A morte do coronel Anacleto de Passo Fundo

Marga e eu recebemos para o café da manhã de domingo em casa, o Carlos Alberto Fonseca, jornalista e procurador do município de Passo Fundo e a esposa, Maria Helena Pierdoná Fonseca, procuradora do Estado. Entre uma xícara de desnatado e um pão feito em casa, confirmaram a morte do coronel Anacleto, agora, no mês de agosto.

Duvido que alguém com mais de cinquenta anos e que residia na região do Planalto gaúcho nunca tenha ouvido falar ou escutado este radialista que acordava o campo e a cidade todos os dias pelas ondas médias da extinta Rádio Passo Fundo.

Quando criança, nos anos sessenta, morando na recém emancipada Colorado, eu despertava com as bagunças do coronel que batia numa lata, acho que era uma lata que levava para o estúdio e mandava todos pularem da cama pra trabalhar, alertando para não perderem o horário, acho que era do ônibus, que ele classificava como “cipó”. Tinha o das seis, das sete e assim por diante. Na verdade chamava a macacada pra saltar das árvores e ninguém se incomodava, era mais ou menos isso.

Confesso que não conheci o coronel e nem mesmo a sua história, embora tenha começado a minha vida profissional na Rádio Planalto de Passo Fundo onde ele, pelo o que sei, também trabalhou. Achei até que tinha partido há muito tempo por nunca mais ter ouvido falar nele.

A história do Fleumir Resende – coronel Anacleto, nome de guerra, vale uma biografia porque encantou gerações no tempo em que o rádio era indispensável na sociedade e quando a criatividade nascia do improviso e do talento dos seus profissionais.

Nunca soube também se foi um militar ou o coronel dele era patente emprestada e o motivo de ser chamado Anacleto.

A Nova Geração de poetas e compositores de Passo Fundo

Avançavam os anos 70, regime militar em alta e os festivais de músicas de protestos se espalhavam pelo país. Em Passo Fundo não era diferente e o Festival Estudantil da Música Popular – FEMPO era a oportunidade para revelar novos talentos como Jussara Gomez, Maria Margareth Lins Rossal Marga Rossal e tantos outros. Suas letras e músicas eram imbatíveis, como também eram imbatíveis as letras do Ubiratan Porto, idealizador do “Grupo Literário Nova Geração”, que reunia poetas, trovadores, escritores, letristas, compositores. Ao lado do Paulo Monteiro, formamos um trio de bons e quase que inseparáveis amigos. A aproximação só foi desfeita quando o Ubiratan concluiu a faculdade de direito na UPF e retornou para Porto Alegre. Depois disso nos encontramos raras vezes. Refugiado na praia de Capão da Canoa, litoral gaúcho, partiu deste mundo faz quatro anos.
Num destes festivais estudantis, para me vingar de uma conhecida que havia me esnobado, resolvi responder em versos a indelicadeza daquela malcriada.

Encontrei o Ubiratan no “chatô”, era como chamávamos a quitinete que ele alugava na Rua Morom no centro da cidade. Mostrei a letra para ele e disse que a noite levaria para a Escola de Samba Bom Sucesso colocar a música. O Bira de imediato disse que me acompanhava, ele não perderia nunca uma roda de samba. O terreiro da escola ficava no bairro Boqueirão, perto do estádio do Esporte Clube Gaúcho. Precisava descer um barranco até chegar à casa do Eucalião, músico e líder da escola, nos fundos dela é que ficava a quadra de ensaios. No horário marcado chegamos lá, já era noite e estava um breu. Descemos tateando até o quintal e batemos palma para anunciar a chegada despertando a fúria de dois enormes cães que avançaram feito leões na savana. Já com um pouco de luz refletindo de um poste no pátio da casa, corremos em direção a duas árvores e tratamos de subir o mais rápido possível. O Bira num pé de pera e eu num pé de laranja de umbigo. A diferença é que o pé de pera não tem espinhos. Espetado até as orelhas senti um golpe no traseiro. Lá se foi o bolso da minha calça Jeans levado pelos caninos do canino. Aos gritos de “sai cachorrada”, por parte dos donos da casa, eles se afastaram. Trêmulos, feito vara verde, descemos das árvores para sermos acolhidos com pedidos de desculpas e preocupação.

Depois do susto que quase nos fez esquecer o motivo pelo qual estávamos ali, tratei de puxar a letra do samba do bolso, o mesmo bolso que fora levado pelo cachorro. Procuramos pelo pátio e só encontramos fragmentos da letra.

– Ele comeu o samba, disse o Charão, outro músico que trazia nas mãos uma pequena estrofe onde se lia a palavra “uma estrela caindo é superstição”, o resto borrado pela baba.

Precisei reescrever a letra que já nem mais lembrava direito como tinha feito. O Bira tinha uma memória de elefante e lembrava algumas partes. Assim fomos recompondo o samba e o susto.

De onde vem “Os Homens de Preto?”

Bastou uma nesga de conversa, em janeiro deste ano, com o Paixão Cortes, para descobrir uma história interessante. Entre um cavaco de assunto e outro, surgiu uma discussão sobre a evolução musical no Rio Grande do Sul e dos seus compositores, entre eles, o Paulo Ruschel, autor de um clássico do folclore rio-grandense. Aquele que fala dos “homens de preto trazendo a boiada, vem vindo cantando dando gargalhada”, e que sem alternativa “o bicho coitado (…) só vem pela estrada, direto à charqueada…”

Foi aí que lasquei:

– Como surgiu esta música?

Beirando os 90 anos de idade, com uma lucidez invejável, o Paixão é uma referência na pesquisa folclórica do Rio Grande do Sul. Pelas mãos dele passou parte do repertório musical dos pampas.

A profissão de engenheiro agrônomo da Secretaria da Agricultura do Estado nunca foi um empecilho para sua atividade cultural, aliás, pelo o que ele conta, ajudou a descobrir e divulgar.

Foi numa destas andanças que ele acompanhou, ou testemunhou, o nascimento desta, que ainda é uma das músicas mais executadas do cancioneiro popular gaúcho e um símbolo que levou o nome do Rio Grande do Sul pelo mundo.

Paixão Cortes era especialista em lãs, e conta que na década de 50 fazia uma exposição na cidade de Julio de Castilhos, onde está localizada a Cooperativa Regional Castilhense de Carnes, ou simplesmente, Frigorifico Castilhense, que  abrigou a exposição que reunia criadores e interessados na comercialização do produto e de olho no mercado.

Lá, por esses dias, conta ele, apareceu o Paulo Ruschel, artista plástico que também era compositor e violonista. Ficou impressionado com uma cena: homens a cavalo vestindo capas pretas empurrando o gado rumo ao matadouro. “Era frio e como proteção, vestiam as pesadas capas de lã que cobriam o corpo”, descreve. A capa cobre o cavaleiro e se estende até a anca do cavalo.

– O corredor de acesso à cooperativa é amplo e de encher o peito – observa Paixão, que nesta época, apresentava o programa Grande Rodeio Coringa que ia ao ar pelas ondas da Rádio Farroupilha de Porto Alegre.

Conta que dias depois da exposição em Júlio de Castilhos, o Ruschel “apareceu na minha casa, na Rua Sarmento Leite, 101”, ficava próximo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Com um violão, lá estava para mostrar a composição, que levava o nome de “Charqueadas” e não “Homens de Preto”, como depois ficou conhecida, por conta do refrão.

A música foi apresentada, pela primeira vez, no Grande Rodeio Coringa em 1º de Maio de 1955 e nasceu fazendo sucesso. O estilo logo encantou o público, pela tal dimensão diferenciada da letra, da música e da interpretação do grupo Os Gaudérios que tinha como integrantes o Neneco, o Carlos Medina, o Marques Filho e o poeta e letrista Glauco Saraiva.

A escolha dos Gaudérios para interpretar a música foi uma opção do Paixão.

– Era preciso colocar mais de duas vozes para dar uma identidade a letra – lembra.

Reconhece que foi a partir daí que as músicas solo e em dupla começaram a receber mais um ingrediente. A multivocalidade foi consagrada mais tarde pelo Conjunto Farroupilha que carimbou o passaporte dos “Homens de Preto” pelo mundo, levado pelas asas da Varig. Que o digam os cabarés de Paris.

Elis Regina também gravou.

A dama da noite

 

Mariozinho e Antonieta se encontraram na Procissão de Navegantes.

Ele a procura de um cacho, ela para agradecer o fim de um relacionamento,

Antonieta ficou finalmente livre depois de um relacionamento conturbado que durou três anos, nenhum filho, muita pancadaria e três abortos. Era amiga de Osmilda, amiga de infância e confidente a quem recorria a cada desavença para curar feridas.

A união teve um fim tráfico, Antenor acabou morto depois de uma briga na saída de uma boate na zona sul. A dama do covil, motivo da desavença, juntou seus pertences e desapareceu naquela madrugada sem esclarecer os motivos da peleia e foi procurar uma velha amiga para se refugiar. O assassino detonou, nas partes alta e baixa de Anteor, duas das quatro balas que tinha no tambor.

– Este não volta mais, lembrava Osmilda enquanto rezava um Pai Nosso e uma Ave Maria pela alma do ex, isso mesmo, ela era casada com o Antenor antes dele conhecer Antonieta que morava no interior e um dia veio visitá-los.

Na verdade, com a separação, tinha ficado livre do marido violento, mas em consideração ou pena da amiga continuou de guarda para eventuais problemas, como forma de agradecimento por tê-la livrado daquele inferno.

Antonieta no entanto passou pelos mesmos problemas, sofreu as mesmas agressões e conseqüências, mas continuava firme na esperança de que um dia as coisas iriam melhorar.

Nunca foi à delegacia da mulher para denunciar o marido, nem mesmo participava de passeatas feministas contra a violência. Era mais um caso que não aparecia nas estatísticas.

Ele costumava dizer: – Você não vive sem mim.

Ela não respondia, mas pensava: – É o que mais quero.

Descalços e cansados da caminhada depois de cumprirem o trajeto seguindo o andor, finalmente os dois entraram num bar para uma conversa e agradecerem as graças alcançadas. Sim, porque o coração de Antonieta foi arrebatado por Mariozinho durante a procissão, nem houve tempo para reação. O disparo do cupido deu foi certeiro e fulminante.

Mariozinho que procurava o remédio para a sua solidão nos inferninhos da periferia foi encontrar a cura aos pés da santa.

Logo jurava amor eterno ameaçando quem se atrevesse a fazer algum mal à Antonieta, assegurando que ainda restam duas balas no revólver para o engraçadinho…

… e como diria o locutor do rádio: A musica para abrilhantar a história é Boate Azul