Lava jato para lavar a lama

As grandes cidades, tem seus profetas e viadutos. Porto Alegre não deixa de ter os seus. Profeta é professor que professa, disso todos sabem, o que não é comum, até agora, é um professor intimamente ligado aos acontecimentos do cotidiano com a visão das ruas.

Hoje temos o profeta online, que faz do passeio público o seu espaço e transforma as esquinas em salas de aula com capacidade para interpretar a situação da política, do comportamento social e ambiental do planeta.

Pois o profeta que veio da periferia para se instalar no coração da cidade, não usa meio termo para se comunicar. Faz do Jornal Boca de Rua a sua voz e contesta o sistema econômico mundial, porque vê no capitalismo uma forma de oprimir os povos, escravizar nações pobres para favorecer as grandes potências. E isso também é feito por meio da escolarização.

Assim, o professor e profeta que interpreta o mundo como alguém que frequenta espaços não escolares, vira poeta e sai rimando versos. Do alto do viaduto resume com perfeição duas situações do conturbado momento nacional:

“Pois deveriam fazer mais

Usar a Lava Jato

Para remover esta lama

Que vem de Minas Gerais”

 

 

O pescador artesanal e a burocracia oficial

 

No litoral de Santa Catarina descubro que o Ministério Público, certamente provocado pela Vigilância Sanitária quer, em 2016, proibir a venda de pescados para os bares e restaurantes, o que normalmente é feito na beira da praia, acabar com o livre comércio assim que os barcos retornarem do mar com a feira do dia.

Os pescadores que madrugam para buscar o peixe de cada dia, faça chuva, frio ou ventania, não podem mais barganhar os preços com os clientes e entregar linguado, anchova, tainha, corvina, viola, pescadinha, arraias, calamares, polvos, ostras, mariscos e camarões que abastecem o comércio. O medo dos pescadores no entanto é que a onda pegue também os moradores e turistas que levam para suas casas, na quantidade exata, em sacolinhas plásticas com a marca estampada do mercadinho da vila.

Sem entrar no mérito da ação da promotoria fico aqui pensando que a história e a tradição passada de geração para geração se vê em apuros com uma simples proibição que qualquer leigo sabe a que vem. Afinal é mais fácil arrancar tributos que quem tem apenas a força do braço para trabalhar.

Comprar peixe fresco na areia da praia é um costume que vem de barcos desde que se conhece o remo. Tema de musicas, livros, poemas onde o “vender o peixe” tornou-se um adágio, um ditado popular tão próximo, que não pode ser arrancado assim como se destrincha a um pescado. Os negros escravos, os índios, os portugueses que colonizaram esta costa rica e bela do país criaram seus filhos, formaram suas vilas e cidades rasgando ondas com a quilha das canoas para garantir o sustento do povo e desenvolver da economia do lugar.

Obrigar o pescador a virar negociante com papel de alvará, obrigações com o erário público que não lhe dá o mínimo de dignidade nem a tábua para limpar peixe e cobra tributos, fazer com que todo o lanço seja submetido à inspeção sanitária e exercer um controle ao qual o pescador não está acostumado é acabar com uma liberdade histórica dos costumes e da cultura de pesca e de renda na beira da praia.

Se tal ação é indispensável, que forme então esta mentalidade nas novas gerações e deixe que estes que estão aí continuem a vida que sempre tiveram vendendo seu peixe como sempre,m garantindo uma farta variedade de frutos do mar, de venda picada, no varejo, espantando as varejeiras, para garantir nossas paellas, sequências, moquecas, peixadas fritas e ensopadas e a misturadas com tudo um pouco nas caldeiradas. Por enquanto as normas vão valer para os pescadores da Costa Leste na ilha de Florianópolis, mas vai que se espalhem litoral afora.

Antes que isso ocorra estamos aqui, solidários, defendendo o nosso entreposto pelo fim das manobras, e para que o peixe que cair na rede só enfrente as marolas para chegar mais rápido à nossa mesa.

Enfim,

Oremos pelas boas intenções

Pelo incentivo à pesca artesanal

E pelo fim das sanções

Que só favorecem o atravessador parasitário

Que faz de hospedeiro o homem do mar

Amém!