Um milagre no Pinheiro Torto

Quem chega a Passo Fundo vindo de Porto Alegre pela 153, necessariamente atravessa a ponte do Rio Pinheiro Torto. Nem faço ideia sobre a origem do nome de tal afluente, mas penso que tenha relação com algum acidente da natureza, seja com a árvore que empresta o nome ou com o percurso do rio. Enfim, este é um assunto para o Paulo Monteiro, historiador e poeta, pesquisador sobre a origem da cidade.

Pois foi justamente na companhia do Paulo e mais uns amigos do Grupo Literário Nova Geração que lá por 1975, ou seis, organizamos uma pescaria “litero cultural” no Pinheiro Torto. Havia uma regra bem definida de que – da água retiraríamos o peixe e da natureza nossa inspiração para a poesia.

Saímos no sábado levando anzóis, caniços e uma rede de espera. Sofremos implacáveis ataques, sem trégua, de numerosos enxames de mosquitos que tentavam matar a fome com o nosso sangue e nada de peixe para matar a nossa fome. O trato era de que sobreviveríamos da pesca abundante, frutos do rio, assados na grimpa e nos gravetos.

No domingo, logo depois do meio dia recolhemos a rede de pesca e nela, grudadas, duas pequenas criaturas pré-históricas, barbatanas espinhentas e boca de piranha. Já tinham feito um estrago nas malhas de nylon. Não acumulavam sequer um grama de carne que pudesse ser aproveitada.

“O diabo vem em forma de alimento que não mata a fome na mata” profetizou alguém de cima de uma grande pedra, no único momento litero-artistico da pescaria, sim, porque  no restante do tempo procurávamos o que comer e a natureza tava que era uma dureza naquele final de semana.

Eis que, observando aquela situação pré-desesperadora e para evitar algum ato de atropofagia, um dos membros da caravana abre a mochila e saca de dentro dela três latas de sardinhas levando ao delírio os aventureiros famintos. Foi uma espécie de milagre embutido da multiplicação. Gritos de alívio e abraços fraternos como quem vence uma batalha. Só havia um problema, aquela rica inteligência esqueceu de levar um abridor de lata. Quase foi linchado, sim porque na hora do desespero o amigo pode virar inimigo, até comida, num piscar de olhos. A única ferramenta disponível era um facão sem ponta e com pouco fio, talvez uma sobra da guerra dos porongos, que só serviu para aumentar a ira da cáfila que salivava tal cão raivoso. As latas foram esfregadas sobre as pedras até gastarem as tampas.

Perdemos o molho, mas ganhamos uma bela lição: Quando o peixe não vem pelo rio, serve enlatado. A vantagem é que as latas de hoje dispensam o abridor.

Lava jato para lavar a lama

As grandes cidades, tem seus profetas e viadutos. Porto Alegre não deixa de ter os seus. Profeta é professor que professa, disso todos sabem, o que não é comum, até agora, é um professor intimamente ligado aos acontecimentos do cotidiano com a visão das ruas.

Hoje temos o profeta online, que faz do passeio público o seu espaço e transforma as esquinas em salas de aula com capacidade para interpretar a situação da política, do comportamento social e ambiental do planeta.

Pois o profeta que veio da periferia para se instalar no coração da cidade, não usa meio termo para se comunicar. Faz do Jornal Boca de Rua a sua voz e contesta o sistema econômico mundial, porque vê no capitalismo uma forma de oprimir os povos, escravizar nações pobres para favorecer as grandes potências. E isso também é feito por meio da escolarização.

Assim, o professor e profeta que interpreta o mundo como alguém que frequenta espaços não escolares, vira poeta e sai rimando versos. Do alto do viaduto resume com perfeição duas situações do conturbado momento nacional:

“Pois deveriam fazer mais

Usar a Lava Jato

Para remover esta lama

Que vem de Minas Gerais”

 

 

O pescador artesanal e a burocracia oficial

 

No litoral de Santa Catarina descubro que o Ministério Público, certamente provocado pela Vigilância Sanitária quer, em 2016, proibir a venda de pescados para os bares e restaurantes, o que normalmente é feito na beira da praia, acabar com o livre comércio assim que os barcos retornarem do mar com a feira do dia.

Os pescadores que madrugam para buscar o peixe de cada dia, faça chuva, frio ou ventania, não podem mais barganhar os preços com os clientes e entregar linguado, anchova, tainha, corvina, viola, pescadinha, arraias, calamares, polvos, ostras, mariscos e camarões que abastecem o comércio. O medo dos pescadores no entanto é que a onda pegue também os moradores e turistas que levam para suas casas, na quantidade exata, em sacolinhas plásticas com a marca estampada do mercadinho da vila.

Sem entrar no mérito da ação da promotoria fico aqui pensando que a história e a tradição passada de geração para geração se vê em apuros com uma simples proibição que qualquer leigo sabe a que vem. Afinal é mais fácil arrancar tributos que quem tem apenas a força do braço para trabalhar.

Comprar peixe fresco na areia da praia é um costume que vem de barcos desde que se conhece o remo. Tema de musicas, livros, poemas onde o “vender o peixe” tornou-se um adágio, um ditado popular tão próximo, que não pode ser arrancado assim como se destrincha a um pescado. Os negros escravos, os índios, os portugueses que colonizaram esta costa rica e bela do país criaram seus filhos, formaram suas vilas e cidades rasgando ondas com a quilha das canoas para garantir o sustento do povo e desenvolver da economia do lugar.

Obrigar o pescador a virar negociante com papel de alvará, obrigações com o erário público que não lhe dá o mínimo de dignidade nem a tábua para limpar peixe e cobra tributos, fazer com que todo o lanço seja submetido à inspeção sanitária e exercer um controle ao qual o pescador não está acostumado é acabar com uma liberdade histórica dos costumes e da cultura de pesca e de renda na beira da praia.

Se tal ação é indispensável, que forme então esta mentalidade nas novas gerações e deixe que estes que estão aí continuem a vida que sempre tiveram vendendo seu peixe como sempre,m garantindo uma farta variedade de frutos do mar, de venda picada, no varejo, espantando as varejeiras, para garantir nossas paellas, sequências, moquecas, peixadas fritas e ensopadas e a misturadas com tudo um pouco nas caldeiradas. Por enquanto as normas vão valer para os pescadores da Costa Leste na ilha de Florianópolis, mas vai que se espalhem litoral afora.

Antes que isso ocorra estamos aqui, solidários, defendendo o nosso entreposto pelo fim das manobras, e para que o peixe que cair na rede só enfrente as marolas para chegar mais rápido à nossa mesa.

Enfim,

Oremos pelas boas intenções

Pelo incentivo à pesca artesanal

E pelo fim das sanções

Que só favorecem o atravessador parasitário

Que faz de hospedeiro o homem do mar

Amém!