“O gênio do fascismo saiu da garrafa e agora não conseguem colocá-lo de volta”

É lúcida esta definição do governador do Maranhão, Flávio Dino, fazendo ponderações da classe política e social brasileira no momento em que se vive uma turbulência indefinida sobre os rumos da Nação. Se chegou onde se chegou por conta de uma total falta de coerência ao discurso e obediência à cartilha política redigida pelas bases. Se ela fosse respeitada não chegaríamos a tanto. Tenho certeza que a grande maioria entende que quando se ocupa uma nova casa, uma nova proposta e um novo modelo devem ser implantados. Troca-se móveis, pintura, espelhos, até a casa do cachorro muda de lugar. Os antigos ocupantes devem levar toda mobília e um bruxo ser chamado para eliminar todos os males e seus fantasmas.

Se isso não for feito, o espírito continuará assombrando e agindo na calada da noite, com os antigos moradores, em pele de cordeiro, dando as cartas, como velhas raposas que conhecem bem o território e cada divisão das paredes, do pátio, bem como os caminhos das tubulações obscuras por onde evade a cacaca de quem se alimenta à mesa da rapinagem e faz o mau uso da coisa pública.

O certo é que os antigos donos nunca deixaram a casa, continuaram dando as cartas na jogatina das madrugadas, com o aval dos novos proprietários que, atraídos pela funcionalidade do novo lar, esqueceram-se da lição de casa e passaram a compartilhar das mesmas regras, do mesmo jogo.

Um dia uma criança curiosa sobre no sótão e encontra uma garrafa estranha, tenta limpá-la esfregando o pó com as mãos e dela surge uma nuvem de fumaça trazendo dentro dela um gênio, genioso, que sai aprontando por aí. O problema vai ser colocá-lo de volta, se a casa do gênio não for encontrada. O menino pode ter quebrado a garrafa.

 

Senhores azuis, por onde andam?

Na manhã de sábado, Avenida Azenha trancada porque um destes caminhões de concreto bloqueava uma pista inteira, dentro um cercado de cones. Ouvi um dos operadores do caminhão responder a uma senhora que lá, ele se encarregavam em sinalizar a pista:
– Assim sobra tempo pros azuizinhos se preocuparem com a cidade, justificou o camarada.
Ao chegar na Redenção, que aos sábados reúne boa parte da cidade que visita as feiras e o parque, novamente uma tranqueira. Desta vez eram dois carros, no estacionamento duplo ocupando cada lado da pista. Os outros veículos precisavam fazer um zig-zag para passar. Lá não tinha Azulzinho  para comandar o transito e sim um flanelinha.
No centro encontrei, por acaso, um lugar para estacionar perto do Mercado Público. Mal desci do carro e lá estava outro flanelinha, que não vi de onde tinha saído que já foi me avisando.
– Deixa cinquinho pro carro ficar bem cuidado.
Neste trajeto todo o que eu não vi foram os tais azuizinhos cuidando da cidade, porque os flanelinhas e o operador da Concremix, comandando o trânsito e fazendo o patrulhamento e sinalização das ruas, eu já conheço. 

Só uma perguntinha ao Jucá: Se não tem pecado por que o perdão?

A tentativa do senador Romero Jucá do PMDB de Roraima, de conceder aos presidentes da Câmara, do Senado e do Supremo Tribunal Federal – STF a mesma prerrogativa do presidente da República de não serem processados por atos estranhos ao exercício do mandato, foi uma confissão aberta de que suas excelências cometem atos estranhos e de que o poder está minado de gente deste tipo. Verdadeiros picaretas que se especializam desviar e vender de tudo o que conseguem surrupiar da pátria mãe corrompendo políticos, empresários, grandes industrias daqui e de fora, gente famosa das colunas sociais que se deixam corromper, até com a mãe do Badanha, com todo o respeito ao centromédio gremista dos anos 40 e sua progenitora.

Jucá ao tentar passar no Senado, nesta semana, a Proposta de Emenda Constitucional – PEC, que livra da punição a bandidagem que exerce os maiores cargos no poder, dispara o alerta, até mesmo dos mais céticos e doentios defensores desta canalhice toda, de que tem alguma coisa por de trás da cortina e que o espetáculo não tem nada a ver com o roteiro anunciado. Afinal por que motivo se protegeria alguém tão sério, correto, belo e recatado?

O Jucá, diga-se de passagem, transita livremente no poder muito embora, para o grande público, ele tenha se afastado depois que a Polícia Federal interceptou ligações do então ministro do Planejamento, cargo que ele exercia no governo Temer, admitindo esquema de corrupção no atual governo e falando em mudanças para estancar as investigações da operação Lava Jato.

Aliás, o grampo encontra-se na Suprema Corte aos cuidados do ex-ministro Teori Zavascki morto recentemente num misterioso acidente de avião no litoral fluminense.

Então Jucá, o que te levou a adotar medidas para proteger os santos do poder?
Se não tem pecado, por que o perdão?

A melancólica pauta positiva da mídia

Confesso que pouco assisto noticiários de TV, mas quando resolvo ver, lá está o Temer, vendendo ilusões de um país perfeito. O espaço que a mídia tem reservado à pauta positiva para divulgar as falácias palacianas é de uma total melacolia, pra não dizer mediocre.

Ou alguém acredita que o Michel vai mesmo dispensar seus ministros citados na Lava Jato, ou se ele próprio vai se autoafastar quando for notificado?

Porque então blindou o Moreira Franco sabendo que ele foi citado dezena de vezes nas chamadas delações premiadas?

Vai largar de mão o Padilha, seu abre alas? Ou o Jucá e o Gedel que saíram sem arredar pé do poder e continuam influenciando os blocos da concentração à dispersão.

O Alexandre Moraes que vai comandar o Supremo para desligar a Lava Jato e livrar o poder do banho de lama maior que o da Samarco em Mariana.

Alguém duvida que muito em breve o Temer será oficializado âncora dos telejornais?

Eu não duvido mais nada.

O segundo golpe está em marcha, agora com a anuência e o domínio total da mídia. Sugerimos que a tela da TV seja em forma de xadrez.

Caviar e torresmo só para os ricos

Alguém sabe explicar por que o torresmo é tão caro?

Me espantei ao ver uma placa num armazém de beira de estrada na região de Vila Maria, anunciando o preço do torresmo. Não acreditei e perguntei ao bodegueiro se aquele valor era real.

– Aqui ainda é cinquenta, mas tem lugar que chega a setenta reais o quilo.

– Caramba, e por quê?

– É o preço.

Fiquei então imaginando que a tal iguaria que sempre faz parte das rodas de samba e pagode e é cantada por músicos e compositores, deve ter passado de um nível de mesa de bar para os restaurantes de luxo ao lado do caviar por exemplo. O garçom anuncia:

– Pra entrada temos as opções de caviar Au Blinis ou torresmo Au Chef Zé Silva. O primeiro é light o segundo nem tanto.

No cardápio aparecem os preços e os acompanhamentos, o caviar é servido com vodca, o torresmo com uma purinha de alambique, o preço é o mesmo.

Há quem diga que o Eike já estava de olho neste novo eldorado, deixando de lado suas minas de ouro para se dedicar a compra e venda de torresmo, um mercado bem mais lucrativo, explorando o porco na origem. Ainda na maternidade o porquinho receberia um brinco de qualidade que o acompanharia do chiqueiro aos embutidos.

Enfim, o torresmo receberia uma avaliação da ANVISA revelando que ele não é prejudicial à saúde como andam falando, que pode fazer parte de uma dieta equilibrada na feijoada e que deve ser consumido com moderação.

O torresmo deixaria de ser o vilão dos gordinhos e se tornaria um complemento rico em proteína com valores diários que não afetam o colesterol.

Surgiria a dieta do torresmo que o Eike exigiria no seu cardápio em Bangu, para repor as calorias desperdiçadas entre uma delação e outra.

O torresmo poderia se tornar sim um vilão da inflação chegado ao ponto de derrubar o Temer e acabaria se transformando em herói nacional. Desbancaria o Renan, o Jucá e o Padilha num piscar de olhos. O Meireles renunciaria e o STF aceitaria a denuncia de golpe do torresmo sem segredo de justiça, mesmo que não houvesse uma explicação clara que incriminasse a supervalorização deste derivado do porco. Enfim, iria direto pra banha.

Retomei a estrada tentando compreender o papel que o torresmo deixa de exercer na vida das pessoas, mas só pude concluir que é mais um alimento que some da mesa do pobre.

Foi aí que entendi uma piada que rola nas redes sociais onde uma mulher pede para que não mandem para ela mensagens de datas especiais como o dia do amigo e termina dizendo:

– Mandem torresmo.

 

O professor e o jornalista

São bem próximas as funções de professor e de jornalista. As duas cumprem suas pautas do dia em lugares distintos, mas com a mesma finalidade, a de transmitir informação e conhecimento. Um professor traça o seu plano de aula na expectativa de repassar, de forma clara, o que tem no conteúdo. Para um jornalista não é diferente, sai da redação no foco de colher as informações necessárias para “fechar a matéria” e repassar em forma de notícia ao leitor, ao ouvinte ou telespectador.

Os dois carregam na consciência suas dúvidas, sabendo que, dependendo da situação, devem inverter a pauta, buscar outros meios de trabalhar o assunto e dispor da criatividade, o suficiente para construir uma boa aula ou uma boa notícia. É preciso muitas vezes recorrer ao improviso, ao acaso, desconstruindo o planejado, sabendo interpretar o que o momento exige.

Se os alunos tiverem outra interpretação do que estiver no “script-pedagógico”, um professor não pode, de forma alguma, traçar um “quadro negro” da situação, e sim buscar formas que gerem alternativas para esclarecer dúvidas, crises, imprevistos, afinal, não existe uma única forma de passar conhecimento, há um universo de maneiras e não existem fórmulas criadas para cada tipo de surpresa.

No caso do jornalista, se a pauta não corresponder à realidade dos fatos, ele vai ser obrigado a modificar o roteiro e ter a sensibilidade de filtrar a o assunto e produzir a sua informação de maneira clara, que responda as perguntas e as respostas se encaixem no texto.

A melhor saída é ouvir sempre o outro têm a dizer para daí então, baseado nas fontes da rua ou da sala de aula, construir uma pauta conjunta.

Para aguçar a curiosidade é preciso alterar ou inverter a pauta sim, na maioria das vezes, ou quase sempre. Abrace a turma, abrace a pauta e saiba que um bom improviso é a melhor forma de se mover numa saia justa.

Sensibilidade e criatividade andam de mãos dadas e, se não tiverem esta capacidade, os alunos não terão uma boa aula, ou as senhoras e os senhores ouvintes, uma boa notícia.

Às professoras Darli Collares e Patrícia Camini da Faculdade de Educação da UFRGS, por provocarem o tema.  

O teatro das sombras

A sombra que faz sombra e assombra

Pode ser boa quando te protege do sol

Pode ser ruim quando te assombra

A sombra cai na água em não molha

Cai no fogo e não queima

A chuva cai quando tem sombra

E pode tornar a noite assombrosa

Os raios produzem sombras

A luz da varanda reproduz a sombra da goteira

A sombra ninguém alcança

Uiva efêmera nas masmorras dos castelos

De almas atemporais alucinadas

Não tem sombra na sala de cinema

Mas pode representar no teatro

Assombra gabinetes e plenários

O Planalto, o Piratini e o Paço

Assombra castelos e palácios

Como se o mal dominasse o bem.

E num passe de mágica

Na mistica ilusão do baralho

Num estalar dos dedos

Abracadabra e o castelo desaba.

É à sombra que se esconde e descansa a transparência, a luz da verdade, a verdade das coisas e as coisas que não se quer mostrar. As sombras impedem piquetes de avançar e é na calada da noite que a sombra mostra a sua face mais aterrorizante, travessa e cruel. Ao mesmo tempo mais doce, encantadora, inocente, convincente, cobiçável, como se fosse feita de mel.

O Piffero merece uma estátua na Arena Tricolor

A gestão de Vitório Piffero foi tão maléfica ao Internacional, e ao mesmo tempo tão benéfica ao Grêmio que o agora já ex-presidente colorado, já que Marcelo Medeiros, da chapa opositora, foi eleito, no sábado, com uma enxurrada de votos, deveria ser homenageado pelo tricolor.

Não precisamos fazer nenhum esforço de memória para concluirmos que duas das três alegrias da torcida gremista em 2016 foram proporcionadas pelo Inter e seu então presidente.

Quem não lembra que na semana de um Gre-Nal o Piffero mandou embora o técnico Diego Aguirre por birras gratuitas, assim como teve com Mano Menezes e tantos outros. Como resultado o Colorado amargou um histórico placar de 5 a zero. O Vitório entregou de mão beijada a vitória para o Grêmio, por goleada.

A última grande alegria veio ontem, o anunciado rebaixamento do Internacional para a série B do futebol brasileiro. Desde a última quarta-feira os gremistas são só alegria, uma delas proporcionada, novamente pelo Píffero que por se considerar acima de tudo acabou rebaixado. É a soberba levando uma goleada. Vitório, mesmo sendo Vitório, é um perdedor.

Sai pela porta dos fundos, mas merece uma estátua, igual aquela que tem do Fernandão no Beira-Rio, só que na Arena Tricolor.

Sofrer por dentro, calado

Pai e filho assistiam na televisão as últimas notícias sobre o pacote do Governo do Estado propondo a extinção de fundações e autarquias no Rio Grande do Sul, quando o pai não se conteve e largou um sonoro – CRÁPULA.

Com olhar surpreso o filho indagou:

– Porque você votou nele então?

– Porque ele disse que ia mudar

– O quê?

– Tudo meu filho, tudo

– Mas ele tá mudando, cumprindo com o que prometeu

– Mas não deste jeito

– Mas ele explicou o jeito que ia mudar?

– Não filho, não explicou

– Então porque você votou na proposta dele?

– Porque ele me fez pensar assim, mas agora vi que fui enganado

– Mas lá na tua repartição todos votaram nele também

– Sim, a maioria prá não dizer a totalidade

– E agora ele vai acabar com a fundação onde você trabalha e ainda vai te mandar embora

– É o que andam dizendo filho

– Você sempre reclamou do teu salário mesmo, qual é o problema?

– O problema é que vou ficar sem salário embora fosse uma merreca

– Mas você disse que ultimamente não via a cor do dinheiro

– Não, eu não via a cor do salário porque o dinheiro vem em conta-gotas, parcelado

– Mas ele prometeu na campanha que ia parcelar os salários?

– Não, ele não prometeu, aliás, não prometeu nada, não apresentou plano algum

– E vocês votaram nele mesmo assim…

– É filho, foi um lapso

– A tia Veroca bem que avisou

– Mas ela é petralha

– Mas os petralhas não parcelavam os salários

– Sim, isso é verdade, todo o final de mês tava lá na conta, valor integral

– Mas lembro que você vibrou quando o deputado Jardel votou pelo aumento de impostos para pagar em dia os salários dos servidores

– Não lembro disso meu filho

– Sim, você gritou aí nesta mesma poltrona que foi mais um golaço

– Ah, força de expressão porque ele foi meu ídolo no Grêmio

– Você votou nele também, não votou?

– Sim, votei

– Nessa ele errou o cabeceio como diz a tia Veroca, os salários continuam batendo na trave e respingando na rede

– Pois é!

– E agora pai, como vamos sobreviver?

– A gente dá um jeito

– Vou ter que sair da escola particular?

– Era o que eu iria mesmo te falar, temos boas escolas públicas

Aí entra o noticiário nacional da televisão anunciando que o Governo Federal assina medida provisória com mudanças na política para a educação

Os dois ouvem calados que, entre outras coisas, o ensino gratuito deixa de ser prioridade

O pai sofre calado, olhando o boneco do pato na mesa de canto da sala, o nariz de palhaço e a máscara do japonês da federal, que usou nas manifestações a favor do impeachment, dependurados na parede

Na manhã seguinte o filho sai para arrumar um emprego, já com planos de abandonar o ensino fundamental.

 

 

Memórias de um guri letrado na Cartilha do Guri

As tardes na infância eram longas, os dias eram intermináveis, as semanas demoravam meses, os meses em anos e os anos pareciam séculos que não acabavam mais. A transição no calendário era demorada, a folhinha das datas custava cair. O outono era outono, inverno era inverno de verdade, a primavera tinha jardins imensos nos canteiros da frente ou ao longo do patio das casas, formando corredores que iam da porta de entrada ao portão da estrada.

A grade mesa de madeira nobre, um angico ou talvez um louro ou grápia, ocupava maior parte da varanda, rodeada com cadeiras de palha de junco, ou de balanço, de vime trançada, que rangia conforme o peso de quem nela se acomodasse para uma cesta depois do almoço.

As tardes de segunda e de terça eram preguiçosas e mormacentas. O ar parado concentrava de forma, ás vezes irritante, o canto das cigarras nas cerejeiras, num zunido ensurdecedor. A vaca mugia no pasto chamando a cria para aproveitar a sombra de um cinamomo e se proteger do sol que castigava várzeas e coxilhas. O calor que evaporava da terra formava uma espécie de labareda por onde cruzavam formigas cortadeiras que levavam para um ninho próximo as folhas de uma grande roseira branca que se erguera na coluna de madeira e se debruçara de um lado ao outro do oitão da casa.

Debaixo de um pé de plátano as galinhas e os galos descansavam acomodados no vão das raízes enquanto as ninhadas de pintos de duas ou três semanas caçavam insetos num tapete de avencas esparramadas no barranco perto do rio. A água corrente e barulhenta do lajeado de pedras era um convite a não fazer nada.

O lanche da tarde era uma fatia de pão de trigo ou de milho,queijo,salame, um naco de doce de pera e limonada. Biscoito de manteiga e bolachas cobertas de glacê, salpicados com açucar colorido eram reservados para as visitas.

Na cabeceira da mesa a varanda, um menino de suspensórios e cabelo cortado ao estilo cadete tentava concertar a capa solta da Cartilha do Guri. Usava o pegajoso âmbar recém extraído do tronco de uma ameixeira para colar as partes que se soltaram. Era uma cola natural e eficiente também para selar envelopes de cartas.

As 54 páginas da publicação das edições Tabajara de 1962 eram intermináveis e um grande desafio para quem estava iniciando nas letras. Era pela cartilha que se transitava entre as hipóteses de escrita pré-silábica, silábica e, com muito custo, mal se chegava ao nível silábico alfabético. Era um ano inteiro tentando entender o que se passava naquelas folhas escritas, pontuadas e desenhadas. Escrever bola e bota era uma enorme dificuldade. Como que dois objetos diferentes tinham escritas tão iguais?

Pato e pote então era um martírio, mas ficava mais fácil entender quando se associava que o pato come no pote. Estas comparações, no entanto,não serviam para boi e formiguinha. O boi enorme tinha só três letras e a formiguinha era uma carreirinha sem fim. Ficava mais fácil aprender que a palavra era compridinha quando se cantava – a formiguinha vai na carreirinha levar comidinha pra sua filhinha –

Calculo que os professores e pesquisadores da escrita aprovariam esta musiquinha da formiguinha no processo de alfabetização guris e gurias preguiçosos em sala de aula. Também era uma forma de despistar as tardes de sono em cima da cartilha e do caderno sobre a mesa na varanda do casarão de madeira onde nenhuma brisa soprava para refrescar a memória ou acender os ânimos da pobre criança que suava para aprender o bê-a-bá.

As mães e as tias mais velhas, pouco letradas tentavam dar uma forcinha e soletravam letra por letra em voz baixa até formarem uma palavra. Assim, Olavo era desmembrado em: O – l – a – v – o, que virava: Oooola-vo, pra finalmente se unir numa só, e Olavo virava motivo de orgulho para quem pronunciava por inteiro. As frases formadas por meia dúzia de artigos e palavras eram tão demoradas para serem decifradas que quando chegasse à última, a pessoa já tinha se esquecido da primeira. Dava tempo de correr para tomar um banho no rio e voltar.

Se havia dificuldade em aprender a ler e a escrever com tanta coisa a observar ao nosso redor, tínhamos ao menos, a convicção e a certeza que as flâmulas na parede da sala pertenciam ao Internacional, o Palmeiras e o Vasco da Gama os times de coração do meu pai. E no alto da porta da varanda uma faixa bordada em tecido anunciava que “Nesta casa mora um casal feliz”. Não se sabia o significado das letras, nem se elas estavam em ordem dentro da frase, o importante é que todos pronunciavam o que estava escrito com a maior perfeição do mundo.

Só resta agradecer as professoras Lia de português e Rita de matemática e pra não esquecer repetir a máxima de criança que não gostava da escola e fazia rima pra passar o tempo:

“Se lia na aula da Lia e se irrita na aula da Rita”.

Muito obrigado às duas que marcaram a infância de guris e gurias em cima de cartilhas e de cadernos pautados e quadriculados. Vocês foram nossos guias.