De onde vem “Os Homens de Preto?”

Bastou uma nesga de conversa, em janeiro deste ano, com o Paixão Cortes, para descobrir uma história interessante. Entre um cavaco de assunto e outro, surgiu uma discussão sobre a evolução musical no Rio Grande do Sul e dos seus compositores, entre eles, o Paulo Ruschel, autor de um clássico do folclore rio-grandense. Aquele que fala dos “homens de preto trazendo a boiada, vem vindo cantando dando gargalhada”, e que sem alternativa “o bicho coitado (…) só vem pela estrada, direto à charqueada…”

Foi aí que lasquei:

– Como surgiu esta música?

Beirando os 90 anos de idade, com uma lucidez invejável, o Paixão é uma referência na pesquisa folclórica do Rio Grande do Sul. Pelas mãos dele passou parte do repertório musical dos pampas.

A profissão de engenheiro agrônomo da Secretaria da Agricultura do Estado nunca foi um empecilho para sua atividade cultural, aliás, pelo o que ele conta, ajudou a descobrir e divulgar.

Foi numa destas andanças que ele acompanhou, ou testemunhou, o nascimento desta, que ainda é uma das músicas mais executadas do cancioneiro popular gaúcho e um símbolo que levou o nome do Rio Grande do Sul pelo mundo.

Paixão Cortes era especialista em lãs, e conta que na década de 50 fazia uma exposição na cidade de Julio de Castilhos, onde está localizada a Cooperativa Regional Castilhense de Carnes, ou simplesmente, Frigorifico Castilhense, que  abrigou a exposição que reunia criadores e interessados na comercialização do produto e de olho no mercado.

Lá, por esses dias, conta ele, apareceu o Paulo Ruschel, artista plástico que também era compositor e violonista. Ficou impressionado com uma cena: homens a cavalo vestindo capas pretas empurrando o gado rumo ao matadouro. “Era frio e como proteção, vestiam as pesadas capas de lã que cobriam o corpo”, descreve. A capa cobre o cavaleiro e se estende até a anca do cavalo.

– O corredor de acesso à cooperativa é amplo e de encher o peito – observa Paixão, que nesta época, apresentava o programa Grande Rodeio Coringa que ia ao ar pelas ondas da Rádio Farroupilha de Porto Alegre.

Conta que dias depois da exposição em Júlio de Castilhos, o Ruschel “apareceu na minha casa, na Rua Sarmento Leite, 101”, ficava próximo da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Com um violão, lá estava para mostrar a composição, que levava o nome de “Charqueadas” e não “Homens de Preto”, como depois ficou conhecida, por conta do refrão.

A música foi apresentada, pela primeira vez, no Grande Rodeio Coringa em 1º de Maio de 1955 e nasceu fazendo sucesso. O estilo logo encantou o público, pela tal dimensão diferenciada da letra, da música e da interpretação do grupo Os Gaudérios que tinha como integrantes o Neneco, o Carlos Medina, o Marques Filho e o poeta e letrista Glauco Saraiva.

A escolha dos Gaudérios para interpretar a música foi uma opção do Paixão.

– Era preciso colocar mais de duas vozes para dar uma identidade a letra – lembra.

Reconhece que foi a partir daí que as músicas solo e em dupla começaram a receber mais um ingrediente. A multivocalidade foi consagrada mais tarde pelo Conjunto Farroupilha que carimbou o passaporte dos “Homens de Preto” pelo mundo, levado pelas asas da Varig. Que o digam os cabarés de Paris.

Elis Regina também gravou.