Azarildo não decla a previdência no Imposto de renda

 

Azarildo bem poderia ser irmão, primo ou um parente qualquer do Sofrenildo, personagem criado pelo cartunista Sampaulo.

Véspera da data limite para declaração do Imposto de Renda, não conseguiu acessar o comprovante de aposentadoria da Previdência Social. Aparecia no alto da tela uma mensagem que dizia: “Beneficio inconsistente ou não possui crédito no ano calendário informado”.

Foi ao posto do INSS localizado na Travessa Mário Cinco Paus, no Centro de Porto Alegre, entrou na fila e na sua vez, solicitou a atendente uma cópia para que pudesse abreviar seu calvário.

Já de saída, ao explicar o que estava ocorrendo foi bruscamente interrompido:

– Documento

Depois de teclar e perguntar pelo menos umas três vezes o nome da mãe a atendente disse que estava tudo normal.

– Os dados estão corretos

– Tudo bem, respondeu Azarildo, mas aparece este recado aqui, no alto da tela, fiz uma cópia aqui no celular…

A atendente não quis nem olhar e já foi dispensando o pobre coitado.

– A senhora poderia, ao menos, me fornecer uma cópia, para o caso de eu não conseguir acessar em casa?

A resposta foi um NÃO seco.

– Procure entender, amanhã tem greve geral e vocês vão parar

– Com certeza

– E se eu não conseguir acessar e continuar aparecendo este recado…

– O senhor vai conseguir sim

– E se não der?

– Vai dar

– Mas uma cópia, a impressora está atrás de você…

– Eu não acessei o seu extrato, só conferi os dados

– Mas os dados sempre estiveram certos nunca deu problema, o problema é…

Ela interrompe bruscamente e vira-se para a colega ao lado

– Ele quer uma cópia

– Não dá, respondeu a colega.

Nunca se soube direito, no entanto, se este NÃO DÁ é o verbo dar ou se não daria mesmo para imprimir por questões operacionais.

A indagação ficou no ar.

Retornou para casa, acessou a página e lá estava o mesmo recado de sempre

Não conseguiu declarar a previdência no Imposto de Renda.

O que ficou claro para o pobre Azarildo ao sair da agencia, foi a certeza de que a reforma da previdência não deve ser das aposentadorias, mas dos seus servidores.

Na semana seguinte foi ao posto do Partenon e conseguiu na hora a cópia que tanto precisava.

Desta vez teve a convicção de que nem todos os servidores precisam de reforma.

Acareação

– Mãe, você bateu panela contra a Dilma, não foi?
– Sim, por que?
– E disse que não votou no Temer
– Sim, quem votou na Dilma, votou no Temer
– E você postou que o Temer não era o que você esperava
– Bem, não foi o que a gente pensava que seria
– Então quem bateu panela apoiou o Temer
– Não apoiamos ninguém, ninguém
– Mas se vocês tiraram a Dilma, sabiam do Temer
– Não sabíamos, não dava na TV, no trabalho, as amigas, só falavam mal da Dilma
– Mas a TV continua não dando nada do Temer e você disse que não gosta dele.
– É que eu quero continuar no meu emprego de carteira assinada e benefícios trabalhistas, quero ser respeitada como mulher e quero me aposentar em vida
A mãe pegou uma panela para fazer o jantar e o filho alcançou uma colher grande ordenando: – Bate mãe, bate!

“O gênio do fascismo saiu da garrafa e agora não conseguem colocá-lo de volta”

É lúcida esta definição do governador do Maranhão, Flávio Dino, fazendo ponderações da classe política e social brasileira no momento em que se vive uma turbulência indefinida sobre os rumos da Nação. Se chegou onde se chegou por conta de uma total falta de coerência ao discurso e obediência à cartilha política redigida pelas bases. Se ela fosse respeitada não chegaríamos a tanto. Tenho certeza que a grande maioria entende que quando se ocupa uma nova casa, uma nova proposta e um novo modelo devem ser implantados. Troca-se móveis, pintura, espelhos, até a casa do cachorro muda de lugar. Os antigos ocupantes devem levar toda mobília e um bruxo ser chamado para eliminar todos os males e seus fantasmas.

Se isso não for feito, o espírito continuará assombrando e agindo na calada da noite, com os antigos moradores, em pele de cordeiro, dando as cartas, como velhas raposas que conhecem bem o território e cada divisão das paredes, do pátio, bem como os caminhos das tubulações obscuras por onde evade a cacaca de quem se alimenta à mesa da rapinagem e faz o mau uso da coisa pública.

O certo é que os antigos donos nunca deixaram a casa, continuaram dando as cartas na jogatina das madrugadas, com o aval dos novos proprietários que, atraídos pela funcionalidade do novo lar, esqueceram-se da lição de casa e passaram a compartilhar das mesmas regras, do mesmo jogo.

Um dia uma criança curiosa sobre no sótão e encontra uma garrafa estranha, tenta limpá-la esfregando o pó com as mãos e dela surge uma nuvem de fumaça trazendo dentro dela um gênio, genioso, que sai aprontando por aí. O problema vai ser colocá-lo de volta, se a casa do gênio não for encontrada. O menino pode ter quebrado a garrafa.

 

Senhores azuis, por onde andam?

Na manhã de sábado, Avenida Azenha trancada porque um destes caminhões de concreto bloqueava uma pista inteira, dentro um cercado de cones. Ouvi um dos operadores do caminhão responder a uma senhora que lá, ele se encarregavam em sinalizar a pista:
– Assim sobra tempo pros azuizinhos se preocuparem com a cidade, justificou o camarada.
Ao chegar na Redenção, que aos sábados reúne boa parte da cidade que visita as feiras e o parque, novamente uma tranqueira. Desta vez eram dois carros, no estacionamento duplo ocupando cada lado da pista. Os outros veículos precisavam fazer um zig-zag para passar. Lá não tinha Azulzinho  para comandar o transito e sim um flanelinha.
No centro encontrei, por acaso, um lugar para estacionar perto do Mercado Público. Mal desci do carro e lá estava outro flanelinha, que não vi de onde tinha saído que já foi me avisando.
– Deixa cinquinho pro carro ficar bem cuidado.
Neste trajeto todo o que eu não vi foram os tais azuizinhos cuidando da cidade, porque os flanelinhas e o operador da Concremix, comandando o trânsito e fazendo o patrulhamento e sinalização das ruas, eu já conheço. 

Só uma perguntinha ao Jucá: Se não tem pecado por que o perdão?

A tentativa do senador Romero Jucá do PMDB de Roraima, de conceder aos presidentes da Câmara, do Senado e do Supremo Tribunal Federal – STF a mesma prerrogativa do presidente da República de não serem processados por atos estranhos ao exercício do mandato, foi uma confissão aberta de que suas excelências cometem atos estranhos e de que o poder está minado de gente deste tipo. Verdadeiros picaretas que se especializam desviar e vender de tudo o que conseguem surrupiar da pátria mãe corrompendo políticos, empresários, grandes industrias daqui e de fora, gente famosa das colunas sociais que se deixam corromper, até com a mãe do Badanha, com todo o respeito ao centromédio gremista dos anos 40 e sua progenitora.

Jucá ao tentar passar no Senado, nesta semana, a Proposta de Emenda Constitucional – PEC, que livra da punição a bandidagem que exerce os maiores cargos no poder, dispara o alerta, até mesmo dos mais céticos e doentios defensores desta canalhice toda, de que tem alguma coisa por de trás da cortina e que o espetáculo não tem nada a ver com o roteiro anunciado. Afinal por que motivo se protegeria alguém tão sério, correto, belo e recatado?

O Jucá, diga-se de passagem, transita livremente no poder muito embora, para o grande público, ele tenha se afastado depois que a Polícia Federal interceptou ligações do então ministro do Planejamento, cargo que ele exercia no governo Temer, admitindo esquema de corrupção no atual governo e falando em mudanças para estancar as investigações da operação Lava Jato.

Aliás, o grampo encontra-se na Suprema Corte aos cuidados do ex-ministro Teori Zavascki morto recentemente num misterioso acidente de avião no litoral fluminense.

Então Jucá, o que te levou a adotar medidas para proteger os santos do poder?
Se não tem pecado, por que o perdão?

A melancólica pauta positiva da mídia

Confesso que pouco assisto noticiários de TV, mas quando resolvo ver, lá está o Temer, vendendo ilusões de um país perfeito. O espaço que a mídia tem reservado à pauta positiva para divulgar as falácias palacianas é de uma total melacolia, pra não dizer mediocre.

Ou alguém acredita que o Michel vai mesmo dispensar seus ministros citados na Lava Jato, ou se ele próprio vai se autoafastar quando for notificado?

Porque então blindou o Moreira Franco sabendo que ele foi citado dezena de vezes nas chamadas delações premiadas?

Vai largar de mão o Padilha, seu abre alas? Ou o Jucá e o Gedel que saíram sem arredar pé do poder e continuam influenciando os blocos da concentração à dispersão.

O Alexandre Moraes que vai comandar o Supremo para desligar a Lava Jato e livrar o poder do banho de lama maior que o da Samarco em Mariana.

Alguém duvida que muito em breve o Temer será oficializado âncora dos telejornais?

Eu não duvido mais nada.

O segundo golpe está em marcha, agora com a anuência e o domínio total da mídia. Sugerimos que a tela da TV seja em forma de xadrez.

Caviar e torresmo só para os ricos

Alguém sabe explicar por que o torresmo é tão caro?

Me espantei ao ver uma placa num armazém de beira de estrada na região de Vila Maria, anunciando o preço do torresmo. Não acreditei e perguntei ao bodegueiro se aquele valor era real.

– Aqui ainda é cinquenta, mas tem lugar que chega a setenta reais o quilo.

– Caramba, e por quê?

– É o preço.

Fiquei então imaginando que a tal iguaria que sempre faz parte das rodas de samba e pagode e é cantada por músicos e compositores, deve ter passado de um nível de mesa de bar para os restaurantes de luxo ao lado do caviar por exemplo. O garçom anuncia:

– Pra entrada temos as opções de caviar Au Blinis ou torresmo Au Chef Zé Silva. O primeiro é light o segundo nem tanto.

No cardápio aparecem os preços e os acompanhamentos, o caviar é servido com vodca, o torresmo com uma purinha de alambique, o preço é o mesmo.

Há quem diga que o Eike já estava de olho neste novo eldorado, deixando de lado suas minas de ouro para se dedicar a compra e venda de torresmo, um mercado bem mais lucrativo, explorando o porco na origem. Ainda na maternidade o porquinho receberia um brinco de qualidade que o acompanharia do chiqueiro aos embutidos.

Enfim, o torresmo receberia uma avaliação da ANVISA revelando que ele não é prejudicial à saúde como andam falando, que pode fazer parte de uma dieta equilibrada na feijoada e que deve ser consumido com moderação.

O torresmo deixaria de ser o vilão dos gordinhos e se tornaria um complemento rico em proteína com valores diários que não afetam o colesterol.

Surgiria a dieta do torresmo que o Eike exigiria no seu cardápio em Bangu, para repor as calorias desperdiçadas entre uma delação e outra.

O torresmo poderia se tornar sim um vilão da inflação chegado ao ponto de derrubar o Temer e acabaria se transformando em herói nacional. Desbancaria o Renan, o Jucá e o Padilha num piscar de olhos. O Meireles renunciaria e o STF aceitaria a denuncia de golpe do torresmo sem segredo de justiça, mesmo que não houvesse uma explicação clara que incriminasse a supervalorização deste derivado do porco. Enfim, iria direto pra banha.

Retomei a estrada tentando compreender o papel que o torresmo deixa de exercer na vida das pessoas, mas só pude concluir que é mais um alimento que some da mesa do pobre.

Foi aí que entendi uma piada que rola nas redes sociais onde uma mulher pede para que não mandem para ela mensagens de datas especiais como o dia do amigo e termina dizendo:

– Mandem torresmo.

 

O professor e o jornalista

São bem próximas as funções de professor e de jornalista. As duas cumprem suas pautas do dia em lugares distintos, mas com a mesma finalidade, a de transmitir informação e conhecimento. Um professor traça o seu plano de aula na expectativa de repassar, de forma clara, o que tem no conteúdo. Para um jornalista não é diferente, sai da redação no foco de colher as informações necessárias para “fechar a matéria” e repassar em forma de notícia ao leitor, ao ouvinte ou telespectador.

Os dois carregam na consciência suas dúvidas, sabendo que, dependendo da situação, devem inverter a pauta, buscar outros meios de trabalhar o assunto e dispor da criatividade, o suficiente para construir uma boa aula ou uma boa notícia. É preciso muitas vezes recorrer ao improviso, ao acaso, desconstruindo o planejado, sabendo interpretar o que o momento exige.

Se os alunos tiverem outra interpretação do que estiver no “script-pedagógico”, um professor não pode, de forma alguma, traçar um “quadro negro” da situação, e sim buscar formas que gerem alternativas para esclarecer dúvidas, crises, imprevistos, afinal, não existe uma única forma de passar conhecimento, há um universo de maneiras e não existem fórmulas criadas para cada tipo de surpresa.

No caso do jornalista, se a pauta não corresponder à realidade dos fatos, ele vai ser obrigado a modificar o roteiro e ter a sensibilidade de filtrar a o assunto e produzir a sua informação de maneira clara, que responda as perguntas e as respostas se encaixem no texto.

A melhor saída é ouvir sempre o outro têm a dizer para daí então, baseado nas fontes da rua ou da sala de aula, construir uma pauta conjunta.

Para aguçar a curiosidade é preciso alterar ou inverter a pauta sim, na maioria das vezes, ou quase sempre. Abrace a turma, abrace a pauta e saiba que um bom improviso é a melhor forma de se mover numa saia justa.

Sensibilidade e criatividade andam de mãos dadas e, se não tiverem esta capacidade, os alunos não terão uma boa aula, ou as senhoras e os senhores ouvintes, uma boa notícia.

Às professoras Darli Collares e Patrícia Camini da Faculdade de Educação da UFRGS, por provocarem o tema.  

O teatro das sombras

A sombra que faz sombra e assombra

Pode ser boa quando te protege do sol

Pode ser ruim quando te assombra

A sombra cai na água em não molha

Cai no fogo e não queima

A chuva cai quando tem sombra

E pode tornar a noite assombrosa

Os raios produzem sombras

A luz da varanda reproduz a sombra da goteira

A sombra ninguém alcança

Uiva efêmera nas masmorras dos castelos

De almas atemporais alucinadas

Não tem sombra na sala de cinema

Mas pode representar no teatro

Assombra gabinetes e plenários

O Planalto, o Piratini e o Paço

Assombra castelos e palácios

Como se o mal dominasse o bem.

E num passe de mágica

Na mistica ilusão do baralho

Num estalar dos dedos

Abracadabra e o castelo desaba.

É à sombra que se esconde e descansa a transparência, a luz da verdade, a verdade das coisas e as coisas que não se quer mostrar. As sombras impedem piquetes de avançar e é na calada da noite que a sombra mostra a sua face mais aterrorizante, travessa e cruel. Ao mesmo tempo mais doce, encantadora, inocente, convincente, cobiçável, como se fosse feita de mel.

O Piffero merece uma estátua na Arena Tricolor

A gestão de Vitório Piffero foi tão maléfica ao Internacional, e ao mesmo tempo tão benéfica ao Grêmio que o agora já ex-presidente colorado, já que Marcelo Medeiros, da chapa opositora, foi eleito, no sábado, com uma enxurrada de votos, deveria ser homenageado pelo tricolor.

Não precisamos fazer nenhum esforço de memória para concluirmos que duas das três alegrias da torcida gremista em 2016 foram proporcionadas pelo Inter e seu então presidente.

Quem não lembra que na semana de um Gre-Nal o Piffero mandou embora o técnico Diego Aguirre por birras gratuitas, assim como teve com Mano Menezes e tantos outros. Como resultado o Colorado amargou um histórico placar de 5 a zero. O Vitório entregou de mão beijada a vitória para o Grêmio, por goleada.

A última grande alegria veio ontem, o anunciado rebaixamento do Internacional para a série B do futebol brasileiro. Desde a última quarta-feira os gremistas são só alegria, uma delas proporcionada, novamente pelo Píffero que por se considerar acima de tudo acabou rebaixado. É a soberba levando uma goleada. Vitório, mesmo sendo Vitório, é um perdedor.

Sai pela porta dos fundos, mas merece uma estátua, igual aquela que tem do Fernandão no Beira-Rio, só que na Arena Tricolor.