Agora pode

– Pai, capitão é mais que general?

– Não filho, até chegar a general o capitão tem que ser major, acho que é  assim.

– Mas tem capitão que manda em general.

– Não filho, não tem, não pode

– E o Bolsonaro?

– O que é que tem ele?

– Tem general abaixo dele

– Bolsonaro é ex-militar

– Mas recebe como capitão, não recebe?

– Acho que recebe sim, mas ele não é mais capitão 

– Mas continua sendo chamado de capitão 

– Isso é eufemismo

– Então é por isso que você chama ele de capitão,  já chamou de mito que eu sei

– Capitão é mais autêntico

– Então você ainda o considera um capitão 

– Digamos que sim, ele é um líder, maior de todos

– Maior que general

– Evidente

– Mas você disse que capitão não pode mandar em general

– Agora pode

 

A célula que não vingou

Foi no Instituto Estadual Cecy Leite Costa de Passo Fundo, na antiga escadaria, tomada por mato, que nos idos dos anos 70 tentamos organizar uma “Célula Revolucionária de Resistência”, que consistiria em ação fulminante contra a direção do educandário que vivia em constante guerra com os insurgentes.

Nossos encontros noturnos, às escondidas, reunia meninos e meninas inconformados com as regras impostas aos alunos que fervilhavam ideias de desobediência em pleno regime de exceção, entre elas: Não podia fumar nos corredores, banheiros ou no pátio, nem dar pinga às Evangélicas ou Testemunhas de Jeová porque elas iniciavam a pregação já no primeiro gole, nem namorar e muito menos gazetear aula para pegar um jogo na TV P&B da Colorado RQ do bar da frente.

Uma noite fomos descobertos pela professora de Ciências que em questão de minutos, destruiu a nossa fórmula revolucionária num “chispam todos que a aula já começou”.

A célula abandonou as escadarias sem escalar, sequer, um degrau da rebeldia.

Francês em alto e bom tom

“laisse tomber le thé”

Foi lá pelos meados de 90 que eu fotografava, com uma Nikon, alguns iates de luxo ancorados em Saint Tropez na Rivera Francesa, tomando um chimarrão.

Um grupo de senhoras com seus cachorrinhos, se aproximou para saber o que eu bebia, (não lembro bem, mas posso assegurar que a Brigitte Bardot estava entre elas).

Numa mistura de vários idiomas, expliquei que se tratava de tea brasilian, ou thé, ou chá, ou mate, ou chimas, enfim, de um jeito ou de outro elas entenderam.

Eis que uma das simpáticas francesinhas da terceira idade, pediu para tirar uma foto ao meu lado, o que prontamente foi atendida. Aí veio outra, outra e mais outra.

Uma das últimas senhorinhas, com o rosto um tanto desfigurado por causa da maquiagem exposta ao calor do mediterrâneo, derretendo e descendo pelas laterais de orelha a orelha, além dos lábios exageradamente pintados de cereja, pediu a cuia e fez menção de levar a bomba à boca.

Prevendo a lambuzeira bomba abaixo, descendo até a erva, tentei interromper o movimento que ela fazia mas, sem conseguir salvar o mate e raciocinar uma frase em francês ao mesmo tempo, apenas gritei:
“No Boté la Bombê en la Boqué”.
Se ela entendeu eu não sei, mas que largou, largou.

Não deu no rádio

– Pai, tô indo pra casa.
– Tá por onde?
– No centro
– Então não venha pela Borges, Loureiro, evite a Salgado e nem pensar a Andradas ou a Sete de Setembro.
– Por quê?
– É que tá tudo trancado por causa das manifestações.
– Tou estacionada na frente da casa de cultura e tá tudo em ordem por aqui.
Mais tarde, em casa.
– Pegou muito trânsito?
– A cidade tá vazia pai.
– Mas no rádio só se fala em trânsito, nunca se falou tanto na vida. A cidade tá um caos.
– Normal
– Sério?
– Tô te dizendo, o Lula só chega as sete.
– O Lula vem aí?
– Sim, não deu no rádio?

O calor afeta o raciocínio bilíngue

Pois a amiga Susana Rangel, em meio a este calorão intenso, perguntou se tenho “airfry” na cozinha de casa.
Respondi que tenho ventilador de teto e justifiquei:
– Ar frio só na sala e nos quartos.
– Deixa de ser bobo guri, tou falando em fritadeira elétrica.
E eu lá ia saber que ela queria fritar hambúrguer sem óleo?!

O malvadinho e a formação do caráter

Duas crianças brincam de gente grande e uma grande ideia começa ganhar formato diante da realidade que presenciam.

O malvadinho diz:

– Esta eleição tá no papo.

O menos radical responde:

– Que tanta certeza?

E o diálogo segue um breve roteiro.
– Vou apelar na justiça, mando prender meu adversário.
– Alegando?
– Que ele roubou meus quindins.
– Mas o cara é diabético, não vão acreditar na tua história.
– O eleitor odeia pobre e ladrão, de quindins, no caso.
– Vai ser preciso um bom lobby.
– Sim, o de que ele comeu quindins com sagu. Ninguém vai perdoar.
– Que culpa tem o sagu?
– O eleitor odeia sagu. Sagu lembra pobreza.

É preciso que o Gepeto desconstrua o Pinóquio

O Brasil fica em segundo lugar no ranking de ignorância sobre a nossa realidade. Só perde para a Africa do Sul. O brasileiro adora uma mentirinha, tanto, que escolheu o Pinóquio para presidente e acredita na mídia de olhos fechados. Ah!! Gepeto, volte logo para consertar o estrago feito.

NO BRETE

Declarações e situações surreais:

… de que a sociedade desrespeita os códigos bases e que o Intercept viola a privacidade, foram duas de tantas pérolas que o presidente do TRF-4 disse agora pela manhã no programa da Rádio Gaúcha. Fica pra mim a “convicção” de que violar e desrespeitar só vale para quem usa capa preta a revelia.

Enquanto isso o MPF tenta se livrar de uma bomba, pra se passar de bonzinho, sugerindo progressão de pena ao LULA antes que o STF o faça. Será que vamos ter uma quarta-feira de cinzas?

Se não conseguirem remover a decisão do Lula, e não vão, de que ele aceite a progressão de regime, certamente o jogarão num cadeião pra demonstração de força e ódio.

O pastor que conquistou a Glória

O cotidiano reserva o inesperado, o inédito. O bom do cotidiano é isso, você não prever o próximo segundo.

No trem, um senhor de cabelos grisalhos, terno e gravata, com o novo testamento nas mãos senta ao meu lado e depois de um tempo orando, quase chegando na estação, me conta que conquistou a glória com a palavra de Deus.
Perguntei sobre a conquista, do que se tratava e se a cerimônia foi recente tendo em vista a fatiota que vestia.
– Tou indo agora pra me casar com ela.

– Então a Glória é uma mulher?

– A cerimônia é às dez.

Sim, era uma Glória de carne e osso.

Conversa de adultas


Conversa de duas senhorinhas, na casa dos 80 anos pra mais, numa clínica de alto padrão em Porto Alegre na manhã de hoje:
– A empresa que a minha filha trabalhava fechou as portas e ela tá tentando ao menos se aposentar.
– O meu filho vendia roupas, fechou a loja. Quem vai comprar roupas?
– Todo o mundo sem dinheiro.
– Tem que guardar para comprar remédios e comida.
– Sim, metade do que se ganha vai em remédio.
– E a comida não fica pra trás.
– O quê que tá acontecendo, meu Deus?
– Tava dando tudo certo, mas deu esta guinada.