Só uma perguntinha ao Jucá: Se não tem pecado por que o perdão?

A tentativa do senador Romero Jucá do PMDB de Roraima, de conceder aos presidentes da Câmara, do Senado e do Supremo Tribunal Federal – STF a mesma prerrogativa do presidente da República de não serem processados por atos estranhos ao exercício do mandato, foi uma confissão aberta de que suas excelências cometem atos estranhos e de que o poder está minado de gente deste tipo. Verdadeiros picaretas que se especializam desviar e vender de tudo o que conseguem surrupiar da pátria mãe corrompendo políticos, empresários, grandes industrias daqui e de fora, gente famosa das colunas sociais que se deixam corromper, até com a mãe do Badanha, com todo o respeito ao centromédio gremista dos anos 40 e sua progenitora.

Jucá ao tentar passar no Senado, nesta semana, a Proposta de Emenda Constitucional – PEC, que livra da punição a bandidagem que exerce os maiores cargos no poder, dispara o alerta, até mesmo dos mais céticos e doentios defensores desta canalhice toda, de que tem alguma coisa por de trás da cortina e que o espetáculo não tem nada a ver com o roteiro anunciado. Afinal por que motivo se protegeria alguém tão sério, correto, belo e recatado?

O Jucá, diga-se de passagem, transita livremente no poder muito embora, para o grande público, ele tenha se afastado depois que a Polícia Federal interceptou ligações do então ministro do Planejamento, cargo que ele exercia no governo Temer, admitindo esquema de corrupção no atual governo e falando em mudanças para estancar as investigações da operação Lava Jato.

Aliás, o grampo encontra-se na Suprema Corte aos cuidados do ex-ministro Teori Zavascki morto recentemente num misterioso acidente de avião no litoral fluminense.

Então Jucá, o que te levou a adotar medidas para proteger os santos do poder?
Se não tem pecado, por que o perdão?

O teatro das sombras

A sombra que faz sombra e assombra

Pode ser boa quando te protege do sol

Pode ser ruim quando te assombra

A sombra cai na água em não molha

Cai no fogo e não queima

A chuva cai quando tem sombra

E pode tornar a noite assombrosa

Os raios produzem sombras

A luz da varanda reproduz a sombra da goteira

A sombra ninguém alcança

Uiva efêmera nas masmorras dos castelos

De almas atemporais alucinadas

Não tem sombra na sala de cinema

Mas pode representar no teatro

Assombra gabinetes e plenários

O Planalto, o Piratini e o Paço

Assombra castelos e palácios

Como se o mal dominasse o bem.

E num passe de mágica

Na mistica ilusão do baralho

Num estalar dos dedos

Abracadabra e o castelo desaba.

É à sombra que se esconde e descansa a transparência, a luz da verdade, a verdade das coisas e as coisas que não se quer mostrar. As sombras impedem piquetes de avançar e é na calada da noite que a sombra mostra a sua face mais aterrorizante, travessa e cruel. Ao mesmo tempo mais doce, encantadora, inocente, convincente, cobiçável, como se fosse feita de mel.

Os tempos eram outros

Abro com a observação de que eu já havia publicado não faz muito estra crônica, mas agora recebo esta ilustração do cartunista Daniel Cruz e não posso deixar de fazer o registro do filho dando num nó no pai e o pai se safando como pode na pura controvérsia..

Pulhas

– O que é um canalha, pai?

– O Bolsonaro

– Mas o senhor disse que era o Cunha

– Este é um pulha

– Mas pulha não era o Lula

– Isso ele foi, em outra época

– Quando o senhor torcia pros canalhas?

– Sim! Não! mais ou menos

– Porque o senhor mudou?

– Porque eu torci pro Jean ganhar o BBB

– Humm, o que errou o cuspe?

– O próprio

– Mas o senhor é também contra a Globo

– Totalmente

– Mas assistia o BBB

– Isso foi em outra época

– O senhor também disse que a Dilma roubava

– É que eu assisti na TV, deu no rádio e no jornal

– Então quem embolsa é o Bolsonaro e não a Dilma?

– Nunca pus a mão no bolso dele pra te dar certeza

– E o Tiririca pai quando ele disse – sim – você quase teve um infarto

– Ele é o Judas

– Mas o Judas não são os…. aqueles da Lava-Jato/

– Os delatores

– Isso, você sempre disse que eies eram Judas

– Sim, Judas foi o cagoete

– Cago o que?

– NÃO! Não é o que você tá pensando

– Nunca ouvi falar deste tal de cagote

– É cagoete filho, um delator

– Um Judas você quer dizer…

– Não deixa de ser, uma versão moderna

– Você disse que se fosse deputado não ia falar tanta merda

– Maneirando as palavras filho, não falaria mesmo, diria sim ou não em respeito ao povo e a nação

– Mas aqui em casa você antes de dizer sim ou não sempre faz um discurso feito deputado aprovando o impeachment da Dilma.

– Filho, por Deus, por você, teus irmãos, tua mãe, o gato e o cachorro, chega de perguntas tá?

Deus ficou tiririca

Parlamentares regidos pelo fervor na devoção, na crença e na Tradição Família e Propriedade – TFP, deram um show no impeachment. Deputados justificando seu voto em nome de Deus, depois, claro, da família e dos seus interesses. Foi um festival de louvor que até Deus duvida. Apelar pela devoção não faz um Brasil melhor, o que faz é a consciência do voto e quem tem consciência não precisa justificar suas ações. Transferir atitudes é não assumir a responsabilidade, é temer a verdade e faltar com o seu compromisso para o qual foi indicado. É uma forma de não se sentir culpado, afinal, foi Deus quem mandou. Falar em nome de Deus ou do Estado é temeroso porque engloba uma série de situações e de interesses. Já em nome do eleitor, do pai, da mãe, do filho ou de quem quer que seja não descredencia a justificativa. No ganha ou perde tudo é justificável, até mesmo cunhar dizeres na roupa ou na pele, mas falar em nome de Deus é muito ariscado e pior ainda é representá-lo, já que o criador supremo é onipotente e pode não ter gostado nada do que rolou na Câmara dos deputados que aprovou o Impeachment da presidenta Dilma na noite deste domingo, 17 de abril de 2016.

Diploma pra quê?

 

Afirmando que os estudantes não são clientes que vêm comprar certificados e criticando o modelo universitário com seus conteúdos voltados à formação de mão de obra para o mercado de trabalho, o filósofo italiano, Nuccio Ordine, abriu a Aula Magna do semestre da Universidade Federal do Rio Grande do Sul para um Salão de Atos lotado de professores e alunos. “Se você perguntar aos calouros – por que estão na Universidade? – a resposta geral sempre é para conseguir um diploma.

Não poderia ser diferente quando temos um mercado consumista, voltado para a concorrência e a vocação para espremer o empregado até a última gota de maneira que ele não pense e assim obedeça e não reclame, é obrigado a reduzir a convivência social ou familiar ao máximo para que durma cedo, madrugue e produza mais.

A escola e a universidade deveriam ser uma  busca pelo melhor, para ser livre. O saber ensina a criticar, para que se pense com autonomia. Mas, o contexto social hoje tem uma lógica utilitarista, com imposição de ganho que proíbe e impede a paixão em nome do prazer desinteressado e gratuito. Vivemos num contexto político dominado pela ditadura da maximização do lucro. Temos dificuldade em responder nossos próprios questionamentos. A máquina que deveria disponibilizar espaços para que a humanidade tivesse tempo para viver e raciocinar sobre o significado das coisas acaba alienando e escravizando. O vocabulário, o poder de identificar o certo do errado, de separar o bem do mal, de ouvir e de pensar vão se distanciando a partir da intolerância, da falta de transparência, da imposição de idéias e palavras, da analise unilateral das coisas, de se achar a única pessoa que pensa corretamente no universo ao ponto de se considerar um Deus e sair pregando o evangelho, abrindo templos e recolhendo as riquezas que tanto condena e espalhando o medo do apocalipse.

Voltamos então a esta ganância de querer mais e comprar sua liberdade. Nuccio lembra que no universo do utilitarismo uma faca é melhor que uma poesia, porque o instrumento é material. O pensador John Lock já definia que “Ler e escrever versos impede de ganhar dinheiro e coloca em risco o patrimônio familiar”. Portanto, pouco se valoriza o bem cultural, muito embora Grécia e Itália souberam ganhar dinheiro com seus patrimônios da humanidade, distribuídos ao ar livre pelos dois países. Outros continentes preferem destruir a história em nome de um progresso limitado, na maioria das vezes assassino e avassalador.

Assim é na educação, as universidades e escolas estão transformadas em empresas, onde o crédito e o débito são as principais palavras e a única ideia que vendem é a do diploma que mais tarde vai amarelar numa parede a espera de um reconhecimento.

Enfim, não sabemos dar importância aos saberes inúteis que deveriam nutrir o espírito. Não temos consciência sobre as coisas que nos fazem sobreviver. Ao citar uma anedota de Wallace, Nuccio resume esta falta de consciência das coisas que nos cercam: “Dois jovens peixes nadando, encontram um peixe ancião em direção oposta, que abana pros jovens e pergunta – como está a água? Os jovens se olham e se questionam – água? O que é isto?”.

Não se pode distinguir o que nos cerca porque não somos educados para entender, mas para obedecer e ter um diploma na parede que também não se sabe pra quê.

Quando os funerais eram bem comemorados

Antigamente os funerais eram bem comemorados. Tinha parente que só aparecia no velório. Certo dia um locutor da rádio ao ler o convite para enterro convidou toda a cidade para as “comemorações” e por pouco não revelou o menu. Sim, o menu porque dia de velório misturava dor, sentimentos e comilança.

Quando alguma pessoa idosa estava por morrer, já desenganado pelo médico que geralmente estipulava uma “data de partida”, se iniciava na casa um verdadeiro ritual de preparação de doces e salgados para receber as visitas.

Carneava-se porco, galinha ou se o morto era bem popular, que reuniria boa parte da cidade, sacrificava-se uma rês. Também tinha velório humilde que distribuía bolachinhas, que ficavam por meses guardadas em latas, e eram servidas com chá, mate, leite e café preto.

Outros se resumiam numa pastelaria, como foi o caso do seu Mano, que era o diminutivo de Manoel. No leito da morte, sentiu um cheiro de fritura que vinha da cozinha e chamou a neta para saber o que estavam preparando. Ao saber que era pastel, pediu para que a neta trouxesse um para ele, mas ouviu da voz inocente da menina:

– A vó disse que os pasteis são pro velório!

Quando o seu Vito, fazendeiro famoso e de bom coração estava por morrer, logo toda a parentaia foi avisada. No dia seguinte começaram a chegar os convidados e nada dele partir. Passaram-se três longos dias até que o seu Vito se entregou. Uma verdadeira quermesse.

Os funerais eram locais de encontros de familiares e movimentavam as comunidades. Os adultos se revezavam em confortar os de casa, recordavam bons e maus momentos da vida do falecido. Não era tão raro assim ouvir gargalhadas quando o assunto era o lado engraçado de quem partia. Às crianças cabia espantar as moscas que rondavam o caixão.

Hoje a tradição ficou de lado, a falta de tempo, a facilidade de se deslocar, as redes sociais oferecem on-line, quer dizer, transmitem ao vivo a cerimonia e também, pelo fato dos velórios não serem mais em casa. Isso tudo tornou sem graça o último adeus.

 

Ladainhas, novenas e capitéis

É o que dá entrar no facebook sem estar preparado para tanta informação inútil de maneira nada aproveitável. O ócio campeia nas redes sociais e o ódio é apenas uma forma de acobertar a covardia daqueles que não tem coragem de falar em público. Sim, as redes sociais são públicas, mas também são privadas para quem quer se esconder por detrás de uma tela golpeando o teclado, espargindo toda a raiva e o veneno de quem não foi convidado para entrar, mas que também não tem a menor intenção de sair.

São nômades a procura de um lugar seguro para acomodar a caravana. São ricos, pobres, depressivos, hiperativos, ladrões, bandidos, beatos, honestos, íntegros ou safados, bem ou mal educados, que se empoderam de uma ferramenta democrática que compartilha amores, desamores, paixões repentinas, declarações, assuntos sérios e besteiras, na ânsia de levar o mais longe possível, atingir o maior número de internautas na esperança de que leiam longas, repetidas e desanimadoras ladainhas bem como pedem para compartilhar suas novenas com intenção de agradar os santos, os arcanjos e os querubins e realizar seus desejos solicitados durante promessas fervorosas feitas com devoção no capitel de cada estrada. (pra quem não sabe ou não é daqui – capitéis são pequenos santuários, locais de oração, instalados em estradas rurais substituindo as capelas)

O facebook acima de tudo é um lugar para extrapolar, judiar, jurar, amar ou tripudiar e pedir desculpas. Pode acomodar a mais pura inocência ou acobertar a mais cruel ameaça e o mais brutal dos crimes.

O que não se quer dizer cara a cara se diz no face, lugar sagrado, onde o bem e o mal disputam o mesmo espaço.

 

Do Rio Doce ao Bataclan

Bastou um fato do outro lado do Atlântico para que o pobre e agonizante jornalismo esquecesse o seu principal desastre nacional e direcionasse o foco para os acontecimentos em Paris. Era o que faltava para que a grande mídia procurasse desviar a atenção de uma nação inteira, deixasse de investigar as causas locais e passasse a investigar as causas de uma ação premeditada de fundamentalistas fanáticos que, em nome da paz, fazem guerra contra quem, também em nome da paz, brinca de jogar bombas no território alheio.

Os atentados em Paris na última sexta-feira, vitimando centenas de pessoas na casa de shows Bataclan e em cinco outros locais, deixando feridos, abafaram por completo os noticiários das grades redes (não critico aqui diretamente os profissionais), mas os patrões, que já vinham demonstrando certo desconforto para falar da agonia de dois estados brasileiros e por conseqüência de um desastre ambiental provocado pelo rompimento de uma barragem de lama tóxica que engoliu casas, pessoas e contaminou as águas do Rio Doce, um dos maiores do mundo, afetando o ecossistema de maneira incalculável. As informações tentavam culpar um suposto abalo sísmico pelo desastre e se resumiam ao tipo de providência que estava sendo tomadas, deixando em segundo plano a extensão do problema.  Os verdadeiros responsáveis procuravam amenizar a situação divulgando ações paliativas como as chamadas medidas emergenciais, comum e  necessárias em qualquer cataclisma, assim como: Vamos providenciar água e desatolar os mortos prá dizer que estamos fazendo a nossa parte.

Paris caiu do céu, justo no chafurdado momento brasileiro. O foco passou a ser a investigação dos responsáveis pelos atentados em Paris e a ameaça aos americanos, mesmo que o Estado Islâmico já tenha assumido a culpa. Aqui já se conhece os culpados, mas eles jamais assumirão a culpa. Nos dois casos, quem paga o preço pela ganância, pela intolerância, pela irracionalidade e a total falta de compromisso com o outro é aquele que está em casa e de uma hora para outra, sem aviso prévio, é encoberto pela lama ou está num show Heavy Metal e é atingido por uma rajada de balas oriundas do comércio internacional de armas. Morrem sem saber o motivo.

 

 

 

 

Texto de uma menina de 13 anos para alertar gente grande

Graziela Alves tem 13 anos, mora na cidade de Taubaté, São Paulo, e não tem o mínimo preconceito de falar sobre ela e sobre o que pensa quando o assunto é diversidade. Suas palavras superam a imbecilidade de homens e mulheres, ideologias políticas, moralistas, conservadoras e de religiosidade, dos que se achar no direito de ensinar bons costumes quando não sabem o que acontece do lado de fora da porta da sua casa, as vezes nem dentro. Enfim, orgulha-me uma juventude que pensa, fala, expõe seus pensamentos, que diz o que pensa, sem recato. Isso representa continuidade, uma nova geração preocupada com os conceitos, com o currículo da vida. Graziela merece ser lida por todos adolescentes porque é um exemplo de simplicidade, de texto direto e sem rodeios. Um exemplo de que da inocência das palavras se pode transformar um mundo cercado de violência, preconceito, homofobia, de intolerância à diversidade, tudo provocado pelo homem que não sabe conviver com suas próprias criações. Publico na íntegra o texto da pequena Grazi – PARA ALERTAR GENTE GRANDE:

“Meus professores nunca falam sobre questões que eu acho que deveriam ser mencionadas nas aulas. Raramente tem um comentário sobre como a sociedade sempre foi machista, sobre partes da história que a gente estuda (como quando excluíram as mulheres da constituição, na França), ou sobre a intolerância com judeus durante o holocausto.

Talvez seja por isso que tantas pessoas na minha sala pensem do jeito que pensam. Já me acostumei a ouvir sobre como Deus criou o homem e a mulher para ficarem juntos; ou que a mulher não deve usar certas roupas em público e agir de certo jeito para não provocar os homens. Eu, apesar de ser bem nova, me orgulho do que penso e digo quando me pedem opiniões. Acho que é tão importante discutir o feminismo e o movimento da comunidade LGBT quanto falar sobre guerras na síria e explicar fórmulas. Me sinto muito isolada no meio em que vivo, pois ninguém pensa como eu. Se dou minha opinião, logo me falam que o que eu estou dizendo é um absurdo, quando o verdadeiro absurdo é aquele racismo, machismo e aquela homofobia reproduzida pelos meus amigos. Pior que ouvir meninos sendo machistas, é ouvir todas essas coisas, e até coisas piores, vindo de meninas. Nós deveríamos nos aceitar do jeito que somos, e não rir de uma menina mais gordinha por usar uma calça mais colada ou um short mais curto. Deveríamos nos unir e nos importar com nós mesmas e com as outras, sem levar em consideração se é gorda, alta, “feia”, se tem cabelo liso ou cacheado. Deveríamos defender o nosso direito de nos expressarmos e agirmos como quisermos, não de um jeito x pois o jeito y vai “chamar a atenção dos meninos”. O feminismo é muito importante para mim e para todas as meninas e mulheres, pois é o movimento que luta e nos garante nossos direitos. Sem o feminismo, muitas mulheres ainda seriam chamadas de bruxas e queimadas em fogueiras. Hoje em dia, isso acontece do jeito “moderno”: somos chamadas de vários nomes por vivermos como queremos, sendo que esse é um direito de todas as pessoas, não importa o gênero. A sociedade, depois de tanto tempo, continua muito machista: se recusa a dar voz a quem precisa (nesse caso, as mulheres), e não faz nada para impedir que sejamos quase crucificadas. Tantas pessoas ainda pensam na mulher como um ser que deve ser calma e relaxada, elegante e bem arrumada em todas as situações. Não seria problema tratar as mulheres e meninas de um jeito x se tratássemos os homens e meninos desse mesmo jeito.

Temos que dar voz para todas as mulheres, pois todas nós merecemos ser ouvidas. Eu mereço dar minha opinião na sala de aula sem ficar nervosa por saber que irão rir de mim. Todas as meninas que tem cabelos cacheados merecem continuar desse jeito sem ter medo que digam que seus cabelos são “duros” ou “ruins”. Independente do que fez no passado, faz no presente ou fará no futuro, todas as mulheres merecem ter o direito de se vestirem, se expressarem, de agirem, pensarem, falarem e viverem como bem entenderem. Todas nós somos especiais. E eu queria muito que pais e professores ajudassem seus filhos, meus amigos, a entenderem isso.

Mulher não é um objeto.
Negro não é ladrão, nem escravo.
Gays, lésbicas, transsexuais e todos da comunidade LGBT não são pecadores.
Eles são quem são, e não podem mudar isso. Todos nós temos o direito de vivermos como quisermos, ao mesmo tempo que todos nós temos o dever de aceitar e respeitar os outros, independente de quem ou como for.”

No caminho da Annoni tinha o Natalino

Quando o Sul21 abre esta série de matérias especiais sobre os 30 anos da Fazenda Annoni pras bandas de Passo Fundo, quero lembrar que no trajeto até a terra definitiva houve um acampamento de lona preta, onde os filhos rejeitados pelo poder público, na época do regime militar, instalaram suas barracas e iniciaram a primeira grande resistência dos colonos Sem Terra na busca do seu espaço no campo.

O episódio serviu de base e de inspiração para que fosse criado o Movimento dos Sem Terra, que nasceu dentro das  barracas nos acampamentos de beira de estrada, o filho gerado pela omissão dos governantes e pela ganância de latifundiários que a ditadura militar tentou abortar, deixando sequelas bem mais complicadas do que parece.  Vítima do descaso, da rejeição e dos maus tratos hoje clama por atenção e por espaços dentro de casa.  Acompanhei toda a trajetória da Encruzilhada Natalino e, sem saber direito, estava testemunhando o nascimento do MST do lado de cá do arame. 

 

                                                              O FARO

     Abril de 1981. O carro de reportagem – uma caminhonete FIAT panorama de cor branca com letreiros da TV  Umbu de Passo Fundo – cortava as coxilhas na altura de Pontão. A RS-324 era uma estrada de chão batido e de poeira vermelha. O motorista João Adão Almeida, dono de um bigode caprichado, magro como um fio, e o Cinegrafista Ipácio Carolino Pinto, um preto camarada, dono de uma voz invejável que depois virou locutor de rádio, acabaram entrando  em conflito naquele início de tarde, tudo por causa do pó e o calor intenso – um queria deixar a janela aberta outro queria ela fechada e o carro mal tinha um sistema de ventilação, insuficiente para satisfazer suas exigências. Há bem pouco tempo eu tinha iniciado minha carreira de repórter de TV além de correspondente do jornal Zero Hora. Minha escola até então tinha sido a rádio Planalto e a sucursal da Companhia Jornalística Caldas Júnior.

     Me ocupava em observar tudo o que se passava lá fora, identificando assuntos para reportagens. Era o meu ofício, porque no interior os repórteres tinham que cavar suas próprias pautas e executá-las sem cerimônia e sem o mínimo de produção. Ao longe podia ver que as últimas lavouras de milho, feijão e soja estavam em fase final de colheita.

     A região, um planalto propício para a agricultura, atravessava uma das maiores estiagens de que já se teve notícias. Os mananciais secavam da noite para o dia abrindo grandes rachaduras no chão que até há bem pouco tempo era coberto por um rio. Aumentava o desespero dos agricultores que não tinham água para os animais. Nem mesmo os açudes especialmente construídos para servirem de reservatórios resistiam a seca. Íamos para Ronda Alta cumprir pautas coloquiais na prefeitura, sindicato ou cooperativa e aproveitávamos para conversar com o barbeiro, o bodegueiro da rodoviária, o taxista – que lá se chamava de dono do carro de praça – e não deixávamos também de fazer uma visita ao padre. Todos sempre tinham assuntos e eram nossas fontes de notícia.  

     Na ida ou na volta parávamos para tomar um refresco na venda do Natalino, era a única construção existente no entroncamento que dá acesso á cidade de Sarandi, para quem vem de Passo Fundo em direção a Ronda Alta. Os três municípios, cuja base econômica é a agricultura, estão localizados ao norte do Rio Grande do Sul, no extremo sul do Brasil. 

       Neste dia, na ida, não paramos no Natalino, mas observei na beira da estrada, diante da porteira de acesso às fazendas Macalli e Brilhante – pertencentes ao governo do estado – a existência de mais dois barracos erguidos com plástico velho ao lado de um que já existia ali desde o natal de 80, quando um grupo de agricultores invadiu as fazendas. Comentei com a equipe e concluímos que deveriam ser famílias de índios Guaranis se instalando por lá. Por serem nômades eles, assim como aparecem, somem de uma hora para a outra, acampam durante um curto espaço de tempo em pequenos pedaços de terra ou dentro das reservas de outros índios para plantar suas safras e, depois da colheita, pegam novamente o rumo da estrada com os balaios carregados com os alimentos. Geralmente plantam arroz, milho e feijão.

                                                    A FONTE

     Em Ronda Alta, a penúria por causa da seca era indescritível, tudo parado e nem sinal de chuva. Estávamos no sindicato dos trabalhadores rurais quando avistei do outro lado da praça, no pátio da igreja, o padre Anildo Fritzen, um incentivador da luta dos agricultores por terra e que sempre tinha informações sobre a movimentação de agricultores e índios. A região vivia dias de tensão porque os índios caingangues da reserva de Nonoai haviam expulsado mais de 1.100 famílias de colonos que arrendavam e plantavam em suas terras. Os índios se diziam ‘’explorados’’ porque recebiam muito pouco em troca de suas terras férteis, resultados de desmatamentos constantes para a formação de lavouras. Atravessei a praça e fui ao encontro dele.

–         Como vai padre Anildo?

–         Resistindo ao calor!

–         Tens ido visitar os índios e os colonos de Nonoai?  

–         A situação não está nada boa, os colonos não tem para onde ir. Alguns conseguiram se acomodar nas casas de familiares, mas outros estão espalhados pelas estradas. Não tenho dúvida de que eles vão se juntar,  acampando num só lugar, e invadir terra.

 

     O padre mal acabara a frase e me veio à lembrança os barracos que vi na estrada. Imediatamente percebi o óbvio: os índios guaranis constróem suas casas com palha, madeira e cipó e aqueles barracos estavam sendo erguidos com lona plástica costume dos agricultores em seus acampamentos.

 

     Eu nunca havia registrado um acampamento, mas já tinha feito reportagens sobre a guerra dos índios contra os colonos e acompanhado algumas famílias se acomodando como podiam em casas ou terras emprestadas ou nas estradas. Eu já não tinha mais dúvidas: aquilo não era índio, era colono.

–         Eles podem estar acampando no Natalino?

–         É um lugar estratégico, mesmo porque lá ficam as fazendas Macalli e Brilhante.

 

     As duas fazendas já tinham sido invadidas uma vez. Isso ocorreu em setembro de 79, mas o estado conseguiu a reintegração das áreas. Além do mais, bem perto dali ficava a fazenda Annoni – outra área pleiteada e invadida por agricultores.

–         Esta movimentação dos agricultores está sendo feita de forma organizada, planejada?

–         Estamos acompanhando. A pastoral dá apoio a eles, como sempre deu. Eles precisam de atenção e para chamar atenção não há outra maneira senão  lutar pela terra.

–         O movimento é para entrar para a história então?

–         Creio que sim.

 

                                                         O FURO

    Não precisei perguntar mais nada. Aquelas poucas palavras do padre me deram o universo do movimento dos agricultores que eu queria e consegui traçar um parâmetro de tudo. Pela primeira vez na minha vida de repórter eu iria testemunhar o surgimento de um acampamento de colonos. Acelerei o passo até o outro lado da praça onde estava a equipe descansando debaixo da sombra de uma árvore.

–         João, toca pro Natalino!

–         O que deu lá?

–         Aquilo não é índio, é colono montando um acampamento.

–         Então temos que nos apressar antes que anoiteça – disse o Ipácio.

 

E não era sem razão. Afinal, usávamos um equipamento com poucos recursos, que não permitia filmar se a câmera não estivesse presa a um tripé e se não houvesse uns quatro ou cinco cabos que precisavam estar interligados ao equipamento do operador, que era o próprio motorista. Fora isso, tinha que ter claridade… 

     Chegamos ao Natalino com o sol quase se pondo e uma poeira infernal na estrada. Paramos o carro na entrada da porteira da fazenda. Ao descer me deparei com uma senhora vestindo um guarda-pó branco. Era uma enfermeira da secretaria estadual da saúde de Sarandi que recém havia chegado alertada sobre o início de uma concentração de colonos. Espichei os olhos e vi que já não eram mais três, e sim oito barracos erguidos em fila indiana. Alguns agricultores se aproximaram e aí tive a certeza, ao reconhecer o seu Teófilo, que assim como outros, andava perambulando em barracas perdidas à beira da estrada.

–         O que se passa por aqui seu Teófilo?

–         Olha, eles tão chegando né, a gente quer se concentrar aqui para conseguir essas fazendas.

–         Vocês pretendem invadir?

–         É, a gente não suporta mais esperar tanto, passando fome… Nós precisamos de uma casa e terra para trabalhar.

–         Quantos mais vão chegar?

–         Olha, não tenho idéia, mas de noite deve vir uns dois ônibus que estão recolhendo o pessoal para trazer prá cá.  

       A enfermeira confirmou:

    É, a notícia que se tem é de que amanhã devem estar montadas aqui umas      quarenta barracas e nós vamos instalar um posto médico para tratar da       saúde dessa gente.

     O Ipácio acabara de colher algumas imagens e, de imediato, a enfermeira e três agricultores, entre eles o seu Teófilo, deram seus depoimentos. Num boletim *, parado diante da câmera com a estrada e os barracos ao fundo, dei as informações que tinha, alertando que o primeiro grande acampamento de agricultores do Rio Grande do Sul começava a se instalar no Natalino, e que dezenas de famílias – quase a totalidade expulsas das reservas indígenas – estavam se dirigindo para lá com a finalidade de iniciar um grande movimento pela reforma agrária. As entrevistas vinham em seguida coladas ao boletim, confirmando tudo.

–         Temos que colocar essa matéria no telejornal desta noite mesmo, tanto no regional como em rede estadual, porque amanhã, para o jornal do meio dia, ela fica velha demais.

–         Vai dar tempo de chegar em Passo Fundo e gerar para Porto Alegre. A gente já produziu ela pré-editada  – observou Ipácio. 

 

O editor-chefe da TV Umbu (hoje RBSTV Passo Fundo), era o jornalista Carlos Alberto Fonseca, que estava com o noticiário pronto naquele dia e deixara um espaço para uma notícia da seca que deveríamos trazer de Ronda Alta.

–   Fonseca, esquece a seca, tá aqui o nosso maior trunfo, um acampamento de agricultores sendo montado na beira da estrada! A coisa vai engrossar esta noite. Tem muita gente indo para lá.

 

Eu andava pelos corredores da TV em direção a ilha de edição e Fonseca me acompanhava fazendo algumas anotações, pois tínhamos que passar a informação também para o Jornal Zero Hora. Enquanto a matéria era editada e sendo gerada para Porto Alegre, Fonseca produzia um texto rebuscando fatos que vinham antecedendo essa mobilização de colonos. Afinal, esta seria a manchete do dia seguinte nos principais jornais do Rio Grande do Sul, já que a então TV Gaúcha (hoje RBSTV Porto Alegre), daria levaria ao ar a reportagem no noticiário da noite.

 

     A notícia caiu como uma bomba. O governo gaúcho mobilizou a polícia militar para impedir que o acampamento fosse montado. Tarde demais… Quando os policiais chegaram os agricultores já estavam se instalando. Eles  resistiriam a qualquer tipo de ação, mesmo às bombas de gás lacrimogêneo que foram lançadas sobre um grupo que acabara de descer de um dos ônibus durante a noite.

* parte de uma reportagem de TV em que o repórter aparece diante da câmera; também    chamado de ‘’passagem’’.

 

                                                              O FATO

       Quando retornamos ao natalino na manhã seguinte ficamos impressionados com o que vimos. O pessoal estava certo: já havia pelo menos  quarenta barracos na beira da estrada. A polícia militar controlava o trânsito montando barreiras para evitar possíveis acidentes já que era grande a movimentação de pessoas que subiam e desciam o barranco, bastante agitadas e empenhadas na construção de suas casas. Nos dias que se passaram o acampamento foi crescendo ao ponto de atingir a impressionante marca de  quatrocentas famílias. Cerca de  duas mil pessoas  se amontoaram em baixo de barracas de lona preta, paus e capim e atravessaram lá o rigoroso inverno gaúcho.

    O governo federal do general João Batista Figueiredo, tentando dissolver a aglomeração de agricultores, e para evitar que o movimento vingasse e se alastrasse, enviou para o Natalino o coronel Sebastião Moura, conhecido pela alcunha de Curió*.

        Ele chegou ao Rio Grande do Sul com a fama de ter controlado no norte do país os conflitos entre os milhares de garimpeiros na região de Serra Pelada, no Pará. Veio disposto a fazer o mesmo, só que no pampa gaúcho os colonos estavam dispostos a resistir a qualquer tipo de intimidação.

       O coronel instalou seu QG, apoiado pelo exército e a polícia federal. Falava em nome do governo de maneira despachada e prometia terras em assentamentos no estado de Mato Grosso e no norte do país. Mandou colonos para conhecerem as áreas a bordo de aviões, instalou um centro de abastecimento no acampamento para que os agricultores retirassem alimentos, expulsou falsos colonos infiltrados no movimento e tentou conquistar a imprensa, sempre aguardando a chegada dos jornalistas com sorrisos, apertos de mão e cafezinho. Ele sabia, através do serviço de informações, quando uma equipe estava se deslocando em direção ao Natalino e preparava tudo para recepcioná-la com festa, fazendo de conta que tudo estava bem. Tinha até um jornalista permanente que se intitulava ‘’repórter fotográfico do jornal O Globo do Rio de Janeiro’’. Ele acompanhava toda a minha movimentação entre os colonos, que a cada dia estavam mais arredios em prestar informações sobre a situação dos acampados e do andamento das negociações para por fim ao conflito.

     Um dia um dos líderes do movimento me esperou na estrada para me falar sobre a desconfiança que os acampados tinham do pseudo-jornalista. Liguei para a redação de O Globo e descobri que o jornal não tinha ninguém por lá e que o fotógrafo só podia ser na verdade um policial infiltrado. Da próxima vez que fui ao acampamento ele se aproximou e educadamente me dirigi até ele:

–         Desculpa, mas eu quero ter exclusividade nesta matéria.

–         Só nessa?

–         E nas outras também. Eu sei quem tu és.

 Ele se desculpou, foi embora e nunca mais o vi.

   O coronel Curió se cercava dessas artimanhas para manter o controle do acampamento. Ele proibiu, inclusive com ameaça de expulsão do país, a entrada no Natalino do padre Anildo Fritzen e de algumas freiras que eram lideres religiosos dos colonos.   

     Foi demonstrando esta característica de bonachão, fazendo crer que tudo o que prometia era a mais pura verdade, que o coronel Curió conseguiu levar grande parte dos colonos dali e praticamente desmontar o acampamento. Mas ainda ficaram quase 180 famílias resistindo às ameaças do governo militar interessado em limpar a estrada e apagar a ameaça política que poderia manchar o desempenho dos seus aliados nas eleições futuras, já que a abertura política estava se tornando irreversível e movimentos como esse dos camponeses davam uma mostra de que o regime militar estava ultrapassado e enfraquecido. O povo exigia mudanças.

     O movimento da Encruzilhada Natalino, como passou a ser chamado o local do foco de resistência, aprimorou a consciência política dos seus integrantes que passaram a se organizar politicamente para reivindicar seus direitos de terra no Rio Grande do Sul. Á sombra deste novo amanhã se abrigava uma inquietação que despertava a necessidade de partir para a luta em defesa da reforma agrária. Os agricultores que não aceitaram a oferta de novos horizontes em terras distantes tinham um único objetivo: lutar por terra dentro do estado.

     Foi aí que este grupo de resistência começou a unir forças e no encalço de todas essas ações foi se criando o Movimento dos Agricultores Sem Terra, o MST, formado pelos próprios colonos com o apoio de religiosos, políticos de oposição – entre eles o PT – e dezenas de sindicatos e entidades ligadas a luta pela causa camponesa e dos trabalhadores.

      Os cantos de luta e as palavras de ordem invadiram as ruas da capital através de grandes manifestações de protesto em frente ao Palácio Piratini, sede do governo gaúcho.“O povo unido jamais será vencido”, e muito outros ditos conhecidos...

                   “vem, vamos embora que esperar não é saber

                   quem sabe faz a hora não espera acontecer”  

                                                              (Geraldo Vandré)

 

     Essa música representou um hino do movimento dos camponeses e sempre acompanhou as manifestações de luta.

     Nessa época os festivais de músicas nativistas recebiam tímidas composições de protesto. As músicas falavam em êxodo rural do homem que tinha que deixar a querência amada para tentar uma vida melhor na cidade. Tudo muito poético, sem um alvo específico. Foi aí que em parceria com o poeta e pesquisador Paulo Monteiro, além de meu companheiro de Grupo Literário Nova Geração – a Sociedade dos Poetas Mortos de Passo Fundo -, descrevemos em versos o drama dos sem terra que tinham ido embora na promessa de nova vida e não receberam nada do que fora prometido. Abandonados em terras distantes, propensos a todo o tipo de doença, tentaram retornar, mas foram perdendo tudo, enterrando pais, filhos e esposas no caminho de volta.

                   “Deixando o solo pampeano**  atrás da felicidade

                    O taura***  troca o minuano pelo gelo da saudade

                    Um dia o sonho se encerra o sonho morre também

                    Com tanta gente sem terra na terra que terra tem”

 

                   “Longe da terra gaúcha sem o mate-chimarrão

                    Não tem o cheiro do campo mas as febres do sertão

                   Um dia pensa em voltar pois a saudade consome

                   E só se vê cruzes marcando ranchos de tauras sem nome ” 

 

     Enfim a música tinha umas dez estrofes e foi inscrita no início dos anos 80 no festival da Califórnia da Canção de Uruguaiana, o primeiro e mais tradicional festival de música do Rio Grande do Sul. Não foi classificada e não recebemos nenhuma explicação a não ser um recado da Polícia Federal de que tinham analisado a letra. O recado tinha o significado de censura.

     Tentamos inscrevê-la no festival da Seara da Canção de Carazinho, cidade que fica próximo a Ronda Alta e Sarandi. Ali, em meio ao foco das lutas pela reforma agrária, recebemos uma resposta duvidosa: ‘’a música não foi classificada porque o ritmo, um chamamé, é vetado no festival. Além disso, o violonista Lúcio Yanel (que tinha musicado a nossa letra) tem nacionalidade argentina’’ (o que também era vetado). Só faltaram dizer que música de protesto também era passível de veto. Afinal, ainda estávamos em pleno regime militar e democracia não passava de utopia.

     Algum tempo depois o festival da Coxilha de Cruz Alta aceitou a nossa música mas fomos desclassificados porque a letra era muito grande e o intérprete esqueceu a metade.

*     pássaro preto comum nas matas do norte e nordeste brasileiro.

**   denominação da pampa, pátria dos gaúchos.

*** gaúchos, homens de lidas campeiras.

 

                                                          A FOME

      Foi a fome nos campos de uma região rica e com terras produtivas, somada as promessas de reforma agrária não cumpridas, que desencadeou o movimento de luta pela terra no Rio Grande do Sul. Maus governos, maus administradores e aproveitadores que rapinaram grandes áreas para construir barragens e ampliar seus campos de pecuária sem dar a devida atenção aos que ocupavam as terras. Os colonos tiveram que fugir quando as águas represadas tomaram conta das lavouras e de suas casas.

     Sem ter para onde ir, ocuparam a periferia das cidades formando verdadeiros cinturões de misérias. Quem um dia matava a fome da cidade, hoje clama por um prato de comida. Passaram a encontrar no biscate uma forma de ganhar a vida. Muitos – possivelmente a maioria – dos filhos não seguiram a tradição dos pais porque não tinham terra para produzir. Fatalmente acabaram marginalizados na cidade grande, uma ameaça que poderia ter sido evitada se os governantes cumprissem suas promessas. A cidade pagou caro pelo que deixaram de fazer seus representantes? Ou o ‘’grito do campo’’ foi sufocado por ser minoria e não ecoou na imensidão do pampa?

       O resultado está aí. O MST nada mais é do que o grito dos homens que não foram ouvidos durante gerações. É a revolta de anos de exploração, humilhação, intimidação, escravidão e descaso. É o berro sufocado no peito durante todos estes anos, o choro da criança com fome nas ruas, o lamento de quem tira a vida para ganhar a vida… Se o MST é uma ameaça, porque não evitaram o caldeirão que se transformou o campo? Cozinharam em fogo brando até engrossar o caldo.

Servidos?