Perguntinha complicada

No ônibus, sentado ao lado de uma senhora de aparência humilde, ao passar pela Avenida Mauá no centro de Porto Alegre, ela olha uma enorme faixa no prédio da “ocupação Saraí” e me pergunta:
– Eles invadiram este prédio?
– Não, eles ocuparam, quando alguma coisa está desocupada, se ocupa.
– Ahhhmmm
– Invasão é quando alguém chega na sua casa, lhe coloca pra fora e fica morando lá.
– Entendi.
– É mais ou menos o que os Estados Unidos fazem com os árabes, os africanos e outros países pelo mundo, reforcei o argumento.
Ela não pareceu muito interessada no meu argumento, até me pareceu tê-lo ignorado.
Mais uns meros a frente ela, pensativa e preocupada, diz:
– E eles pagam água e luz?
Putz!!!

Vai saber… é de matar curioso

No lotação a mulher ao lado saca o celular e inicia uma conversa. Claro que eu só ouço o que ela diz.

– Oi amiga, tudo bem?

– Eu também.

– Ela tá bem?

– Humm, bom…

– Ele melhorou?

– Vocês são amigos já faz um bom tempo né?

– O que foi mesmo que aconteceu com ele?

– Ai amiga, que constrangedor…

Aí a conversa se desenrola aos resmungos e um bom tempo e aenhora só ficou no humm, affe, ixe, a fudê… até que a certa altura da viagem toma novos contornos.

– Sim, vamos hoje a tarde

– É longe sim, dez horas de vigem, fora as paradas (risos)

– Vamos a Rê, o Dê, a Mi e Eu.

– Visitar o filho da Rê que mora lá.

– É, o mais novo, o Puí, ele tem uma filha que nasceu faz pouco.

– Sim, é Gabrieli, nome de pompa, com dois éles e ipsolon no final, dizem que é linda.

(Arrumando então: Gabrielly – ninguém é adivinha).

A mulher levanta ligeiro e pede pro motorista deixá-la na esquina, a lotação já estava na esquina, ela desce correndo sem que tivesse a oportunidade de saber ao menos o rumo da viagem e que tipo de mal constrangedor foi aquele do amigo da amiga.

 

 

O pó dos delírios

Procurem entender a minha angustia – na madrugada estou escrevendo, com a janela aberta pro lado do mato, com o ventilador de teto na testa porque não suporto o ar refrigerado. Lá pelas tantas dou uma pausa para esvaziar o que sobrou na xícara de café preto, mais pra frio do que pra morno. Depois do último gole sinto que duas asas se manifestaram no fundo da caneca. Alguém sabe afinal, se o pó da asa da mariposa é fatal?

Por que fui perguntar? Os amigos me tiraram, atocharam todas pelas redes sociais, desde pó alucinógeno ao ataque de caganeira, ou que mata em três ou quatro dias.

Pura mentira, deveriam trabalhar pro Bolsonaro, patrocinados pelo véio da Havan, de tanto fake que inventaram.

Tou aqui, vivinho da silva. Nada de alucinógeno, só ainda um pouco alucinado com o que aconteceu.

Um Prometeu às avessas

O asseverado Bolsonaro, um Prometeu tupiniquim, nada comparado ao titã grego, prometeu acabar com privilégios e acabou com o horário de verão.

Prometeu acabar com o PT e acabou com seu próprio partido.

Prometeu acabar com os altos salários e acabou com o salário mínimo.

Prometeu prioridades aos trabalhadores, acabou com o emprego e a aposentadoria.

Prometeu o fim da mamata e acabou com a maminha.

Promete acabar com a pobreza… classe média, abra o olho com este cara aí.

Prá pensar – Como alguém que foi um completo fracasso até os 30 anos de idade se tornou um homem com poder para matar milhões e deixar a Europa em ruínas? Refiro-me a Hitler, o líder nazista que preferiu acusar sua avó de chantagem sexual a admitir que pudesse ter sangue judeu. Também não batia bem.

 

Nas asas do poder – o tráfico de drogas em vôos oficiais

O ditador chileno montou um esquema de tráfico de drogas usando aviões da Força Aérea Chilena que distribuíam a droga na Europa através das embaixadas do país em Estocolmo e Madri, além dos Estados Unidos. Pinochet chegou a desenvolver seu próprio produto para lucrar nesse mercado: a “coca negra”. (revista Forum)

Um avião presidencial de um pais vizinho ao Chile foi apreendido recentemente na Espanha, transportando coca.

Pelo o que se sabe a coca era branca, mas, já estão desenvolvendo pesquisas para que ela se torne laranja.

 

 

De Amaral de Souza e Lauro Guimarães a Gilmar Mendes e Janot

“Sempre acreditei que, na relação profissional com tão notória figura, estava exposto, no máximo, a petições mal redigidas, em que a pobreza da língua”. Esta afirmação do ministro do Supremo Gilmar Mendes sobre o ex-procurador-geral da República, Rodrigo Janot que confessou a sua intenção de assassinar Mendes, mas que o dedo falhou na hora de dar um tiro no algoz, me remeteu à Praça da Matriz em Porto Alegre lá por 2007/08, não lembro bem.

Foi logo depois do meio dia de uma sexta-feira. Eu acabara de gravar o programa do Ministério Público para a TV Justiça, nos estúdios da Assembleia Legislativa e retornava para o Forte Apache, nome dado AP Palácio do Ministério Público do Estado, sede da Procuradoria-Geral de Justiça e onde funcionava a assessoria de imprensa do MP.

Sentados lado a lado, no banco da praça, estavam o ex-governador do Rio Grande do Sul Amaral de Souza e o ex-procurador-geral de Justiça Lauro Guimarães. Os dois se conheciam de Palmeira das Missões, município localizado ao Norte do Rio Grande do Sul da época em que Lauro Guimarães era promotor de Justiça da cidade e Amaral de Souza advogava por causas nobres e justas dos cidadãos da Palmeira. Mais tarde, Amaral vinha a ser governador do Estado, indicado pelo regime militar, e Guimarães o seu secretário de Turismo.

Juntei-me a conversa e os dois me contaram a história que me lembrou a briga do Mendes e o Janot.

Lauro disse que o Amaral como advogado volta e meia visitava a mesa do promotor com interpelações e apelações.

– As petições eram mal redigidas, disse o Lauro.

Um dia ele resolveu reclamar para o então advogado Dr. Amaral sobre os atropelos na língua e a pobreza da redação.

Amaral não perdeu tempo para justificar a correria na sua banca de advocacia, o que não lhe permitia o aprofundamento nos textos redigidos e ao mesmo tempo, respondeu ao promotor, que pouco lhe importava a qualidade da redação:

– Pode tá mal escrita, mas tou ganhando muito dinheiro.

O pastor que conquistou a Glória

O cotidiano reserva o inesperado, o inédito. O bom do cotidiano é isso, você não prever o próximo segundo.

No trem, um senhor de cabelos grisalhos, terno e gravata, com o novo testamento nas mãos senta ao meu lado e depois de um tempo orando, quase chegando na estação, me conta que conquistou a glória com a palavra de Deus.
Perguntei sobre a conquista, do que se tratava e se a cerimônia foi recente tendo em vista a fatiota que vestia.
– Tou indo agora pra me casar com ela.

– Então a Glória é uma mulher?

– A cerimônia é às dez.

Sim, era uma Glória de carne e osso.

O dia em que a diarista não veio

Ontem, antes de dormir, fiquei sabendo que a diarista não apareceria nesta sexta-feira. Dei de mão no aspirador que levantou vôo pelas paredes, cantos do teto, nas frestas do assoalhos, pás dos ventiladores de teto. Aproveitando a onda aspirei até os cachorros da casa e me declarei “inimigo do pó”, erguendo a haste do aspirador feito herói, um gesto ridículo, mas fiz.

Ao acordar pela manhã vi que a sujeira da casa ainda estava lá e a faxina por fazer.

Sonhar com trabalho me deixa puto.

A primeira aparição do homem do tempo no Jornal do Almoço

Início dos anos 90, período em que eu coordenava o Jornal do Almoço da RBS TV lá no morro Santa Teresa, o Cléo fazia as suas primeiras participações na Rádio Gaúcha despejando chuvas e agonizando secas por todo o estado. Cléo trazia para os noticiários uma voz diferenciada para os padrões do rádio, alguns tons bem abaixo do que qualquer agudo dos mais afiados locutores e repórteres.

Naquele verão o Rio Grande do Sul sofria com uma estiagem sem precedentes. Plantações secando, gado morrendo de sede anunciando uma quebra recorde de safra.

Liguei para o Cléo no 8º Distrito de Meteorologia para bater um papo sobre aquele momento e dos riscos da seca para os gaúchos.

Pois o meteorologista foi tão convincente que na hora, mesmo sem conhecê-lo, resolvi convidar para que participasse do Jornal do Almoço naquele mesmo dia.

No horário marcado lá estava o entrevistado na redação do JA. Em seguida a produtora Marinês Canton foi até o suíte master, onde eu ficava para colocar o jornal no ar e me perguntou:

– Você conhece o entrevistado do tempo?

– Não, por quê?

– E então desce e dá uma olhada.

Barba de bom velhinho, camisa xadrez, cabelos espetados tipo Andy Warhol vendendo suas latas de feijões.

Meu Deus, pensei… o cabelo dá pra resolver na maquiagem, mas a camisa…

Aquele xadrez de “rasgar o vídeo”, linguagem dos diretores de imagem, poderiam interferir na leitura da câmera e comprometer o sinal e em último caso, reparando exageros, tirar o programa do ar.

Foi quando então que a Marinês achou a solução.

– Uma camisa do Lauro Quadros, eles tem o mesmo porte físico e o Lauro sempre guarda camisas de reserva na maquiagem, disse ela.

Nem dez minutos depois, com o cabelo levemente lambido por uma camada de gel o Cléo Kuhn estreou no Jornal do Almoço, vestindo uma camisa lisa, graças aos caprichos do Lauro Quadros.

Virei amigo do Cláo e cheguei a pegar uma carona no mesmo dia. O carro eu não lembro direito, acho que era um Chevette que precisou de um empurrãozinho para pegar no tranco e deslizar morro abaixo.