O galo missioneiro

 

Certa vez, perto de Palmeira das Missões, entrei num bolicho, louco de fome.

– Tem almoço rápido?
– Frango, arroz, feijão e salada de cebola.
– Pode ser.

O bolicheiro gritou sem levantar da cadeira:
– Nena, o do dia!

Me acomodei num canto para esperar a bóia. Olhei pela janela e quase não acreditei, Nena deu de mão num galo que descansava à sombra de um pé de camélias.

Em menos de dez minutos senti o cheiro da carne fritando.

Em seguida veio à mesa com suas guarnições, ainda em tempo de ver a coxa e a sobrecoxa do franguinho esperneando na panela..

Nossa Gente

Vive num país onde polícia mata bandido e bandido mata polícia
Ladrão anda solto e cidadão em prisão domiciliar
Um país de leis não cumpridas, de constituição falida
Onde quem deve dar o exemplo não cumpre o dever
Do comando paralelo a formação de quadrilha no poder
Não culpe os meninos da vila que vestem Oakley, bermuda e chinelo
Muito menos neste ou naquele que não te seduz
Não se repõe a ordem com um tiro de fuzil
E de quebra, lembrei “favela” que canta o Arlindo Cruz
Tem gente de terno e gravata matando o Brasil.

Foi parcelar o décimo terceiro e descobre que está morto

A informação me foi repassada pelo vereador Dr. Thiago Duarte de Porto Alegre, com a seguinte observação: É de matar!

A quarta-feira, dia 27 de dezembro foi das bruxas para o auxiliar de enfermagem José Carlos de Oliveira Souza, servidor público do município de Porto Alegre e que trabalha no Pronto Atendimento da Cruzeiro do Sul.

Ele foi pela manhã na agencia Banrisul do Bairro Três Figueiras para solicitar o parcelamento do seu décimo terceiro, formula adotada pelo Executivo para pagar o salário dos servidores.

Depois de encaminhar a papelada necessária e certo de que hoje receberia o dinheiro, foi surpreendido pela resposta do atendente que, ao consultar uma lista encaminhada pela Companhia de Processamento de Dados de Porto Alegre – Procempa, ficou sabendo que estava morto.

“Não acreditei, levei um susto e respondi na hora para o atendente – Mas eu tô aqui, vivo, com a minha documentação em dia”, lembra José Carlos.

A sua presença de corpo e alma, no entanto, não foi o suficiente. Iniciava-se um calvário do servidor para provar que não morreu. Recorda que o atendente ainda tentou resolver o caso ligando para a prefeitura, mas foi orientado a encaminhá-lo para a prefeitura “pessoalmente”, ironiza. José Carlos foi até a Loja do Servidor e abriu um processo, ligou para a Procempa e a Secretaria da Administração e não obteve resposta alguma, pelo menos até a manhã desta quinta-feira.

“Me sinto revoltado, injustiçado, sensação de não existência, um fantasma que trabalha a noite inteira” desabafa o servidor, finalizando que “é uma falta de respeito com quem trabalha pela cidade”.

José Carlos vai entrar o ano novo sem o décimo terceiro na conta, mas na convicção de que está vivo, embora tenha que provar.

Regional Tira-Teima e os chorões de São Luis

Recebo o último trabalho de flauta, cordas e percussão do mais antigo grupo de choro em atividade em São Luis do Maranhão, o Regional Tita-Teima fundado em 1973.

Link músicas – https://www.youtube.com/channel/UCsWYrpnGQr_wx5pWjdgSwPw

De passagem por Porto Alegre a caminho do Uruguai, o Paulo Trabulsi e a Edvânia Katia, produtores musical e executivo da obra, jantaram lá em casa e entre um fettuccine e algumas taças de vinho, conferimos as 13 faixas do – Gente do Choro -, titulo do disco e, de canja, outra música inédita apresentada dias antes no festival de choro de Curitiba.

Tira Teima

De uma qualidade incomparável, cada faixa é um passeio pelas rodas de choro nos bares, ruas e vielas da cidade de São Luis, Patrimônio da Humanidade com seus azulejos e casarões. Cada acorde tem um pouco da cidade e revela a riqueza, o acervo deste gênero musical, vias de se tornar Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil.

O choro é livre, sim, mas eu prefiro que ele flutue entre a gente e não se enverede mundo a fora. Vai que não volte e nos deixe pra sempre.

 

O público e o privado viram jogo na visão dos pequenos

Na Feira do Livro de Porto Alegre o jogo é aberto com lançamento do livro “Boquinha Livre”. Nesta quinta, dia 9 a partir das 14h30min na Praça da Alfândega.

Boquinha

A diferença entre o público e o privado é tema de um jogo criado por um grupo de crianças em situação risco. Quem tiver curiosidade em saber como funciona vai ter a oportunidade de ver e jogar na Feira do Livro de Porto Alegre, no dia nove de novembro no Espaço do Conhecimento da Petrobras, na Praça da Alfândega. De quebra pode sair com o livro, que explica a sua função social e de como foi pensado, devidamente autografado pelos chamados “Boquinhas”.

O projeto Boquinha, do qual as crianças participam, existe desde 2003. A ideia de trabalhar o público e o privado com as crianças nasceu a partir do Fórum Internacional do Software Livre de 2017. O tema “Comunicação e Informação Aberta para a Sociedade” gerou a pergunta, “O que é público e privado?” para discutir e trabalhar o que é comunicação aberta com as crianças.

A partir do tema gerado ou pauta, “começamos a trabalhar a ideia que vai para as páginas do Boquinha do Jornal Boca de Rua”, explica Margareth Rossal, coordenadora do projeto e autora da obra. O projeto, que funciona uma vez por semana num espaço cedido pelo Sindicato dos Petroleiros, no Bairro Cidade Baixa, passou a visitar locais para identificar as diferenças na cidade escolhida – Porto Alegre. Foram vários passeios incluindo parques, Universidade Federal, museus e uma tentativa frustrada de conhecer a TVE. Nas visitas as crianças puderam identificar as diferenças, entre elas, a facilidade de acesso e deslocamento. No final elas propuseram um jogo para explicar a outras crianças as diferenças descobertas no trabalho de campo. “Foi aí que começamos a montar o jogo de reflexão, pesquisa e imaginação Boquinha Livre”, comenta Margareth Rossal, que também relata no livro, a trajetória das crianças que passaram pelo projeto em quase quinze anos de estrada. O livro, com edição e capa de Rosana Pozzobon, recebe o apoio e parceria da Associação Software Livre -ASL, que patrocina a publicação.

Boquinha2

O lançamento do Boquinha Livre ocorre nesta quinta-feira, dia nove de novembro, às 14h30, na Feira do Livro de Porto Alegre, com sessão coletiva de autógrafos (com a presença das crianças). Os exemplares estarão disponíveis na praça de autógrafos e na banca da livraria Palmarinca na Feira do Livro.

Paralelo ao lançamento, o Jogo de Reflexão, Pesquisa e Imaginação Boquinha Livre, estará montado na Casa do Conhecimento Pedtrobrás, em frente ao Banrisul. O público poderá participar, jogando com as crianças.

Ficha Técnica:

Crianças que participam do projeto Boquinha: Alexandre Barbosa Zoli (14), Augusto Dexheimer Aldabe (13), Derik Yuri Garcia (6), Erik dos Santos Teixeira Oliveira (13), Julia Monteiro (13), Kelvin Gabriel Garcia da Silva (7), Rakeli Paz Paiva (6), Mitiziane Paz Paiva (13), Wilson Dexheimer Aldabe (14).

O projeto conta com a parceria de especialistas em educação e tecnologia como o professor Evandro Alves da Faculdade de Educação (Faced), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs); Sofia Tesler, psicologia (Ufgrs); Carlos Castro da Associação Softwere Livre (ASL); Paulo Livi (tecnologia ASL); Sergio Mota (elétrica ASL) e do Sindicato dos Petroleiros do Rio Grande do Sul (Sindipetro), além da Rede Boquinha integrada pelas voluntárias Elaine Paz, Rosana Pozzobon e Victoria Rossal Damiani.

ALICE: Maria Margareth Lins Rossal, Cristina Pozzobon e Rosina Duarte.

As bicicletas de Colinas

 

Imagina você, antigamente, subindo um morro de bicicleta, sem marcha, numa única engrenagem, uma só roseta para alavancar o pneu traseiro pra te levar para o alto. E na descida, controlando o freio nos pedais e, se escapasse a correia viraria um tendéu.

Subir morro de mula, cavalo ou carroça puxada por bois ainda vai, mas de bicicleta, para se chegar ao topo é penitência.

Pois para contrariar qualquer cálculo da física eis que surgem as bicicletas de Colinas. Sim, uma cidadezinha encantada no vale do Taquari.

Antes de cruzar a ponte do Rio Taquari em Estrela, vindo de Porto Alegre em direção ao norte gaúcho pela BR 386, vai ver uma plaquinha com uma seta indicando que a cidade de Colinas fica logo ali.

Anda uns dez ou quinze minutos de carro, não marquei a quilometragem, mas é uma estrada boa, asfaltada, cortando plantações e vilarejos, como o do Costão, dos Chocolates da Sirlei, lugar para tomar um capuchino e saborear as delícias do cacau num ambiente aconchegante.

Mais adiante você vê uma bicicleta, sem uso, em cima de um telhadinho e pensa que alguém colocou lá pra bonito, não dá lá muita atenção, mas vê outra e em seguida mais outra.

– Que é que faz tanta magrela velha na beira da estrada?

Aquelas primeiras aparições são apenas uma mostra para o que vem depois. Entrando em Colinas é bicicleta prá todo lado e ninguém para pedalar.

Aí fui perguntar ao prefeito:

– Mas que diabos tantas bicicletas sem usuários?

– Elas foram doadas por moradores, não as usavam mais de tão velhas e viraram ponto turístico.

Sim, nelas desfilam coelhinhos na páscoa, papais-noéis no natal e viram jardins suspensos na Festa das Flores.

Mas aí a pergunta que não sossega:

– Por que tanta bicicleta em Colinas?

Pode ser que os moradores não se importam pedalar colina acima e morro abaixo.

Exagero meu, a cidade não fica lá no alto, é uma elevação, banhada pelo Rio Taquari que fica um pouquinho mais abaixo. Nenhum sofrimento para se chegar pedalando. Como recompensa você encontra uma cidade bem cuidada, limpa, conservada, com ares europeus e caramanchões públicos que fazem sombra para um mate. Nem precisei de tempo para ver que o povo é hospitaleiro. As pessoas te cumprimentam e são atenciosas quando se pede informação. Parece uma daquelas cidades em extinção, que só existem nas lendas. Não sei bem porque, mas quando eu escrevia esta crônica me veio à mente algumas cenas do filme de animação francesa – As Bicicletas de Belleville, com suas ilustrações maravilhosas.

O prefeito Sandro Herrmann e a secretária Raquel Dihl, já foram avisando que vem aí a ciclovia ligando Estrela, Colinas e Imigrante. Serão 37 quilômetros de pista lisa unindo as três cidades. Os adeptos aos passeios sobre duas rodas já podem planejar seus roteiros Tour De La Colline, por entre os vales. Sou até capaz de me aventurar, afinal, bicicleta não vai faltar, tem mais de sessenta disponíveis nos passeios públicos de Colinas e como sou zero a esquerda no pedal, tanto faz elas andarem ou ficar paradas.

 

Se for contra a Globo, compartilha. Mas não é bem assim.

Ando recebendo vídeos pelas redes sociais com mensagens contra a Rede Globo, repassados por pessoas que, sei de fonte segura, não são de direita. Mas no afã de ser contra a Globo ficam compartilhando.

Cabe lembrar duas diferenças básicas que, de cara, revelam as características de esquerda e de direita neste país, a começar pela cabeça que é o que aparece nas selfies.

As cabeças da direita têm cabelos engomados, as da esquerda, espetados.

A direita é feita num salão “Top Hair”, a esquerda em qualquer “Top Hairrível”, com placas promocionais na fachada.

Os vídeos da direita tem fundos produzidos com marcas americanas, os da esquerda, quando muito tem ao fundo uma placa da Skol. Coxinha adora Budweiser pra chamar de Bud, pobre prefere Schincariol pra chamar de Skin.

Agora, os dois tem raiva da Globo, mas não desligam do Huck. Os riquinhos pra ver como ele se veste e os pobres porque adoram uma lata velha.

Então, se você passar por um protesto contra a Globo, antes de se juntar a ele, observe algumas diferenças básicas como as palavras de ordem por exemplo.

Se for: Globo FDP; que atente a moral e bons costumes; que pedem o fechamento de museus; que condenam o nu e querem exclusividade apenas nos seus smartphones de luxo para compartilhas com amigos; que identificam pedofilia em qualquer expressão artística que tenha adultos e crianças; que acham que um homem em cima de um cavalo é zoofilia; que odeiam ser contrariados; que ameaçam de morte e pedem a volta dos militares. Cuidado ao compartilhar, esta não é a tua praia.

Agora, se a manifestação nas redes sociais é para apurar os desvios dos recursos para a atenção básica; da merenda escolar dos filhos; desvendar a composição da ração do Dória; o que tem de prejudicial no balcão de negócios do Temer; que revelem, em capítulos de novela, o verdadeiro crime da Dilma, aí você estará na sua praia, pode mergulhar de cabeça e explorar as profundezas, e compartilhe.

O casamento de Libra

Dona Libra era casada com o seu Álvares da marcenaria, vizinhos da Morgana, a cartomante que abria caminhos e desvendava os mistérios das cartas. As tábuas que oficineiro transformava em mesas e cadeiras eram plataformas para consultas da cigana que atendia em domicílio.

Morgana também arranhava no alinhamento dos planetas e cartografava mapas sobre as posições dos zodíacos. Desfez muitos namoros e casamentos em suas análises simbólicas carregadas de desconfiança e medo à vida conjugal dos nubentes.

– O Armindo não combina com a personalidade da Marlene, que não serve para o Nestor, que não ama a Ritinha como ele acha que gosta e, muito menos a Dorotéia, que se derrete para o Waldemar e acha que só falta o cavalo branco pra ele ser o seu príncipe encantado.

Assim ela ia levando no bico e arrecadando trocados dos tricôs e bordados das donzelas que gastavam suas economias nas previsões da vidente.

Libra, no entanto, nunca quis saber nas cartas, como era a sua vida com o Álvares, nem desconfiava que poderia existir algum conflito entre os signos. Se fosse pela cigana o “espelho da hora”, poderia condenar a sua vida conjugal. Mas como nunca teve curiosidade o tempo foi passando sem que a Morgana percebesse que Libra era de outubro, Álvares de escorpião.

… e viveram felizes para sempre.

 

 

 

Reforma da casa da Mãe Joana

 

Sabe aquele julgamento à revelia onde a parte citada nem é chamada, e se for, pouco adianta porque os justiceiros fazem o que bem entendem? Pois é, estamos revivendo esta fase de rebeldia dos poderes que se julgam e se protegem e decidem o que é melhor, para eles.

Uma rede de proteção contra a vontade do povo.

O que não me favorece eu condeno, eu tenho a caneta, eu tenho o poder, assim, eu mando. Já te tiraram da pauta, agora é a hora de você acabar com os privilégios, a gandaia, a revelia.

Em outubro de 2018, a reforma começa retirando os moveis antigos, já condenados pela falta de compostura. Você é o juiz, portanto, faça.

As notas vermelhas

 

Seu Boaventura, avô de Piedade, uma menina de origem portuguesa que estudava numa escola interiorana gaúcha, ele era torcedor fanático do Internacional.

Um dia quando Piedade chegou em casa, portando o boletim com as notas do semestre, levou um xingão da mãe Tereza que avisou:

– Teu pai não vai costar nada de ver tuas notas!

O avô, confidente, não sabia ler, muito menos escrever, mas era um bonachão.

Quando Piedade mostrou as notas, prevendo a bronca do pai, Pedro Bento, Boaventura contemporizou.

– Ficas tranquila miúda, teu pai é colorado e o Inter está ganhando.