O teatro das sombras

A sombra que faz sombra e assombra

Pode ser boa quando te protege do sol

Pode ser ruim quando te assombra

A sombra cai na água em não molha

Cai no fogo e não queima

A chuva cai quando tem sombra

E pode tornar a noite assombrosa

Os raios produzem sombras

A luz da varanda reproduz a sombra da goteira

A sombra ninguém alcança

Uiva efêmera nas masmorras dos castelos

De almas atemporais alucinadas

Não tem sombra na sala de cinema

Mas pode representar no teatro

Assombra gabinetes e plenários

O Planalto, o Piratini e o Paço

Assombra castelos e palácios

Como se o mal dominasse o bem.

E num passe de mágica

Na mistica ilusão do baralho

Num estalar dos dedos

Abracadabra e o castelo desaba.

É à sombra que se esconde e descansa a transparência, a luz da verdade, a verdade das coisas e as coisas que não se quer mostrar. As sombras impedem piquetes de avançar e é na calada da noite que a sombra mostra a sua face mais aterrorizante, travessa e cruel. Ao mesmo tempo mais doce, encantadora, inocente, convincente, cobiçável, como se fosse feita de mel.

Rap da PEC e das ocupações

 

                 RAP DA PEC

Nós não queremos – a PEC opressora

Que exclui o aluno – e a professora

 

Escolas de arte – e de filosofia

Escola de música – e de sociologia

Escola do campo – escola da terra

Escola urbana – e da periferia

 

Resistiremos – não vem, não insiste

Não recuaremos – a luta persiste

É nosso direito – a lei nos permite

 

Não privatize – a educação

Nós não queremos – as tuas lições

Nem tua presença – nas ocupações

 

 

Os servidores gauchos e a caça ao pokémon dos salários

O servidor público do estado do Rio Grande do Sul anda azarado no jogo. O aplicativo não serve para encontrar, por exemplo, o pokémon da integralidade salarial. Procuram entre arbustos, bosques e galhos e só encontram o Go em frangalhos.

Noutro dia foram procurar na Secretaria da Fazenda e, sem pista, rolaram escada abaixo, sobrou até pra jornalista.

Só o pokémon do salário parcelado é que tem sido encontrado, mas ele mal chega e sai e é facilmente encontrado na farmácia, no açougue, no supermercado.

Pelo quinto mês consecutivo o governo gaúcho parcela o pagamento dos salários dos servidores (em março foi pago em 9 vezes). O gerente da Loja Piratini, que já foi garoto propaganda da Tumelero, opta pelo pagamento em suaves prestações.

Promoção especial: É pegar ou largar!

A gente brinca, mas a situação é séria.

A pergunta micuim: Porque uns governadores pagaram em dia e outros não?

Vai ser preciso abrir a caixa preta dos cofres públicos pra ver a cor do dinheiro?

Enfim, este pokémon não é nenhum guri arteiro pregando peça no bolso alheio. Ele não descobre onde está o dinheiro. Ai que dor, pokémon assim não serve pro servidor.

Ah, primeiramente, fora com esta conversa de que não há dinheiro, a história é repetitiva e todos sabem onde querem chegar.

 

Diploma pra quê?

 

Afirmando que os estudantes não são clientes que vêm comprar certificados e criticando o modelo universitário com seus conteúdos voltados à formação de mão de obra para o mercado de trabalho, o filósofo italiano, Nuccio Ordine, abriu a Aula Magna do semestre da Universidade Federal do Rio Grande do Sul para um Salão de Atos lotado de professores e alunos. “Se você perguntar aos calouros – por que estão na Universidade? – a resposta geral sempre é para conseguir um diploma.

Não poderia ser diferente quando temos um mercado consumista, voltado para a concorrência e a vocação para espremer o empregado até a última gota de maneira que ele não pense e assim obedeça e não reclame, é obrigado a reduzir a convivência social ou familiar ao máximo para que durma cedo, madrugue e produza mais.

A escola e a universidade deveriam ser uma  busca pelo melhor, para ser livre. O saber ensina a criticar, para que se pense com autonomia. Mas, o contexto social hoje tem uma lógica utilitarista, com imposição de ganho que proíbe e impede a paixão em nome do prazer desinteressado e gratuito. Vivemos num contexto político dominado pela ditadura da maximização do lucro. Temos dificuldade em responder nossos próprios questionamentos. A máquina que deveria disponibilizar espaços para que a humanidade tivesse tempo para viver e raciocinar sobre o significado das coisas acaba alienando e escravizando. O vocabulário, o poder de identificar o certo do errado, de separar o bem do mal, de ouvir e de pensar vão se distanciando a partir da intolerância, da falta de transparência, da imposição de idéias e palavras, da analise unilateral das coisas, de se achar a única pessoa que pensa corretamente no universo ao ponto de se considerar um Deus e sair pregando o evangelho, abrindo templos e recolhendo as riquezas que tanto condena e espalhando o medo do apocalipse.

Voltamos então a esta ganância de querer mais e comprar sua liberdade. Nuccio lembra que no universo do utilitarismo uma faca é melhor que uma poesia, porque o instrumento é material. O pensador John Lock já definia que “Ler e escrever versos impede de ganhar dinheiro e coloca em risco o patrimônio familiar”. Portanto, pouco se valoriza o bem cultural, muito embora Grécia e Itália souberam ganhar dinheiro com seus patrimônios da humanidade, distribuídos ao ar livre pelos dois países. Outros continentes preferem destruir a história em nome de um progresso limitado, na maioria das vezes assassino e avassalador.

Assim é na educação, as universidades e escolas estão transformadas em empresas, onde o crédito e o débito são as principais palavras e a única ideia que vendem é a do diploma que mais tarde vai amarelar numa parede a espera de um reconhecimento.

Enfim, não sabemos dar importância aos saberes inúteis que deveriam nutrir o espírito. Não temos consciência sobre as coisas que nos fazem sobreviver. Ao citar uma anedota de Wallace, Nuccio resume esta falta de consciência das coisas que nos cercam: “Dois jovens peixes nadando, encontram um peixe ancião em direção oposta, que abana pros jovens e pergunta – como está a água? Os jovens se olham e se questionam – água? O que é isto?”.

Não se pode distinguir o que nos cerca porque não somos educados para entender, mas para obedecer e ter um diploma na parede que também não se sabe pra quê.

Lava jato para lavar a lama

As grandes cidades, tem seus profetas e viadutos. Porto Alegre não deixa de ter os seus. Profeta é professor que professa, disso todos sabem, o que não é comum, até agora, é um professor intimamente ligado aos acontecimentos do cotidiano com a visão das ruas.

Hoje temos o profeta online, que faz do passeio público o seu espaço e transforma as esquinas em salas de aula com capacidade para interpretar a situação da política, do comportamento social e ambiental do planeta.

Pois o profeta que veio da periferia para se instalar no coração da cidade, não usa meio termo para se comunicar. Faz do Jornal Boca de Rua a sua voz e contesta o sistema econômico mundial, porque vê no capitalismo uma forma de oprimir os povos, escravizar nações pobres para favorecer as grandes potências. E isso também é feito por meio da escolarização.

Assim, o professor e profeta que interpreta o mundo como alguém que frequenta espaços não escolares, vira poeta e sai rimando versos. Do alto do viaduto resume com perfeição duas situações do conturbado momento nacional:

“Pois deveriam fazer mais

Usar a Lava Jato

Para remover esta lama

Que vem de Minas Gerais”

 

 

Poema das hortaliças

A couve com seu coque tem um sonho: ser famosa, desfilar na passarela de canteiros e chegar na Broadway. Como no Rio Grande do Sul chove sem parar, não conseguia manter a cabeleira no lugar. Resolveu se transferir para Minas Gerais e foi morar em Mariana mas teve um baita azar. Fugiu da chuva – caiu na lama.

POEMA DAS HORTALIÇAS

Q-Q houve dona couve?
Perguntou a cebola
Na horta da dona Ana

Aqui tem muita chuva
Granizo, vento, ciclone
Jamais serei uma dama

Vou-me embora de Santana
Com destino a Mariana
Já comprei minha passagem
E parto em busca da fama

Q-Q houve dona couve?
Perguntou outra cebola
Na horta da outra dona
Logo abaixo da barragem

Cometi uma bobagem
Fui usar da malandragem
Cheguei faz uma semana
E já estou coberta de lama