Declarando guerra ao ladrão de carpins

 

Agora chega, já esgotou a paciência. É muita ousadia no mesmo dia.

Coloco as roupas na máquina, entre elas três pares de meias. Depois de lavadas só restam três carpins, um de cada pé.

Carpins 1

Já estou saturado destes furtos. Eles vinham ocorrendo eventualmente, mas nunca tantos sumiram num mesmo ataque, é muita provocação. Das outras vezes relevei, mas agora a reação foi pra valer. Armado de chave de fenda, alicate e facão três listas bem afiado para o caso de encontrar alguma resistência no caminho, parti para o ataque.

Desmontei a máquina de lavar inteira, inspecionei os canos e mangueiras, depósito de flunfa da lavadora e quase mergulhei no sumidouro.

Sem encontrar uma única pista nesta minha investigação pessoal concluí que o ladrãozinho de carpins estaria por perto rindo da minha cara, zombando da minha indignação ao dependurar um pé de cada meia no varal. Claro que não eram de boa qualidade, foram arrematados num balaio no bazar na Rua Voluntários da Pátria, mas eram meus.

Carpins 2

De uma coisa eu tenho certeza, se é que existe o tal duende que rouba meias para zombar da gente ele deve ser perneta ou usar pares que não combinam. Ainda vou dar o flagrante e esclarecer a dúvida.

Da próxima vez colocarei as meias na máquina, as que sobraram, chamarei os meus dois cachorros para me ajudarem a vigiar. Estarei portando o três listras e um bodoque com bolitas de vários tamanhos. Se ele inventar de abrir a tampa da lavadora ou utilizar qualquer outro meio para acessar os carpins terá a devida recepção, vai ser o massacre da funda. Com tantas armas letais, a vitória tá no papo.

Aí vem o Fufuca

O deputado federal André Fufuca, 28 anos, assume a presidência da Câmara dos Deputados enquanto o presidente da Câmara Rodrigo Maia vai ocupar o lugar de Temer, no período em que o Temer leiloa o Brasil na China.

Fufuca é o protótipo do guri que não precisou se esforçar para correr atrás de votos, pois é herdeiro dos velhos figurões da política do Maranhão entre eles o seu pai, o Fufuca mais rodado, que é prefeito de uma cidade do interior. Nasceu no PSDB, foi para o PEN e hoje está no PP, tudo isso em menos de sete anos. É da turma do Eduardo Cunha, inclusive nem apareceu para votar, certamente contra, a cassação do seu pastor. Também entendeu que não havia  motivos para o impeachment do Temer, mas votou pelo da Dilma. Enfim, um exemplo de coxinha, mimado e bem mandado.

Pois é este grande chefe que vai comandar a reforma política do país no período em que exercerá a presidência da Câmara Federal. Meu Fuca na garagem não acreditou quando contei para ele que o futuro político da nação estava nas mãos da família. Só acreditou quando liguei o rádio e se certificou de que não se tratava de nenhuma pegadinha. Fiquei com a impressão que o “Mujiquinha”, como é carinhosamente tratado, baixou os faróis e deu um suspiro de rebaixar a suspensão. Não foi comemoração, senão teria buzinado.

Com certeza os ocupantes do mais alto escalão da nação brasileira tomaram todas as precauções para que o Fufuca não desgoverne e coloque em risco o plano em marcha. Como ele já passou pelo PEN, certamente já vem com Drive instalado com o manual de instruções incluido, é só baixar.

Mimados

Poucos sabem muito sobre um todo, mas a maioria sabe de tudo um pouco. São os de opinião formada, que dão pitaco nas respostas alheias e não querem retruque. São características do comportamento humano, os chamados donos da verdade desde que observadas suas tolerâncias.

Estudos, teses e pesquisas que levam anos e mais anos para comprovar suas afirmações não tem a mínima importância, comparado a letra de uma música chata que repete a mesma coisa, mas que empolga e ao mesmo tempo desvia a atenção para questões maiores como entender o milagre do Inter disparar na série B e o Grêmio despencar na série A.. A mesma análise cabe aos discursos vagos e procaicos de quem só quer chamar a atenção sem que suas afirmações tornem-se práticas para salvar o planeta e resolver para sempre os problemas do mundo.

A diferença da música é que ela não exige o mínimo de raciocínio e a tese requer o conhecimento. O discurso é dizer o que o outro quer ouvir e concordar com tudo, um blefe, e tem os que caem na conversa, mimados pelas promessas fáceis sem esforço ou desafios, tornam-se acomodados e isso na política tem um valor extraordinário. No circo do poder o povo faz papel de fantoche.

Para eles, o melhor é abreviar, não gastar a memória em questões complicadas, demoradas. É mais simples digitar o número, confirmar e chegar em casa no horário do almoço, beber, comer, ouvir aquela música e logo esquecer quem foi que você escolheu para ser teu representante e continuar reclamando de tudo, culpar a todos, eximindo-se, no entanto, da sua própria culpa. É preciso participar do processo e conhecer os ingredientes e não esperar para receber tudo pronto.

Quem cozinha conhece a melhor parte do prato que prepara e pode escolher ficar com a melhor fatia. Assim como no assado o espeto final é o do churrasqueiro, ou da diretoria, como queiram.

A Nova Geração de poetas e compositores de Passo Fundo

Avançavam os anos 70, regime militar em alta e os festivais de músicas de protestos se espalhavam pelo país. Em Passo Fundo não era diferente e o Festival Estudantil da Música Popular – FEMPO era a oportunidade para revelar novos talentos como Jussara Gomez, Maria Margareth Lins Rossal Marga Rossal e tantos outros. Suas letras e músicas eram imbatíveis, como também eram imbatíveis as letras do Ubiratan Porto, idealizador do “Grupo Literário Nova Geração”, que reunia poetas, trovadores, escritores, letristas, compositores. Ao lado do Paulo Monteiro, formamos um trio de bons e quase que inseparáveis amigos. A aproximação só foi desfeita quando o Ubiratan concluiu a faculdade de direito na UPF e retornou para Porto Alegre. Depois disso nos encontramos raras vezes. Refugiado na praia de Capão da Canoa, litoral gaúcho, partiu deste mundo faz quatro anos.
Num destes festivais estudantis, para me vingar de uma conhecida que havia me esnobado, resolvi responder em versos a indelicadeza daquela malcriada.

Encontrei o Ubiratan no “chatô”, era como chamávamos a quitinete que ele alugava na Rua Morom no centro da cidade. Mostrei a letra para ele e disse que a noite levaria para a Escola de Samba Bom Sucesso colocar a música. O Bira de imediato disse que me acompanhava, ele não perderia nunca uma roda de samba. O terreiro da escola ficava no bairro Boqueirão, perto do estádio do Esporte Clube Gaúcho. Precisava descer um barranco até chegar à casa do Eucalião, músico e líder da escola, nos fundos dela é que ficava a quadra de ensaios. No horário marcado chegamos lá, já era noite e estava um breu. Descemos tateando até o quintal e batemos palma para anunciar a chegada despertando a fúria de dois enormes cães que avançaram feito leões na savana. Já com um pouco de luz refletindo de um poste no pátio da casa, corremos em direção a duas árvores e tratamos de subir o mais rápido possível. O Bira num pé de pera e eu num pé de laranja de umbigo. A diferença é que o pé de pera não tem espinhos. Espetado até as orelhas senti um golpe no traseiro. Lá se foi o bolso da minha calça Jeans levado pelos caninos do canino. Aos gritos de “sai cachorrada”, por parte dos donos da casa, eles se afastaram. Trêmulos, feito vara verde, descemos das árvores para sermos acolhidos com pedidos de desculpas e preocupação.

Depois do susto que quase nos fez esquecer o motivo pelo qual estávamos ali, tratei de puxar a letra do samba do bolso, o mesmo bolso que fora levado pelo cachorro. Procuramos pelo pátio e só encontramos fragmentos da letra.

– Ele comeu o samba, disse o Charão, outro músico que trazia nas mãos uma pequena estrofe onde se lia a palavra “uma estrela caindo é superstição”, o resto borrado pela baba.

Precisei reescrever a letra que já nem mais lembrava direito como tinha feito. O Bira tinha uma memória de elefante e lembrava algumas partes. Assim fomos recompondo o samba e o susto.

O causo do casal do pau oco de Colorado

Árvores podem viver eternidade, comparadas à idade humana. Um jequitibá-rosa de Santa Rita de Passa-Quatro, São Paulo, por exemplo, tem mais de três mil anos e é a árvore mais velha catalogada no Brasil.

Mas no município de Colorado, bem na região do planalto gaúcho uma árvore não tão frondosa e nem tão antiga como o velho Jequitibá se tornou famosa por ter amparado o casal do pau oco em seu tronco sem a pretensão de entrar para a história.

Reza o falatório que foi o olho clínico do escultor com inclinação ao barroco, Luiz Damiani, que percorrendo as terras da família, deparou-se com dois grandes nós no tronco de uma árvore oca, de madeira morta e desfolhada. Raciocínio rápido, não perdeu a oportunidade de colocar em prática a sua criatividade. Munido de martelo e talhadeira deu asas à imaginação. Dos entalhes surgiram um homem e uma mulher que pareciam conversar num local nada convencional. Ele não calculava, no entanto, as proporções que a sua criação artística tomaria daquele dia em diante.

Na mesma época, lá pelos idos dos anos 60, corria na cidade um boato sobre o sumiço de um casal de namorados cujos pais não aprovavam a união. Anoiteceram e não amanheceram no povoado. As suspeitas recorrentes eram as de que eles tinham se retirado para um lugar secreto para dar um fim às suas vidas, numa jura de amor eterno, além da vida terrestre. Soube-se depois que eles fugiram para o Mato Grosso na busca da paz e da felicidade, vivendo felizes para sempre.

O seu Bigio, um lenhador negro que carregava nas costas um saco enorme, cheio de quinquilharias e que botava medo nas crianças, costumava cortar o caminho de casa usando a trilha do mato de onde ele já havia sacrificado centenas de árvores e que conhecia como a palma da mão. Mas naquele dia ele ouviu na cidade que a alma do casal desaparecido andava assombrando o povoado. Enquanto avançava entre as arvores, mascando fumo em rama e loco para chegar em casa e se jogar na cama, ia matutando sobre as histórias que ouviu no armazém. Gostava de exagerar na cachaça e naquele dia não foi diferente. Achava que aquela era uma história bizarra, mentira das grandes.

– Desde quando se viu fantasma por aqui, eles não existem e se existem é causo pra assustar bobo, pregar peça em quem tem medo. Ia pensando em voz alta.

Bigio se considerava um valentão, afinal, botava medo na gurizada, gostava de trago e tabaco, e ainda por cima era um demolidor das matas. Não era de graça que seu sobrenome era Machado.

Mais alguns passos, a visão dele se esbugalhou, os olhos saltaram, o saco de estopa voou pelos ares e o descrente tomou o caminho contrário de onde vinha, pros rumos do campo aberto. Corria feito boi desgovernado, se enroscou numa cerca de arame farpado antes de avançar numa plantação de milho. Tropeçou em morangas e abóboras, rolou mais do que correu e abriu uma trilha no milharal. Só parou nos fundos de uma serraria onde se jogou com a roupa esfarrapada debaixo da bica que movia a roda d’água que por sua vez acionava as engrenagens da serra mestra do engenho de madeira. Achou que o banho frio o despertaria do pesadelo, de um sonho que não aconteceu.

Mais tarde contou toda a verdade sob o olhar desconfiado dos marceneiros que não acreditaram na história. Naquela noite, por motivos alheios, arrepiado de medo, ele dormiu por lá, num cochão de serragem, prometendo a si mesmo que nunca mais beberia uma única gota de álcool. Tornou-se abstêmio, até a morte.

No dia seguinte um guri, sem saber da história, percorria a mata assoviando feito pintassilgo, com o bodoque engatilhado, pronto para abater, caso atravessasse, uma rolinha gorda e distraída, que seria o almoço do dia. Por perto também estava o artista, contemplando a sua obra. Ao ver que o amigo se aproximava, tratou de se esconder no tronco para lhe dar um susto, coisa comum entre a criançada do interior e em seguida disparou um diálogo áspero. Do nada, gritos estranhos e inesperados romperam o silêncio da mata, afugentaram os pássaros, coelhos, pacas e ratões e, claro o amigo que disparou entre as árvores num emaranhado de cipós, pata de vaca e unhas de gato. Foi grito por toda parte, o artista imitando um casal brigado e o guri aos berros abrindo caminho no emaranhado de plantas achando que o casal, que viu de relance, eram fantasmas que alcançavam seus calcanhares. Todo arranhado rompeu a casa mais próxima, feito um raio. Levou um bom tempo para tomar fôlego e relatar o que acabara de ver. Logo chegou o artista com cara de inocente, mas ao notar que o coração do amigo estava prestes a sair pela boca, resolveu se desculpar e falar a verdade.

Mesmo assim, ao retornar para casa ele não mais tomou o caminho do mato, traçou um novo rumo, fazendo uma longa volta pela estrada. Não queria novas surpresas, nem novas emoções, nem mesmo novas aventuras. O susto bastou para deixá-lo desconfiado, podia não acreditar em assombração, mas vai que elas existem? Enfim, “Yo no creo em brujas, pero que las hay, las hay”

Foto do criador e suas criaturas para provar que o causo tem procedência e foi documentado

Luiz Damiani

Ô Aveline, e os trinta mil do Nazário?

 

Praticamente todos os jogos no Estádio Beira-Rio eu tenho nas tribunas de imprensa, a companhia dos jornalistas José Aveline Neto e Olides Canton, dois personagens de história, causos e credibilidade da imprensa gaúcha. Eles têm opinião pra tudo e mais um pouco, furungando a vida dos mortais, sejam ou não celebridades, pouco importa. Passam pelo crivo, são jornalistas da cepa, natos, bem informados.

E foi numa destas “expeculações” em terras distantes que o Aveline se complicou ao fotografar uma festa onde estavam os jogadores brasileiros no Japão. Os atletas, entre eles o Ronaldo Fenômeno, comemoravam a vitória brasileira em uma casa noturna na cidade de Seogwipo, depois de um jogo da copa do mundo de 2002. A vitória foi contra a China , os jogadores foram dispensados naquela noite e partiram pra festa. Por ironia do destino escolheram uma boate bem próxima ao hotel onde os jornalistas estavam hospedados.

A notícia correu a bico fino, de orelha em orelha e sem perder tempo lá estava o Aveline com sua máquina fotográfica, para registrar a confraternização que, por certo, seria publicada na revista Gol, especializada em esportes, da qual ele é proprietário e que se sustenta por quase três décadas e meia no mercado gaúcho e nacional.

O assunto estava quase esquecido quando o Olides questionou:

– Ô Aveline e os trinta mil do Nazário?

É que meses atrás, com 15 anos de atraso, a Justiça determinou para que Ronaldo Fenômeno indenize o jornalista em R$ 30 mil por dandos morais, por ter ordenado seguranças a arrancarem o equipamento de trabalho das suas mãos e danificá-lo. Aveline naquela noite fotografava o Ronaldinho Gaúcho do qual é amigo pessoal, mas o Ronaldão se sentiu incomodado e partiu para o ataque, sem bola. O gol é da revista que vai embolsar a quantia, devidamente corrigida.

CHUPA PATO

A turma do pato anda apavorada. Paga, numa só tacada, o maior reajuste de combustíveis da história e não pode tirar passaporte para fugir do país. Sem saída, sofre calada.

  • Pai, a gente não vai pra Disney?
  • Agora não
  • Mas você falou que a gente ia nas férias de julho
  • Não vai dar filho
  • Não tem lugar no avião?
  • Não, o que não tem é passaporte, a Policia Federal não tem material pra fornecer passaporte.
  • Por que?
  • O governo não liberou verba
  • Então porque a gente não vai pra serra ver a neve?
  • O preço da gasolina disparou filho
  • É por isso que a mãe falou no café da manhã que a coisa tá complicada?
  • Sim filho, complicou de vez
  • Mas o Temer não ia resolver tudo? Aquela vez que eu fui pra rua ver o pato com você era pra derrubar a Dilma e colocar o Temer que tudo ia melhorar, você falou.
  • Brinca no teu game e não faça perguntas filho
  • Vamos passar as férias em casa?
  • Se quiser, podemos dar uma volta na quadra e voltar logo porque a rua não é segura.
  • Mas paaaai….
  • Fiiilho!!!!!

Cada qual com seu Guto

Não é um mau técnico, mas não é o melhor. Coloca em campo um time ideal, que não rende o esperado e quando faz alterações, troca mal. Tanto o Guto como o Zago tem um quê de implicância com o Nico Lopes. O cara é sacado de todos os jogos, quando entra em campo é claro. Aí coloca o Brenner, depois tira o Claudio Wink e mantém o Pottker. Deixa o time mais pesado, os dois judiam a bola e afundam o gramado.

O lamentável trio de arbitragem e o comportamento de alguns torcedores depois do jogo contribuíram para sepultar o espetáculo. O antijogo do Criciúma completarou o sofrimento de um futebol pobre de futebol. Lembrando que retranca e catimba fazem parte do jogo.

Já o técnico foi salvo pelo Klaus aos 48 do segundo tempo. Bota sorte nesse cara, tou falando do Guto. Sobrevida por mais uma semaninha, pelo menos.

O BUGIO OS CACHORROS E O JORNALISTA

(Crônica muito bem humorada do Paulo Monteiro sobre um fato real, cheio de elementos que valorizam a arte de contar histórias)

Falham todos os sábios e todas sabedorias. Apenas os poetas são infalíveis. Prova a musa popular gaúcha em quadrinhas como esta:
Todo mundo se admira
do bugio andar de espora.
O bugio já foi tenente
da Brigada Provisora.
A musa popular produziu muitos versos sobre esse nosso parente distante e até um ritmo tipicamente nosso: o Bugio.
Meu amigo Flavio Damiani é viva prova de que o poeta popular está certo.
Aos fundos de sua aprazível casa, em Porto Alegre, às margens do Arroio Passo Fundo, ainda vive o inspirador desses versos. Ali desfruta sua longevidade isolado dos demais de sua espécie, como um velho lobos solitário ou um quati-mundéu. Apossou-se de uma larga faixa de mata ciliar, apreciando, em particular, um frondoso abacateiro e os sons de uma pequena cascata.
Calmo, pacato, como rezam as biografias dos valentes heróis das nossas revoluções à gaúcha. Aprecia, sobre-modo, abacates. Colhe-os e, serenamente meditando sobre os símios e assemelhados, sentado nos galhos vai saboreando os frutos, espalhando caroços e contribuindo para a formação de uma pasta originada pelos que não consegue segurar.
Nosso “tenente”, com certeza, deve sentir saudades das peleias de antigamente. Os heroicos atos de incêndios, estupros, estaqueamentos e degolas, praticados pelos seus heroicos provisórios reviveram nas últimas semanas.
Espiando pelas janelas viu e ouviu os entreveros nas ruas de Porto Alegre. Acostumado aos constantes protestos do Bota e do Black Jack resolveu agir.
Conto.
Bota é um guaipeca preto, barulhento como todo o viara-lata. Black Jack é um border acarijozado, cabeça e lombo retintos e pernas carijós. Embora nascido na maior e mais rica cidade do país, não perdeu seus instintos caninos. E dá cobertura as arruaças promovidas pelo Bota. Este odeia o Bugio.
Basta Flávio soltá-lo no patio e começa as arruaças. Profere os mais violentos impropérios em sua linguagem canina, sempre acompanhado pelo indefectível border.
Dia desses o Chico (nome plebeu conferido ao nosso parente) não aguentou. Moria um abacate, como quem destrava uma granada e póim! bem no meio dos cachorros. Estes, ágeis baderneiros, desviavam-se do artefato e continuavam os protestos.
Flávio Damiani que, como bom jornalista, acompanhava a confusão resolveu seguir a normalidade da vida. Enrolou um tapete que por ali jazia e resolveu batê-lo. Desviando-se da encrenca aproximou-se do tronco do abacateiro e pom! ficou o tapete contra a árvore.
Santo Deus!
O bugio deu um pulo no galho. E desceu com galho e tudo encima dos cães.
Foi o tendéu.
Espalharam-se caninos e símio. O Bota, todo lambuzado e fedendo abacate podre refugiou-se dentro de casa, seguido pelo ilustre Black Jack. Flávio mal teve tempo de olhar e ver o Chico disparando em sua direção. Protegeu os olhos contra a árvore e mal teve tempo de sentir uma pata que lhe comprimia o coccix e outra sobre os ombros, seguindo o bravo “povisoro” de volta aos galhos.
O Chico sumiu. Viram-no há pouco mais para as nascentes do arroio Passo Fundo. Na casa de Flávio as coisas voltaram ao normal. Ao normal, em termos, pois o “tenente” abandonou o posto.
Moral da história, pois de toda a história que se preze precisamos retirar um ensinamento: Como governante daquele pequeno reino verde-amarelo, Flávio Damiani aprendeu por que os governantes preferem varrer o lixo para de baixo dos tapetes. 

A república dos trouxas

Boquiabertos, os protestantes que sairam às ruas na esperança de Justiça, se vêem tomados por um golpe desferido de dentro do próprio judiciário. O Ministro Marco Aurélio Melo foi bondoso com o Aécio Neves e mandou que ele reassumisse o cargo de Senador – pra que sofrer tanto desgaste politico se só fez o que os outros também fazem?

Já o ministro Edson Fachin teve piedade do Rodrigo Rocha Loures que nunca tinha ficado na cadeira e é de família tradicional e de conduta ilibada. Voltou para casa com uma coleirinha no calcanhar. Claro que haverá uima vigilância redobrada nos passos que ele vai dar. O pato da FIESP somos nós e o golpe da capa preta, alertado pelo Brizola, está em marcha.

Encontro dois manifestantes lançando farpas, irônicas farpas.
– Toma seu trouxa, quem mandou protestar?
– Achei que todos estavam contra a corrupção…
– Nem todos
– Aliás muitos
– Bastante
– Talvez a maioria
– Que declara não ter um corrupto de estimação
– Integramos a república dos trouxas

O que vai ficar díficil de entender nesta disputa de poder que transformou o Brasil, é a diferença entre o bem e o mal. O mal já leva uma larga vantagem.