Mas quem não pagou a conta foi ela e não o senhor

– Doutora, pensei que a conta era minha e não da vizinha, peguei na minha caixa postal e nem olhei para quem era.

– Vamos condenar o carteiro? Questionou a conciliadora

– Pois é, sou leigo.. e no afã da cobrança bateu o ódio

– Não, eu é que sou leiga, sentenciou a juíza que passou um pito no Lourival e dispensou as partes encerrando aí o processo

Lourival saiu cabisbaixo, sem embolsar os recursos da ação e alem de tudo teve que encaminhar um pedido formal de desculpas a operadora.

Ah esses carteiros… murmurava, meio envergonhado, meio aliviado, porque no final das contas não deve um centavo para a NET.

Sofrer por dentro, calado

Pai e filho assistiam na televisão as últimas notícias sobre o pacote do Governo do Estado propondo a extinção de fundações e autarquias no Rio Grande do Sul, quando o pai não se conteve e largou um sonoro – CRÁPULA.

Com olhar surpreso o filho indagou:

– Porque você votou nele então?

– Porque ele disse que ia mudar

– O quê?

– Tudo meu filho, tudo

– Mas ele tá mudando, cumprindo com o que prometeu

– Mas não deste jeito

– Mas ele explicou o jeito que ia mudar?

– Não filho, não explicou

– Então porque você votou na proposta dele?

– Porque ele me fez pensar assim, mas agora vi que fui enganado

– Mas lá na tua repartição todos votaram nele também

– Sim, a maioria prá não dizer a totalidade

– E agora ele vai acabar com a fundação onde você trabalha e ainda vai te mandar embora

– É o que andam dizendo filho

– Você sempre reclamou do teu salário mesmo, qual é o problema?

– O problema é que vou ficar sem salário embora fosse uma merreca

– Mas você disse que ultimamente não via a cor do dinheiro

– Não, eu não via a cor do salário porque o dinheiro vem em conta-gotas, parcelado

– Mas ele prometeu na campanha que ia parcelar os salários?

– Não, ele não prometeu, aliás, não prometeu nada, não apresentou plano algum

– E vocês votaram nele mesmo assim…

– É filho, foi um lapso

– A tia Veroca bem que avisou

– Mas ela é petralha

– Mas os petralhas não parcelavam os salários

– Sim, isso é verdade, todo o final de mês tava lá na conta, valor integral

– Mas lembro que você vibrou quando o deputado Jardel votou pelo aumento de impostos para pagar em dia os salários dos servidores

– Não lembro disso meu filho

– Sim, você gritou aí nesta mesma poltrona que foi mais um golaço

– Ah, força de expressão porque ele foi meu ídolo no Grêmio

– Você votou nele também, não votou?

– Sim, votei

– Nessa ele errou o cabeceio como diz a tia Veroca, os salários continuam batendo na trave e respingando na rede

– Pois é!

– E agora pai, como vamos sobreviver?

– A gente dá um jeito

– Vou ter que sair da escola particular?

– Era o que eu iria mesmo te falar, temos boas escolas públicas

Aí entra o noticiário nacional da televisão anunciando que o Governo Federal assina medida provisória com mudanças na política para a educação

Os dois ouvem calados que, entre outras coisas, o ensino gratuito deixa de ser prioridade

O pai sofre calado, olhando o boneco do pato na mesa de canto da sala, o nariz de palhaço e a máscara do japonês da federal, que usou nas manifestações a favor do impeachment, dependurados na parede

Na manhã seguinte o filho sai para arrumar um emprego, já com planos de abandonar o ensino fundamental.

 

 

O problema do Inter não é o Celso Roth

 

Tem quem teve a coragem de insinuar que a vergonhosa atuação do Inter, no jogo do Beira-Rio neste sábado, contra o Santa Cruz, pudesse ter passado pelos pés do William. Primeiro porque nenhum colorado soube ao certo qual era a posição do jogador na partida. Vi ele jogando mais como centroavante, pasmem, um lateral-centroavante é o – dois em um – inventado pelo técnico que também inventou contra o Mazembe e que entregou o segundo titulo mundial de mão beijada e com um pedido de desculpas.

O William não tem culpa de nada, ele virou um coringa do técnico Celso Roth que para não dar oportunidade ao Seijas, talvez por questões pessoais, improvisa um lateral no ataque. Vi o William apoiando na sua posição de origem e vi o Willian tentando fazer gol, e quase marcou, não fosse a bela defesa do goleiro pernambucano.

O inter perdeu feio, sim, perdeu, pois empatar com o lanterna do brasileirão em casa com 35 mil colorados no estádio é sabor de derrota.

Aí vai culpar o técnico, o Eduardo Henrique que foi expulso? Não é bem assim. Vaiar faz parte do jogo e está no contrato tanto do técnico como do jogador. O Roth não tem culpa, culpado é quem o contratou.

 

É uma aventura andar de ônibus em Porto Alegre

Embarco num ônibus da linha Assunção por volta das três horas da tarde, para fazer o trajeto Câmara/Mercado Público de Porto Alegre. Caminho curto de cinco paradas ou nem isso. Noto uma delicadeza incomum do cobrador/trocador com os passageiros, avisando que mais adiante tinha a curva do gasômetro e que tomassem cuidado.

Ao chegar no terminal da Uruguai o motorista teve todo o cuidado para estacionar, transportava o carro com mãos de pelica, manobrava o volante na ponta dos dedos e não abriu a porta sem que o ônibus estivesse devidamente estacionado. Uma mulher chegou a reclamar que perderia o outro transporte se o motorista não liberasse a saída.

Fiquei imaginando se esta era uma norma da empresa, talvez negociada num acordo de greve, ou se de uma hora para a o mosquito das boas maneiras tivesse picado a tripulação.

Ao descer, descobri o motivo de tanto cuidado e delicadeza. Dois azuizinhos* estavam dentro do coletivo e pareciam desconfortáveis com aquela repentina tomada de consciência com a etiqueta social, porque também precisavam descer e o gentil condutor não abria a porta porque o ônibus da frente não lhe deu meio metro de espaço para que o ônibus fosse devidamente acomodado na plataforma.

Fiquei imaginando como a cidade será diferente se todos fizessem assim e até chequei a pensar que havia realizado um sonho de embarcar num transporte público de qualidade.

Meia hora depois retorno para a Câmara, vou ao mesmo terminal e embarco desta vez num coletivo da linha Pereira Passos.

O motorista se mostrava ansioso porque os passageiros demoravam para embarcar, já que a roleta não suportava a demanda. Pedia para darem lugar na porta e fechou-a sem que a última bunda tivesse deixado totalmente a plataforma, espremendo as nádegas do último camarada a embarcar.

Ao dobrar a esquina da Uruguai para ingressar na Mauá, vi que o meu sonho de transporte público de qualidade não durou meia hora.

Os passageiros em pé caíram sobre os sentados e um senhor de idade chegou a perder o boné. Foi um strike.

Uma senhora pediu calma e recebeu como resposta do motorista um: “estamos atrasados”. Ninguém mais se manifestou. Seguiram-se freadas e arrancadas espetaculares no caminho de quatro paradas até o Parlamento. Uma mãe segurava firme uma criança de três ou quatro meses para que ela não batesse a cabeça no banco da frente. A barulheira da carroceria era ensurdecedora e ao menos as janelas abertas compensavam a falta de ar condicionado no coletivo. Corri o olho a procura de um azulzinho, mas só vi um gremista, com fardamento tricolor se equilibrando para não despencar na parte rebaixada do coletivo, para onde um colorado já tinha escorregado e procurava se levantar.

Os passageiros não demostravam lá muita indignação embora pareciam atordoados. Cada qual procurando um lugar para sentar na esperança de chegar inteiro no seu destino final.

*Azuizinhos – da guarda municipal de Porto Alegre, fiscais da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC)