O índio grosso e a medicina moderna

Herculano, nascido e criado no campo precisava fazer uns exames, aqueles de rotina, o xecapi anual, falei a-n-u-a-l, mas desta vez a médica incluiu na requisição uma colonoscopia cuja avaliação incluía outra via de acesso ao esqueleto, um túnel até então guardado a sete chaves.
 
Na salinha, a simpática enfermeira passava-lhe as instruções de preparo para o exame que consistia em uma dieta leve a base de merengue e líquidos claros.
 
– Suspendo o mate?
 
– Não precisa, mas se for beber, use camisinha.
 
Não entrou em detalhes sobre a camisinha, já estava por demais envergonhado da situação pela qual iria passar, afinal, náo é fácil abrir as pregas para alguém desconhecido, ainda por cima, sedado.
 
Na madrugada, de bombacha arriada, sentado solito na porta do rancho, enquanto mateava e contava estrelas Herculano matutava em silêncio. De fato ele não conseguia entender a relação da bomba com o pinto.

 

 

Sem o mínimo necessário

 

Em 70 anos de história o salário mínimo já foi suficiente para sustentar uma família.

Em 1938, o Brasil vivia sob a ditadura do Estado Novo e o governo Vargas contemplava, à sua maneira, um extenso rol de direitos sociais e trabalhistas que culminou com a criação da CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas) em 1943. Neste rol se inseriu a criação do salário mínimo.

O salário mínimo foi calculado de acordo com as necessidades básicas do trabalhador. Seu auge com poder de compra, ocorreu na segunda metade dos anos cinqüenta, especialmente no governo de Juscelino Kubitschek.

Foi uma conquista de luta dos trabalhadores, que se organizaram pelo reajuste na chamada Greve dos 300 mil, em São Paulo em março de 1953. O resultado desta insatisfação duplicou o seu valor.

Na vigência do regime militar (1964/1985) os reajustes passaram a ser calculados com base no índice de inflação o que levou a uma forte queda salarial.

Com a estabilização da moeda a partir do Plano Real, em 1994, no Governo de Itamar Franco, o salário mínimo começou a ganhar força. Mas foi a partir de 2003, com governo Lula e com a pressão das centrais sindicais que a elevação do avançou com maior impacto nas classes financeiramente menos favorecidas. 

Em cinco anos o salário mínimo subiu mais de 100%. O reajuste de março de 2008 ocorreu em um processo sem precedentes desde 1964 e foi decidido por acordo entre o governo e centrais sindicais.

A três primeiras marchas unitárias das centrais sindicais, em 2004, 2005 e 2006 resutaram num aumento real com reajuste superior a inflação.

Dilma estabeleceu uma meta do salário mínimo para que em 2019 ele chegasse a R$ 1.198,00.

No levantamento do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócioeconômicos – DIESE, o valor ideal para sustentar uma família de quatro pessoas deveria ser R$ 3.959,98. Isso corresponde a quatro vezes o salário em vigor de 998,00 assinado por Bolsonaro como seu primeiro ato de governo.

A velhinha das sete quedas

 

Dona Palmira já nasceu desastrada. A parteira gorda, apoiou de mau jeito, todo seu peso sobre o leito da natividade e quebrou a cama ao puxar o rebento que, ao sair, fraturou o pé; foi a primeira queda.

Demorou a andar por conta do pé descontado, mas venceu a luta e acertou o passo. Com o tempo se acostumou aos tombos, alguns puxando água do poço, quando não conseguia firmar o garrão e quase descia corda abaixo puxada pelo balde d´água, outros tombos foram leves, sem maiores consequências, como escorregar na lama e descer a rua sem carrinho de lomba, quedas comuns em dias de chuva.

Mas, ultimamente algumas ocorrências foram registradas com frequência, nas missas de domingo. Palmirinha, poderia se chamar Mira, mas por uma ironia do destino o nome acabou no diminutivo, não combinando com pernas e braços longos e um porte físico avantajado. Enfim, quando se nasce Eva, vira Evinha, Ana, Aninha, Vitalina vira Vita e Abrelino pra chamar de Lino. Vai entender a intenção dos pais, a criatividade das tias ou o apelido dado pelos amigos, enfim, voltamos a Mira, aliás, a Palmirinha e suas quedas domingueiras. Foram sete nos últimos seis meses, contabilizadas pela Cristiane Damiani, que casou com um Xavier e que também atende por Cris Xavier, mais uma redução do nome.  Três tombos na escadaria da igreja, um no confessionário, ao tentar se ajoelhar para contar seus pecados, outro tentando subir o altar e finalmente um tropeção no banco da igreja ao sair da missa foram a gota d’água para que o padre consultasse o médico. O sacerdote atravessou a rua e narrou ao doutor os fatos registrados com a velha senhora e suas frequentes quedas.

Na primeira oportunidade que teve, justamente durante uma consulta de rotina, o galeno aproveitou para ampliar o checape. Desviou a atenção do pé e subiu aos olhos da paciente. Não precisou nem diagnóstico do laboratório, viu na hora que dona Palmirinha apresentava uma severa opacidade do cristalino.

O problema foi desvendado ali mesmo, no consultório, acusando uma estreita relação entre as cataratas e as sete quedas.

Exames que quebram a rotina

Fui cedo me apresentar ao serviço de medicina por imagem, na hora marcada.

– Moça, olha só, esqueci a requisição em casa, é para o exame abdominal, horário já está marcado, tem problemas?

– Precisamos da requisição.

– Mas vou perder o exame, moro longe, não dá tempo de ir e voltar.

– Tem que ter requisição.

– Mas eu mostrei pra você quando vim aqui semana passada marcar o procedimento.

– Nós não ficamos com cópia.

– Mas é uma requisição simples, será que não consigo um médico para me autorizar?

– Não dá.

– Pago a consulta, mas rápido, porque já tou me mijando perna abaixo, mandaram vir com a bexiga cheia.

– Não dá senhor, não tem como.

– Veja a minha situação, tá piorando, o caldo vai engrossar.

Falei com voz forte e aguda, numa demonstração de firmeza, já que o resto do corpo não se garantia, não se sentia mais tão seguro.

– Qualquer problema o banheiro fica quase no final do corredor.

Disse ela apontando a porta. Mas não desisti e continuei insistindo:

– Quem sabe faço o exame e trago a requisição depois, é para aproveitar toda a água retida, entende?

Enquanto eu tentava argumentar, desesperadamente na busca de uma solução, ela me interrompeu abruptamente com um ar severo e um tanto irônico.

– Estou vendo aqui que a sua consulta estava marcada para ontem.

– Como?

– A sua consulta estava marcada para ontem e você não veio, hoje não temos horário, só semana que vem.

Não lembro ter chegado ao banheiro, só me dei conta donde estava quando, na saída, esbarrei numa senhora que protestou:

– Pensei que o banheiro era só de mulheres.

Epa! Cadê a UPA?

No Brasil dos panelistas e dos trouxas que se vestiram de arlequim:

Nove unidades de pronto atendimento (UPAs), que deveriam estar abertas 24 horas por dia, permanecem de portas fechadas no Rio Grande do Sul.

Outras seis das 13 em fase de construção estão com obras paralisadas.

As prefeituras dizem que não tem recursos suficientes para fazer a manutenção das unidades.
O custo de manutenção deveria ser dividido, com 50% pago pela União, 25% pelo Estado e 25% pela prefeitura.

Mas a Federação dos Municípios diz que os prefeitos são responsáveis por cerca de 60% das despesas de cada UPA. Assim a matemática não fecha.

É a cara de um país que muito sabe gastar e nada em administrar, com o foco de ferrar o povo.