Mitos

Procusto é um personagem da mitologia grega, portanto, um mito. Simboliza a negação da ciência e a relativização de vidas humanas. Era um gigante que trabalhava em uma estalagem nas altas colinas de Ática, onde oferecia hospedagem para os viajantes. Na casa em que morava, na serra de Elêusis, ele tinha uma cama de ferro, com o seu exato tamanho, e era ali que ele acolhia os viajantes.

Se fossem altos, Procusto decepava pés e cabeças para ajustá-los à cama e os de pequena estatura eram esticados até atingirem o tamanho suficiente. Daí o nome, Procusto “o esticador”. Enquanto aplicava a punição às suas vítimas, repetia: “Se você se destacar, cortarei seus pés. Se você demonstrar ser melhor que eu, cortarei sua cabeça.”

O mito deu origem à síndrome de Procusto, reconhecida pela psicologia e psicanálise. É um conceito de oportunismo, que aparece no ambiente de trabalho e de largo emprego na política para destruir quem é mais preparado, inteligente. É assim que o portador da síndrome expõe o seu arrogo, sua estupidez. Boicotam ideias com a intenção de diminuí-los. É o egoísmo sobre aqueles que prosperam.

Ao perceber alguma vitória que não a sua, a pessoa sente-se extremamente  ameaçada e não consegue comemorar algo que não seja feito por ela. Enfim, são pessoas com perfis frustrados ou autoestimas muito frágeis, avessos a lideranças e desafios.

Antes que eu esqueça, deixa contar como acabou o reinado de terror do nosso personagem. Ele foi capturado pelo herói ateniense Teseu, que o prendeu em sua própria cama e cortou-lhe a cabeça e os pés, aplicando-lhe a mesma crueldade que sentenciava aos seus hóspedes.

Por aqui aguardamos um Teseu que, ou estique a corda, ou corte o mal pela raiz.

 

Por pouco

 

Entrei na sorveteria naquela tarde pensando nos sabores a escolher. Logo vi um homem alterado na voz, chamando pela filha pequena. O cara era uma tora, cada braço dava uma perna, das minhas, o pescoço era a minha cintura, com folga, a testa mais parecia uma plataforma de retroescavadeira apropriada para quebrar ossos, começado pelo nariz. O tênis de cor acinzentada parecia uma sapata de sustentação de um prédio de oito andares.

Peguei a casquinha e me aprumei para recheá-la, quando ele repetiu:

– Perto do pai, fica perto do pai.

A menina veio na minha direção, agarrando a minha perna.

– Eu falei perto do pai, disse ele com uma voz ainda mais exaltada.

A menina apertou ainda mais a minha perna, que estava mais gelada do que os sorvetes no freezer.

Foi quando uma mulher se aproximou, pegou a criança pela mão dizendo:

– Vem com a mamãe, deixa o papai servir o sorvete.

O clima não ficou dos melhores já que, afinal, a mãe não deu pistas sobre quem é o pai? Era o mínimo que a clientela esperava.

Larguei a casquinha, já esmigalhada e ingressei na calçada da Rua. Disparei sem rumo, como se passasse da primeira pra quinta marcha num piscar de olhos e sem olhar para trás. Juro que senti o chão tremer às minhas costas mas, segui firme obedecendo a lei da física, aquela dos corpos em movimento e ao mesmo tempo calculando o estrago que seria caso uma patrola alcançasse o Corolla, por exemplo.

 

Perguntinha complicada

No ônibus, sentado ao lado de uma senhora de aparência humilde, ao passar pela Avenida Mauá no centro de Porto Alegre, ela olha uma enorme faixa no prédio da “ocupação Saraí” e me pergunta:
– Eles invadiram este prédio?
– Não, eles ocuparam, quando alguma coisa está desocupada, se ocupa.
– Ahhhmmm
– Invasão é quando alguém chega na sua casa, lhe coloca pra fora e fica morando lá.
– Entendi.
– É mais ou menos o que os Estados Unidos fazem com os árabes, os africanos e outros países pelo mundo, reforcei o argumento.
Ela não pareceu muito interessada no meu argumento, até me pareceu tê-lo ignorado.
Mais uns meros a frente ela, pensativa e preocupada, diz:
– E eles pagam água e luz?
Putz!!!

Vai saber… é de matar curioso

No lotação a mulher ao lado saca o celular e inicia uma conversa. Claro que eu só ouço o que ela diz.

– Oi amiga, tudo bem?

– Eu também.

– Ela tá bem?

– Humm, bom…

– Ele melhorou?

– Vocês são amigos já faz um bom tempo né?

– O que foi mesmo que aconteceu com ele?

– Ai amiga, que constrangedor…

Aí a conversa se desenrola aos resmungos e um bom tempo e aenhora só ficou no humm, affe, ixe, a fudê… até que a certa altura da viagem toma novos contornos.

– Sim, vamos hoje a tarde

– É longe sim, dez horas de vigem, fora as paradas (risos)

– Vamos a Rê, o Dê, a Mi e Eu.

– Visitar o filho da Rê que mora lá.

– É, o mais novo, o Puí, ele tem uma filha que nasceu faz pouco.

– Sim, é Gabrieli, nome de pompa, com dois éles e ipsolon no final, dizem que é linda.

(Arrumando então: Gabrielly – ninguém é adivinha).

A mulher levanta ligeiro e pede pro motorista deixá-la na esquina, a lotação já estava na esquina, ela desce correndo sem que tivesse a oportunidade de saber ao menos o rumo da viagem e que tipo de mal constrangedor foi aquele do amigo da amiga.

 

 

O pó dos delírios

Procurem entender a minha angustia – na madrugada estou escrevendo, com a janela aberta pro lado do mato, com o ventilador de teto na testa porque não suporto o ar refrigerado. Lá pelas tantas dou uma pausa para esvaziar o que sobrou na xícara de café preto, mais pra frio do que pra morno. Depois do último gole sinto que duas asas se manifestaram no fundo da caneca. Alguém sabe afinal, se o pó da asa da mariposa é fatal?

Por que fui perguntar? Os amigos me tiraram, atocharam todas pelas redes sociais, desde pó alucinógeno ao ataque de caganeira, ou que mata em três ou quatro dias.

Pura mentira, deveriam trabalhar pro Bolsonaro, patrocinados pelo véio da Havan, de tanto fake que inventaram.

Tou aqui, vivinho da silva. Nada de alucinógeno, só ainda um pouco alucinado com o que aconteceu.

Um Prometeu às avessas

O asseverado Bolsonaro, um Prometeu tupiniquim, nada comparado ao titã grego, prometeu acabar com privilégios e acabou com o horário de verão.

Prometeu acabar com o PT e acabou com seu próprio partido.

Prometeu acabar com os altos salários e acabou com o salário mínimo.

Prometeu prioridades aos trabalhadores, acabou com o emprego e a aposentadoria.

Prometeu o fim da mamata e acabou com a maminha.

Promete acabar com a pobreza… classe média, abra o olho com este cara aí.

Prá pensar – Como alguém que foi um completo fracasso até os 30 anos de idade se tornou um homem com poder para matar milhões e deixar a Europa em ruínas? Refiro-me a Hitler, o líder nazista que preferiu acusar sua avó de chantagem sexual a admitir que pudesse ter sangue judeu. Também não batia bem.

 

Nas asas do poder – o tráfico de drogas em vôos oficiais

O ditador chileno montou um esquema de tráfico de drogas usando aviões da Força Aérea Chilena que distribuíam a droga na Europa através das embaixadas do país em Estocolmo e Madri, além dos Estados Unidos. Pinochet chegou a desenvolver seu próprio produto para lucrar nesse mercado: a “coca negra”. (revista Forum)

Um avião presidencial de um pais vizinho ao Chile foi apreendido recentemente na Espanha, transportando coca.

Pelo o que se sabe a coca era branca, mas, já estão desenvolvendo pesquisas para que ela se torne laranja.

 

 

De Amaral de Souza e Lauro Guimarães a Gilmar Mendes e Janot

“Sempre acreditei que, na relação profissional com tão notória figura, estava exposto, no máximo, a petições mal redigidas, em que a pobreza da língua”. Esta afirmação do ministro do Supremo Gilmar Mendes sobre o ex-procurador-geral da República, Rodrigo Janot que confessou a sua intenção de assassinar Mendes, mas que o dedo falhou na hora de dar um tiro no algoz, me remeteu à Praça da Matriz em Porto Alegre lá por 2007/08, não lembro bem.

Foi logo depois do meio dia de uma sexta-feira. Eu acabara de gravar o programa do Ministério Público para a TV Justiça, nos estúdios da Assembleia Legislativa e retornava para o Forte Apache, nome dado AP Palácio do Ministério Público do Estado, sede da Procuradoria-Geral de Justiça e onde funcionava a assessoria de imprensa do MP.

Sentados lado a lado, no banco da praça, estavam o ex-governador do Rio Grande do Sul Amaral de Souza e o ex-procurador-geral de Justiça Lauro Guimarães. Os dois se conheciam de Palmeira das Missões, município localizado ao Norte do Rio Grande do Sul da época em que Lauro Guimarães era promotor de Justiça da cidade e Amaral de Souza advogava por causas nobres e justas dos cidadãos da Palmeira. Mais tarde, Amaral vinha a ser governador do Estado, indicado pelo regime militar, e Guimarães o seu secretário de Turismo.

Juntei-me a conversa e os dois me contaram a história que me lembrou a briga do Mendes e o Janot.

Lauro disse que o Amaral como advogado volta e meia visitava a mesa do promotor com interpelações e apelações.

– As petições eram mal redigidas, disse o Lauro.

Um dia ele resolveu reclamar para o então advogado Dr. Amaral sobre os atropelos na língua e a pobreza da redação.

Amaral não perdeu tempo para justificar a correria na sua banca de advocacia, o que não lhe permitia o aprofundamento nos textos redigidos e ao mesmo tempo, respondeu ao promotor, que pouco lhe importava a qualidade da redação:

– Pode tá mal escrita, mas tou ganhando muito dinheiro.

O pastor que conquistou a Glória

O cotidiano reserva o inesperado, o inédito. O bom do cotidiano é isso, você não prever o próximo segundo.

No trem, um senhor de cabelos grisalhos, terno e gravata, com o novo testamento nas mãos senta ao meu lado e depois de um tempo orando, quase chegando na estação, me conta que conquistou a glória com a palavra de Deus.
Perguntei sobre a conquista, do que se tratava e se a cerimônia foi recente tendo em vista a fatiota que vestia.
– Tou indo agora pra me casar com ela.

– Então a Glória é uma mulher?

– A cerimônia é às dez.

Sim, era uma Glória de carne e osso.