De Amaral de Souza e Lauro Guimarães a Gilmar Mendes e Janot

“Sempre acreditei que, na relação profissional com tão notória figura, estava exposto, no máximo, a petições mal redigidas, em que a pobreza da língua”. Esta afirmação do ministro do Supremo Gilmar Mendes sobre o ex-procurador-geral da República, Rodrigo Janot que confessou a sua intenção de assassinar Mendes, mas que o dedo falhou na hora de dar um tiro no algoz, me remeteu à Praça da Matriz em Porto Alegre lá por 2007/08, não lembro bem.

Foi logo depois do meio dia de uma sexta-feira. Eu acabara de gravar o programa do Ministério Público para a TV Justiça, nos estúdios da Assembleia Legislativa e retornava para o Forte Apache, nome dado AP Palácio do Ministério Público do Estado, sede da Procuradoria-Geral de Justiça e onde funcionava a assessoria de imprensa do MP.

Sentados lado a lado, no banco da praça, estavam o ex-governador do Rio Grande do Sul Amaral de Souza e o ex-procurador-geral de Justiça Lauro Guimarães. Os dois se conheciam de Palmeira das Missões, município localizado ao Norte do Rio Grande do Sul da época em que Lauro Guimarães era promotor de Justiça da cidade e Amaral de Souza advogava por causas nobres e justas dos cidadãos da Palmeira. Mais tarde, Amaral vinha a ser governador do Estado, indicado pelo regime militar, e Guimarães o seu secretário de Turismo.

Juntei-me a conversa e os dois me contaram a história que me lembrou a briga do Mendes e o Janot.

Lauro disse que o Amaral como advogado volta e meia visitava a mesa do promotor com interpelações e apelações.

– As petições eram mal redigidas, disse o Lauro.

Um dia ele resolveu reclamar para o então advogado Dr. Amaral sobre os atropelos na língua e a pobreza da redação.

Amaral não perdeu tempo para justificar a correria na sua banca de advocacia, o que não lhe permitia o aprofundamento nos textos redigidos e ao mesmo tempo, respondeu ao promotor, que pouco lhe importava a qualidade da redação:

– Pode tá mal escrita, mas tou ganhando muito dinheiro.

O espelho sem face

Acordo em Passo Fundo e enquanto preparo o chimarrão ouço o locutor no rádio comemorar a lista de ministros e dos partidos que estão do lado do presidente eleito, afirmando que agora homem só casa com mulher, que trabalhador vai ter que se submeter às leis do patrão senão fica sem emprego, que neguinho tem que levar pau mesmo se não obedecer às regras do novo comandante que vem aí, elencando uma série de outros comentários que beiram a destruição da raça que ele chama, pelo o que eu pude entender, inferior.

Não demorou nem um segundo para lembrar o livro – Ensaio sobre a cegueira, em que José Saramago já alertava sobre uma epidemia branca que se espalhou incontrolavelmente numa cidade, resguardando os cegos em quarentena, reduzidos à essência humana. Recolhidos a um manicômio, quem podia enxergar se fazia de cego evitando que as pessoas se aproveitem da sua condição, além das gangues que se formam dentro desta microssociedade com o surgimento de lideres que procuram tirar vantagem sobre outros na mesma condição de cegueira.

Não vejo problema algum, enquanto tomo um mate, relacionar a obra do escritor português ao comportamento de boa parte dos brasileiros que, de um bom tempo para cá, vem elegendo os que se posicionam por meio dos discursos de intolerância, violência, preconceito e sobretudo, a total incoerência em tudo o que dizem, prometendo acabar com os malfeitores que roubam a nação. Políticos que para atrair a confiança do eleitor sopram fúrias aos quatro ventos afirmando que lugar de condenado (leiam-se, ministros do futuro governo), é na cadeia, que a constituição é soberana e por aí vai. O que se vê são brandidos condenados e o que deveria ser justiceiro integrados no mesmo grupo. Um juiz submetido às regras dos delinquentes.

Os cegos elegeram Donald Trump. O guru da direita, Olavo de Carvalho, doutrinou milhões com sua fake visão, ocupando um vazio desprezado pela esquerda, elegendo o mais improvável.

É preciso recuperar a lucidez e resgatar o afeto desta legião de peregrinos que se jogaram confiantes numa aventura sem a mínima segurança. José Saramago nos obriga a fechar os olhos e ver “uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos”.

Pronto, desligo o rádio e vou preparar o café.

 

 

Janela da vergonha

É uma vergonha a Justiça opressora que proíbe manifestações e discussões dentro das universidades. Sinto-me penalizado depois de integrar a geração de jornalistas brasileiros que democratizou a comunicação na Justiça criando a Rádio e TV Justiça, o Fórum Nacional de Comunicação & Justiça e todos os seus braços de discussão da transparência do judiciário e do ministérios públicos dos estados e da união. Na hora em que as velhas raposas, de dentro dos seus gabinetes, se acovardam diante de ameaças de inimigos virtuais isolados em suas tocas com seus joguinhos de guerra e de terror, fico imaginando o que seria deste país se não tivéssemos esta gente corajosa que aos milhões sai de casa para superar o silêncio dos também acovardados meios de comunicação e quebrar o silêncio das ruas para, em alto e bom tom, dizer – Não!

Metáforas

O grilo falante esqueceu de avisar o pequeno gafanhoto que o que se combina em casa não se fala na Rua. Quando lembrou já era tarde, o estrago já estava a caminho. Mexeu com as aranhas justiceiras deixando-as em alerta. Suas teias foram reforçadas formando uma rede de desconfiança. Elas são quietas, unidas e corporativas.

O grilo, por sua vez já havia reclamado das cigarras por não gostar da sua forma de comunicação com os outros insetos. Prometeu cortar regalias e foi ao bispo para negociar o desmatamento químico do átrio em todas as igrejas onde vivem as cigarras transformando-as num envenenado jantar do formigueiro.

Mas as formigas não se contentam mais com cigarras, afinal, elas são trabalhadoras e compram comida, armazenam em suas amplas dispensas e preparam os melhores pratos feitos com os eletrodomésticos que conseguiram comprar graças aos programas sociais do molusco.

As formigas, no entanto, nunca tiveram uma boa relação com o grilo, elas são trabalhadoras e ele fala demais. Um por se posicionar favor da retirada das conquistas da categoria trabalhadora da qual as formigas são as legitimas representantes, outra pelo seu cego desejo de esmagá-las pisando seus carreiros.

As formigas também estão quietas, elas não são corporativas, mas são cooperativas e educadas por terem acesso às escolas. Também não tem força nas pesquisas porque a pesquisa raramente vai a periferia.

Casinha da praça

 

Casinha da praça ilhada de carros por todos os lados tem um quadro colorido desenhado na parede.  A casinha é bela e não é por acaso que fica na Praia de Belas. Tem bidê, tapete, banquinho de bar, uma pequena varanda com penteadeira. A casinha de um morador de Rua não é a mesma da rua que a gente mora. Ela tem duas e assim como um caracol pode ser arrastada pelo dono e não ficar em total estado de abandono.

Pouco ou quase nada sei sobre quem mora nela porque no dia que passei por lá o proprietário, proprietária ou proprietários estavam em outro lugar, ou quem sabe dormiam dentro dela já que o dia é mais seguro para se proteger. Não quis entrar, nem bater, mas fiquei de longe como todos os outros que passavam ali, imaginando como será a vida numa casinha em movimento. Ah e também tem uma árvore que faz sombra na janela do lado. Tem um vira-latas no pátio da frente e o Tribunal de Justiça a velar suas costas e que, no entanto, pode remove-la dali com uma simples assinatura. Antes que isso aconteça, fica o registro na foto como um manifesto à exclusão que retira o muito pouco daquele que nada tem.

Bons antecedentes desprezados na troca de favores

 

Não escapa ninguém, todos têm culpa no cartório, ou melhor, na Justiça, na Polícia Federal, em casa ou no quintal de casa. Nomeia-se ministro e lá vem uma extensa ficha corrida.

A ministra indicada para a pasta do trabalho, Cristiane Brasil, explora seu motorista e empregados domésticos, não paga os encargos trabalhistas e ainda por cima não cumpre decisão judicial.

O substituto dela na Câmara dos Deputados, Nelson Nahim do Rio de Janeiro, responde a processo-crime por abuso sexual de incapazes.  Ele foi condenado a 12 anos de prisão por estupro de vulnerável, coação no curso do processo e exploração sexual de adolescentes no caso que ficou conhecido como “Meninas de Guarus”. Saiu da cadeia em outubro passado para virar deputado.

O ministro Eliseu Padilha da Casa Civil é outro com extensa ficha corrida por exploração de trabalho escravo em suas fazendas e problemas de ocupação ilegal de áreas para exploração imobiliária e a pratica de negócios obscuros ou para pegar leve, falta decoro.

Outro ministro, Moreira Franco, que comanda a Secretaria-Geral da presidência da República, foi citado dezenas de vezes em delações oficiais dos executivos da empreiteira Odebrecht na Operação |lava Jato, passou a ter foro privilegiado e só pode ser eventualmente julgado pelo Supremo Tribunal Federal.

O presidente da República Michel Temer, responde a dois processos-crime por corrupção e por integrar organização criminosa no STF e continua no Palácio do Planalto. Articulou o golpe contra a ex-presidente Dilma Roussef com o apoio de deputados, senadores, empresários, correntes do Judiciário, mídia entre outros, para manterem seus privilégios e imunes aos crimes que praticam.

Do outro lado da rua de Brasília, senadores, atolados na corrupção e desvios de verbas públicas. Na Câmara, deputados negociam volumosos recursos em troca de votos para uma reforma que, pelo o que eu vejo na propaganda da TV não vai mudar em nada a vida do brasileiro. Então, para que reforma e os bilhões, sim, bilhões de reais para a compra de votos e publicidade se o próprio governo diz que nada vai mudar?

Ah e tem o Gilmar, e também tem o diretor do Departamento e Trânsito – Detran, de Minas Gerais, um cidadão de nome César Augusto Monteiro Alves Junior, com 120 pontos na carteira e que continua no cargo.

No Brasil a ficha suja não é mais pré-requisito para ocupar cargo político. No Brasil os vigaristas ocupam gabinetes enquanto a ética, a moral e uma coisa chamada honestidade ficam em casa para se proteger da bandidagem. Que que eu vou dizer para os meus netos…

A corrupção não muda, mudam os criminosos

As formas de divisão setorial e hierárquica da administração pública surgiram na Grécia, mas foi na Roma antiga que houve os primeiro registros de casos de corrupção que criou raízes, dependência e proliferou.

Raízes da corrupção

A corrupção tornou-se um modismo ao ponto de ser uma prática já natural adotada por quem precisasse do serviço público. Os romanos tinham uma tabela de preços dos serviços sujeitos à corrupção.

A corrupção na sociedade portuguesa, nos tempos do Brasil Colônia, se fez presente em todos os níveis. Os chamados “amigos do rei” não faziam nada de útil, mas em troca de favores, ganhavam títulos e terras.

Aos militares cabiam prender os criminosos mas, vejam só, eram eles encabeçavam, ao lado da elite imperial, a lista da corrupção que ia do campo à cidade, exigindo dízimos sobre tudo o que era produzido pelos agricultores. Até mesmo para desfrutar de uma simples folga, o soldado ou o servidor subornava o diretor.

Escrevo só para lembrá-lo do Brasil de hoje, em que o modelo de corrupção pode ser lido na sua mais pura definição. Sem alterações. Depende como você quer interpretá-lo.

E,lembre-se: O simples fato de prejudicar alguém para levar vantagem te faz corrupto.

O Brasil de Catilinas

As Catilinárias são uma série de quatro discursos célebres do romano Marco Túlio Cícero, pronunciados em 63 a.C. Mesmo passados mais de dois mil anos, ainda hoje são repetidas as sentenças acusatórias de Cícero contra Catilina, declaradas em pleno senado romano.

Aí vai um desafio para possamos adaptar o discurso aos temos de hoje. Se fosse para substituir o nome Catilina, quem você colocaria?

Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência?
Por quanto tempo a tua loucura há de zombar de nós?
A que extremos se há de precipitar a tua desenfreada audácia?
Nem a guarda do Palatino,
nem a ronda noturna da cidade,
nem o temor do povo,
nem a afluência de todos os homens de bem,
nem este local tão bem protegido para a reunião do Senado,
nem a expressão do voto destas pessoas, nada disto conseguiu perturbar-te?
Não te dás conta que os teus planos foram descobertos?
Não vês que a tua conspiração a têm já dominada todos estes que a conhecem?
Quem, dentre nós, pensas tu que ignora o que fizeste na noite passada e na precedente, onde estiveste, com quem te encontraste, que decisão tomaste?
Oh tempos, oh costumes!

#SAGAZ – A MULHER DO VOO DO JUCÁ

Você já imaginou, alguém que se sente dono do mundo, campeão das mutretas, craque em desvios, doutor em corrupção, chefe de quadrilha de uma das muitas facções que ocupa o governo de um país, ser abordado por uma “pirralha”, ao entrar num avião, rumando para um voo internacional para se encontrar com o presidente da China?

Foi o que sentiu na pele o senador “Caju”, codinome que Romero Jucá recebeu da empreiteira Odebrecht por se tratar de um dos maiores corruptos do Brasil, ao ver uma senhora, armada com uma camera e uma serie de questionamentos para um esclarecimento ao vivo nas redes sociais.

Aí o camarada empurra a mala, que sabe-se lá o que tem dentro dela, e ao se acomodar no assento do corredor ouve uma voz feminina se aproximado com um recado nada amistoso para um político que se acha intocável e popular:

“Romero? Excelentíssimo senador, tudo bem? Gente, o Romero Jucá, do grande acordo nacional, com Supremo e com tudo!” 

https://www.youtube.com/watch?v=yIH64QRcAOk

Era a blumenauense Rúbia Sagaz (ela tem face), de 33 anos, que abordou na noite da última quinta-feira (3011), o senador Jucá do PMDB de Roraima, durante voo Brasilia São Paulo.

É uma assistente social que lavou a alma, axilas e o resto, como ela mesma diz, ao confrontar o senador. Quase levou um tabefe dele, mesmo assim, manteve o pulso firme amparando um celular, registrando a conversa cara a cara.

A atitude acima de tudo um ato de coragem pela pátria. Enquanto a grande maioria do poder rouba em nome da pátria, uma mulher, sozinha, tomada de um senso de moral intenso, tem a bravura de representar todos aqueles que calam diante de tanta podridão que fede pelos corredores da nação.

Ainda ouvi numa radio gaucha, dois apresentadores com nomes de personagens de filmes infantis “Herry Potter e a Bela Adormecida”, de que foi um exagero o que ela fez com o senador. Ah, e ainda lembraram que o Chico Buarque foi insultado por alguns playboyzinhos num bairro nobre do Rio de Janeiro. Ora, ser insultado por coxinhas não é nenhum constrangimento, e sim um reconhecimento.

Somos todos Rúbia Sagaz, que agiu de acordo com o sobrenome. #sagaz.

O que a midia tradicional não faz

Fico feliz ao ouvir do secretário da fazenda e do procurador geral do estado que o Brasil vai virar as costas para o Rio Grande do Sul. Esta é uma noticia que deve ser comemorada embora não seja aprofundada pela mídia. Brasilia não vê futuro no Estado gaúcho. Bem provávelmente porque anda dificil vender o patrimônio público e saquear toda a grana para a união em troca de uma dívida que já foi paga. A ganância arrecadadora do governo Temer e seus aliados não encontra eco no Sul. Temer vai ter que procurar parcerias em outras terras para garantir o pagamento das suas dívidas, fruto de negociatas para se manter no poder. Há resistência dos gaúchos à roubalheira e o Palácio Piratini está de mãos amarradas.
Quando representantes oficiais do Piratini vem a público dar uma noticias destas é preciso ficar alerta. O que acontece é que a quadrilha de Brasília não está conseguindo dominar este território e ameaça os seus integrantes. É só isso?
Enfim, gostaríamos de aprofundar o debate e saber os verdadeiros motivos desta ameaça. Se dependermos dos jornalões, das grandes redes de rádio e TV não passaremos da porta de entrada. Falta ao jornalismo de hoje uma das características que marcou a história da reportagem nas últimas décadas. Mostrar o outro lado, a controvérsia. Quando se diz que a imprensa tem lado é simplesmente afirmar que se ouve apenas uma parte e se despreza outras opiniões. O povo tem falado muito pouco, com raros aparecimentos para se manifestar. A imprensa oficialisca, chapa branca, não perde o foco em reproduzir opiniões dos podres poderes e de seus inescrupulosos membros contaminados pela prática de crimes de toda a ordem. Não se diferencia mais partidos nem ideologias, todos estão na mesma vala. O discurso tem uma mesma linguagem e raramente se ouve alguem falar alguma coisa diferente. E tem mais, são sdempre os mesmos personagens, figurinhas carimbadas, procuraos pela mídia para dizerem o que bem entendem sem serem questionados.
Os formadores de opinião não problematizam. Dizem o que pensam e “o resto que me acompanhe porque eu acho que é assim e assim é que vai ser”.
No mais, a vida se resume em obedecer o discurso político, o parecer jurídico reproduzido pelas redações sem que a população entenda o suas ameaças. Se povo não é convidado a pensar fica mais fácil comunicar. Eu falo, tu me ouves, simples.
Mas existem segmentos independentes, preocupados com a formação intelectual, sócial e política de um povo. Estas mídias buscam as respostas que a sociedade questiona, como estas que esclarecem os motivos do plano de recuperação fiscal do estado, um plano de entregas e privatizações do patrimônio público aos bandoleiros. Ouça, analise e tire suas conclusões. É assim que se faz.
https://www.sul21.com.br/jornal/5-perguntas-para-josue-martins-o-que-e-o-regime-de-recuperacao-fiscal/