O pinto e a bomba do mate

Herculano, nascido e criado no campo precisava fazer uns exames, aqueles de rotina, o “xecapi” como ele mesmo definia, que consiste em fazer exame de sangue, marteladinha no joelho pra conferir os reflexos, contar 33 entre outros.
Mas desta vez a médica incluiu na requisição uma investigação nada tradicional, prescreveu uma colonoscopia cuja avaliação incluí outra via de acesso ao esqueleto, um túnel até então mantido intacto a qualquer tentativa de abuso ou invasão.
– Sabe como é que é, o senhor come muita  carne gorda e tal, precisamos verificar.
Disse a médica, procurando amansar o paciente, um tanto alterado com a resenha descrita por ela.
 
Na salinha, a simpática enfermeira passava-lhe as instruções de preparo para o exame que consistia em uma dieta leve a base de merengue e líquidos claros.
 
– Suspendo o mate?
 
– Não precisa, mas se for beber, use camisinha.
 
Herculano não aprofundou detalhes sobre a camisinha, já estava por demais envergonhado da situação pela qual iria passar, afinal, náo é fácil abrir as pregas para alguém desconhecido, ainda por cima, sedado.
 
Na madrugada, véspera do exame, de bombacha arriada, sentado solito na porta do rancho, enquanto mateava e contava estrelas, Herculano matutava em silêncio, cabisbaixo, olhando desconfiado para o preservativo tamanho murcho.
De fato ele não conseguia entender a relação da bomba com o pinto.

 

 

João da Grelha e a fisioterapia caseira

Era um mão de vaca, sovina, pão duro, miudeiro como se diz lá em Colorado. Frequentava a academia, a fisioterapia. Pagava por ela porque o convênio não cobria. Certo dia, do alto da sua sabedoria, concluiu que se comprasse uma bola suíça seus gastos acabariam. Encomendou uma pelo Amazom, custou o mesmo que uma sessão na clínica. Resolveu que iria fazer em casa sua própria academia. Mas tinha um porém, os eletrodos, o tratamento de choque que recebia em cada consulta.

Não teve dúvida, abriu a grelha que usava para fazer o churrasco dominical, espalhou sobre ela um pacote de eletrodos de aço carbono, há anos guardado, comprou de barbada na internet. Um erro primário, os eletrodos não são aqueles usados na físio, só tem o mesmo nome. Conectou a grelha ao interruptor da parede e cobriu com um colchonete emborrachado.

Depois dos alongamentos, João deitou-se na grelha, antes deu uma conferida para se certificar de que tudo estava isolado. De certa forma estava, menos a bunda que ficou encostada no cabo da grelha. Ao acionar a chave ouviu-se um berro muito alto, um grito de horror, seguido de um cheiro forte de carne assada.

A perícia não reuniu os elementos necessários para concluir o trabalho e arquivou o processo por falta de informações, era impossível calcular como ele fez aquilo. João não sobreviveu para contar a história.

A noiva oferecida e a lição de Morales

Primeiro a noiva se enfeitou para receber o príncipe Donald para a posse e subir a rampa para uma dança. Depois, bateu continência a um segurança ou assessor do príncipe. Aí se adiantou a anunciar que vai a qualquer lugar do mundo, como a Davos para finalmente encontrar o príncipe. O príncipe não vai, desistiu.

Agora perdeu para o Evo que mandou o Battisti de volta a Itália sem escala no Brasil. A corte tinha enviado até a carruagem para buscá-lo e levou uma lição de Morales.

A noiva continua engolindo sapos porque de nada adianta beijá-los. Os sapos daqui não viram príncipes e não são confiáveis. A noiva está fadada ao feitiço da bruxa do bem.

 

Dona Pikuxa, o pangaré e a filha Venenosa

 

Venenosa nasceu no segundo decanato de escorpião e tem nome de signo. Mãe zelosa e filha do mesmo naipe patrulham os passos da pobre criatura que tem uma amor secreto. Sob o roupeiro a mãe guarda uma espingarda de dois canos pro caso de algum apuro. Diz que é para espantar os gatos, mas não revela a espécie. Se é de quatro ou talvez de duas patas.

Venenosa certa feita estava em casa e recebeu uma ligação do Panga, um fazedor de fretes que andava na redondeza fornecendo algumas entregas e na tentativa de priorizar a atividade fim ligou pra Venenosa. Sim, o Panga também era um fornecedor de prazeres. Ao saber que ela estava sozinha em casa, resolveu dar uma escapadinha, deixou a caminhãozinho estacionado a mais ou menos duas quadras de distância para não levantar suspeita e largou no trote. Passadas cadenciadas para não chamar a atenção da vizinhança, invadiu o portão da frente que o esperava meio aberto. Assim que atravessou a fronteira da rua para a casa o controle remoto selou a segurança. Ninguém os perturbaria.

Panga sentia mais medo da mãe do que da filha, sim dona Pikuxa tinha porte de arma. Trataram de se apressar das iniciais aos finalmente. Tudo corria bem até que uma voz do outro lado da fronteira invade o território do amor.

– Filha tu taí? abre o portão que tou sem a chave…

Aquilo foi de subir a pressão numa tarde de verão, o Panga suava em bicas e Venenosa emudeceu.

Tentou fugir pelos fundos, mas a floresta densa de unhas de gato e japecanga não favorecia uma retirada estratégica, mesmo porque na correria ele deixara a metade das roupas espalhada pela casa.

Virou a casa dos cochichos.

Venenosa se arrastando de quatro para não ser vista da rua deu de mão no telefone e ligou para uma vizinha de quadra.

– Amiga, estou em apuros, me salva!

Ouvindo o tom de pavor cochichado, berrou em voz baixa:

– Tem ladrão na tua em casa?

– Quase isso, tem alguém aqui dentro sim, mas o problema é lá fora.

– Vou aí ou chamo a polícia?

– Só quero que você chame a minha mãe pra tua casa, ela tá no portão, depois eu te explico… o Panga tá aqui, entende?

A vizinha que interrompeu o banho para atender  amiga, deu uma volta no quarteirão e como se, por acaso, recolheu dona Pikuxa que se mostrava curiosa com tudo aquilo.

– O celular toca lá dentro e ela não atende, reclamou a mãe.

– Deve ter saído e deixado o telefone, disse a amiga vizinha.

Neste meio tempo, Venenosa tratou de despachar o Panga. Ah, sim, Panga é o diminutivo de Pangaré, um apelido carinhoso que recebeu das gurias por se considerar o garanhão do pedaço. Saiu de fininho pelo portão da frente sem olhar para trás, literalmente chegou a trote e saiu a galope.

Ao se aproximar da caminhãozinho de mudanças, encharcado de suor, ele ouve um chamado:

– Ei moço, pra que tanta pressa, chega a aqui, quero falar com você.

Era a mãe da Venenosa no portão da casa da vizinha, queria contratar um frete.

Mas Panga estremeceu com a tanta sutileza e desabou de susto ali mesmo, no meio da rua.

Reanimado, abriu os olhos e viu a idosa com uma espécie de arma na mão que o fez retornar ao seu estado letárgico. Ele jamais descobrirá que aquele cano que mirava em sua direção era uma sombrinha que dona Pikuxa carregava. Só recuperou a memória quando já estava longe, salvo e acomodado na ambulância do Samu.

 

 

O espelho sem face

Acordo em Passo Fundo e enquanto preparo o chimarrão ouço o locutor no rádio comemorar a lista de ministros e dos partidos que estão do lado do presidente eleito, afirmando que agora homem só casa com mulher, que trabalhador vai ter que se submeter às leis do patrão senão fica sem emprego, que neguinho tem que levar pau mesmo se não obedecer às regras do novo comandante que vem aí, elencando uma série de outros comentários que beiram a destruição da raça que ele chama, pelo o que eu pude entender, inferior.

Não demorou nem um segundo para lembrar o livro – Ensaio sobre a cegueira, em que José Saramago já alertava sobre uma epidemia branca que se espalhou incontrolavelmente numa cidade, resguardando os cegos em quarentena, reduzidos à essência humana. Recolhidos a um manicômio, quem podia enxergar se fazia de cego evitando que as pessoas se aproveitem da sua condição, além das gangues que se formam dentro desta microssociedade com o surgimento de lideres que procuram tirar vantagem sobre outros na mesma condição de cegueira.

Não vejo problema algum, enquanto tomo um mate, relacionar a obra do escritor português ao comportamento de boa parte dos brasileiros que, de um bom tempo para cá, vem elegendo os que se posicionam por meio dos discursos de intolerância, violência, preconceito e sobretudo, a total incoerência em tudo o que dizem, prometendo acabar com os malfeitores que roubam a nação. Políticos que para atrair a confiança do eleitor sopram fúrias aos quatro ventos afirmando que lugar de condenado (leiam-se, ministros do futuro governo), é na cadeia, que a constituição é soberana e por aí vai. O que se vê são brandidos condenados e o que deveria ser justiceiro integrados no mesmo grupo. Um juiz submetido às regras dos delinquentes.

Os cegos elegeram Donald Trump. O guru da direita, Olavo de Carvalho, doutrinou milhões com sua fake visão, ocupando um vazio desprezado pela esquerda, elegendo o mais improvável.

É preciso recuperar a lucidez e resgatar o afeto desta legião de peregrinos que se jogaram confiantes numa aventura sem a mínima segurança. José Saramago nos obriga a fechar os olhos e ver “uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos”.

Pronto, desligo o rádio e vou preparar o café.

 

 

O MEC do Messias

 

O pai, sr. Brasil, entra no quarto e se depara com a filha devorando um Kama Sutra. Quase ignorando a sua presença ela continua lendo e observando as posições.
 
Num impulso messiano o pai arranca o livro das mãos da menina aos gritos de – Pouca vergonha!
 
Ameaça jogá-lo pela janela quando é interrompido, calmamente, pela filha que diz:
 
– Estou estudando, pai.
 
– O quêêêê… Estudando esta imoralidade, esta safadeza? Não sei por que não te quebro ao meio sua…
 
– Olha com o que vai dizer…
 
– Sua desajustada
 
– Ah, melhor
 
– E ainda tá me tirando?
 
– Posso explicar?
 
– Nada vai me convencer
 
– Pai, leituras, filmes e revistas eróticas fazem parte novo currículo escolar, educação sexual, sexualidade, sacou?
 
– Sacou porra nenhuma, ficou louca, bebeu, fumou? Parece alucinada.
 
– Tou te falando que é o currículo.
 
– Não queira me enrolar, inventa outra história, te peguei no flagra com esta… esta…
 
– É melhor deixar pra lá e acreditar em mim, sério, é a nova realidade da escola.
 
– Mas nem que a vaca tussa, vou já trocar você de colégio e tá proibida de pisar lá a partir de agora.
 
– Mas pai…
 
– Mais um ai e vou te encher de porrada!
 
Pensou melhor e resolveu anunciar a sentença da filha ali mesmo:
 
– Vou colocar você na escola do Júnior, séria e educadora, não quero filha puta, vagabunda, depravada…
 
Visívelmente transtornado, aos berros, sai do quarto com um Kama Sutra debaixo do braço e quase o coração sai pela goela ao ver, em cima da escrivaninha, uma edição da G Magazine. Dá de mão na revista e sai do quarto chamando Joana, a empregada.
 
– Fica de olho na Kathyanne, não deixa que ela saia do quarto e nem pensar em sair pra rua.
 
Tenta insistentemente ligar para a mulher que está no salão de beleza fazendo cabelo, pé e mão para o encontro de casais da TFP à noite. Leva algum tempo para atender, deixando Brasil impaciente até que enfim:
 
– Joyce, vem já pra casa, peguei a Kathy mergulhada em livros e revistas de pornografia, uma pouca vergonha o que tá acontecendo nesta casa.
 
Minutos depois Joyce rompe a porta de casa, ainda com um bob’s no cabelo. Júnior também chega da aula, quase ao mesmo tempo. O pai pede pra Joana chamar a filha no quarto e inicia uma inquisição na sala de jantar.
 
– Depois de muitos palavrões, batidas na mesa, chute nas cadeiras e ameaças de fechar a escola para sempre e denunciar tudo para presidente da nação, é interrompido pelo filho.
 
– Mas pai, lá na minha escola também é assim.
 
– Como assim, essa putaria toda?
 
– Sim pai acabei de ver um filme do ministro, sadomasoquismo puro, homem com homem, direto, o ministro inclusive, no papel principal, vestido de noiva.
 
– Do que você tá falando pirralho desgraçado, que ministro é este?
 
– O Frota pai.
 
– Que Frota? Caralho!
 
– O Alexandre Frota, ministro da Cultura, tou virando fã dele, ele traça tudo o cara é de fudê.
 
– CHEGA!!!
 
– Mas pai agora é praxe estudar a vida dele, a professora disse que são ordens de Brasília.
 
O pai acusa o golpe, sente que perdeu o controle da casa, o sangue sobe de um jeito incontrolado, o pai tem um chilique, vira os olhos, amolece o corpo e desaba no carpete.
 
Enquanto a empregada chama a ambulância, Joyce sacode o marido aos gritos de:
 
– Acorda Brasil… acorda!!!
Crônica: Flávio Damiani
Arte: Daniel Cruz

 

Metáforas

O grilo falante esqueceu de avisar o pequeno gafanhoto que o que se combina em casa não se fala na Rua. Quando lembrou já era tarde, o estrago já estava a caminho. Mexeu com as aranhas justiceiras deixando-as em alerta. Suas teias foram reforçadas formando uma rede de desconfiança. Elas são quietas, unidas e corporativas.

O grilo, por sua vez já havia reclamado das cigarras por não gostar da sua forma de comunicação com os outros insetos. Prometeu cortar regalias e foi ao bispo para negociar o desmatamento químico do átrio em todas as igrejas onde vivem as cigarras transformando-as num envenenado jantar do formigueiro.

Mas as formigas não se contentam mais com cigarras, afinal, elas são trabalhadoras e compram comida, armazenam em suas amplas dispensas e preparam os melhores pratos feitos com os eletrodomésticos que conseguiram comprar graças aos programas sociais do molusco.

As formigas, no entanto, nunca tiveram uma boa relação com o grilo, elas são trabalhadoras e ele fala demais. Um por se posicionar favor da retirada das conquistas da categoria trabalhadora da qual as formigas são as legitimas representantes, outra pelo seu cego desejo de esmagá-las pisando seus carreiros.

As formigas também estão quietas, elas não são corporativas, mas são cooperativas e educadas por terem acesso às escolas. Também não tem força nas pesquisas porque a pesquisa raramente vai a periferia.

O fantasma da velha senhora

A velha senhora tinha uma ferida sobre o nariz que não cicatrizou até a morte. Um ninho de parasitas, uma diversão para moscas e varejeiras. Tinha 14 filhos e fama de beberrona.

Escondia, no velho casarão de madeira, garrafas de vinho e grappa. Discretamente distribuídas pelos cantos, volta e meia eram localizadas pelas filhas durante uma faxina e outra.

O médico proibia, mas ela sempre dava um jeito. Os porões, fartos de pipas, eram um estimulo para ela que descia todos os dias para conferir se a bebida estava no ponto. Degustava todas como se cada prova fosse o último gole.

Charge do Daniel Cuz

Um dia antes de partir, no seu leito de morte, ela fez o seu último e derradeiro pedido. Sem a força necessária na voz, fez um sinal ao doutor, puxando o braço até a frente do peito e com a mão fechada apenas esticou o polegar e o mindinho, um gesto tradicional nas tabernas sinalizando copo de vinho. O médico liberou e ela bebeu o último cálice.

A casa da velha senhora fechada com trincas de madeira, não tinha chave, tão pouco fechadura, qualquer um entrava e saia como bem entendia. Mas desde o desencarne a casa ficou vazia, sem movimento a não ser das cortinas ao vento num bailado fúnebre e aterrorizante para as crianças do povoado. Vez que outra alguém chegava ou saia buscando alguma coisa. Os dias foram se passando e a desconfiança de que o casarão era visitado por forasteiros moinantes foi se tornando quase que uma verdade.  Os pretensos fantasmas desencovados do campo santo faziam grandes algazarras, depois iam embora sem mexer em nada, tudo ficava no seu devido lugar.

Os pequenos eram os mais atiçados e se empolgavam com os detalhes nos relatos dos adultos, causos recheados de personagens de parentes mortos ou desconhecidos que vagavam pelas matas a procura de uma confortável cova para descansar o esqueleto. Os olhos destas crianças estavam sempre voltados para o velho casarão que ficou fechado naquela primavera, mas bem vigiado pelos olhos infantis que passavam horas debaixo dos pés de camélias carregadas de flores que iam do branco ao vermelho passando pelo lilás e o amarelo, com um perfume doce e intenso. Misturado ao aroma dos figos e pêssegos inundavam como um bálsamo nas tardes de sol e preguiça. Da sombra das cameleiras as crianças vigiavam a casa de janelas enormes e cortinas longas que deixavam frinchas que vazavam movimentos do lado de dentro. Revezavam-se durante o dia já que a noite faltava-lhes coragem para se aventurar. Um simples deslocamento de ar numa cortina ou ringir uma janela era suficiente para chamar a atenção e não raro disparar os curiosos de volta para suas casas.

Os dias foram passando e o desinteresse foi tomando conta. Por fim, a vigília foi deixada de lado, as histórias contadas em noites de filó não tinham mais fundamento, nada foi visto, nada foi constatado.

O casarão ficou lá por muito tempo intocado, cortinas ao vento, pombos ocupando os oitões e morcegos dando rasantes atrás e algum inseto distraído. As noites eram macabras e as crianças não chegavam nem perto, afinal, «No creo en brujas, pero que las hay, las hay», há que se ter prudência.

Certa noite, no entanto, dois  meninos que vagavam pela vizinhança fazendo pirraça e lambança, viram a porta do casarão abrindo e fechando sem que alguém entrasse ou saísse. Como não acreditavam mais em fantasmas ou assombrações deslizaram por entre as camélias e se depararam com a silhueta da velha senhora que agachou para pegar uma garrafa e servir um cálice de vinho. A fresta na janela não deixava duvidas, era ela que voltara para reclamar seu troféu escondido e não achado. Houve uma gritaria, um rebuliço, as crianças brancas do susto, uma palidez indescritível, dispararam até a casa dos avós, que ficava próxima

Com a língua de fora e buscando o último ar para recuperar o fôlego, relataram o ocorrido, com requintes de medo e pavor.

– É uma invenção á toa, disse o avô, recém jantado, ouvindo o noticiário no rádio valvulado.

– Parem de andar por aí vendo coisas, ninguém entra ou sai da casa que não seja visto disse a avó, mandando as crianças para suas casas.

Mas, nada de arredarem o pé, não sairiam daí sozinhos, nem sob tortura, aliás, uma pratica comum à época nos porões da ditadura. O medo tomava conta do corpo inteiro, as pernas tremiam se controle e os calafrios eram constantes.

E tanto insistiram que a avó decidiu levá-los para casa. No caminho a avó, corajosa, para provar que nada tinha de anormal entrou na casa e saiu com uma taça na mão com um ar preocupado.

– Engraçado, alguém bebeu vinho e deixou o copo sujo aí dentro, comentou a velha senhora, acrescentando que: – Ninguém vem aqui, já faz um tempo.

Os meninos que acompanhavam o movimento desde as camélias aceleraram o passo e em segundos disparavam como um bólido na direção de casa. Desde aquela noite nunca mais foram vistos vagando pelo povoado depois do cair da tarde.

Charge do Daniel Cuz

Memórias de um sacristão proscrito

 

Lá se vai meio século quando, no dia do aniversário da dona Ilga, fui excluido da sacristia pela simples razão de trocar as bebidas do altar. Havia na frigideire da casa canônica, uma garrafa de cachaça Marumby, junto com as de vinho que, por ocuparem espaço menor do que um garrafão, era colocado em garrafas com rótulos de bebidas variadas, desde a gasosa às cervejas, e claro, a cachaça. Era onde abastecíamos os pequenos cristais, galheteiros para a eucaristia. No lusco-fusco, dei de mão na primeira garrafa que se apresentou. Era a maldita da cachaça. Sem prestar o mínimo de atenção e ao menos desconfiar da presença da intrusa, completei o vinho que restava no reservatório.

Foi numa noite de sábado, minha mãe não costumava ir á missa, nem no dia do seu aniversário. Ficou em casa preparando um jantar de carnes e massas e eu mal podia esperar a hora de chegar para comemorar com a família e mesa farta os seus 44 anos.

Vestido de coroinha, uma batina vermelha e uma túnica branca – sobrepeliz, eu estava concentrado ao lado do altar. Enquanto o monsenhor rezava a missa eu tentava entender a desavença que tive a tarde numa disputa de bolitas, modalidade três covinhas, no pátio do colégio. Perdi um único e raro baletão com o desenho das Três Marias e o Cruzeiros do Sul, o mais cobiçado. Desconfiei da trapaça, o mindinho de um pé desviou a leiteira que lancei com precisão, mas que beirou e não caiu na caçapa. Foi uma armadilha, pensei, e já estava prestes a sair dali para desafiar os inimigos e declarar uma guerra de taquaras, sem precedentes, quando ouvi protestos do sacerdote em meio a celebração. Freiras agitadas na sacristia, a missa parou na eucaristia.

– O vinho virou cachaça, disse a irmã Terezinha

– Milagre, alguém gritou lá de fora

– O Monsenhor tá furioso, parou a missa, disse dona Carlota

– É coisa do demônio, falou o coletor de esmolas

– Quem foi que abasteceu o altar? Perguntou a irmã Zoé

Os olhos se voltaram para o sacristão, já sem as vestes de coroinha e como um raio abandonou o local vestindo bermuda de saco de farinha de trigo, tingida de azul Guarany, suspensórios, uma camisa volta ao mundo e botina de couro esfolado.

Durante o jantar de aniversário a casa foi visitada pelas irmãs, a notícia se espalhou depressa, ceia interrompida, só faltou o sermão do padre. O assunto encerrou quando minha mãe questionou a presença da cachaça na geladeira.

No dia seguinte procurei meus adversários do jogo de sábado para negociar ou declarar guerra. Recuperei o bolitão, no tapa, mas voltou.

 

O arsenal e a fagulha

Doutor Tenebro estava parado diante da churrasqueira, pasmo com a notícia que acabara de ler. Uma fagulha pode ter provocaso o incêndio num barraco da periferia, matando duas crianças que ficaram em casa, sozinhas, enquanto a mãe saiu para trabalhar.

A nota foi publicasa sem muito destaque, já que o a tragédia foi bem longe da sua cidade, aliás, do outro lado do pais, mas despertou o interesse do velho advogado, pelo tamanho poder de destruição de uma faísca.

Como um tição tão pequeno pode fazer tanto estrago? Era a pergunta que o doutor fazia para ele mesmo. Ideias tenebrosas lhe vieram a memoria, enquanto olhava uma pilha de carvão acomodada sobre buchas de jornais.

No Fundo, o que mais chamou a atenção do dr. Tenebro, foi a repentina descoberta de cortar caminho para iniciar o fogo do churrasco, uma batalha que enfrentava todas as semanas. Suas armas eram o jornal de domingo, uma garrafa de álcool e um a caixa de fósforos. Chegava a gastar todo o suprimento num mesmo dia e, em algumas situações, precisava apelar para o forno a gás.

Não entendia como que ele, dotado de todo o arsenal para um incêndio de grandes proporções tinha menos poder de fogo comparado a uma simples fagulha.

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