O malvadinho e a formação do caráter

Duas crianças brincam de gente grande e uma grande ideia começa ganhar formato diante da realidade que presenciam.

O malvadinho diz:

– Esta eleição tá no papo.

O menos radical responde:

– Que tanta certeza?

E o diálogo segue um breve roteiro.
– Vou apelar na justiça, mando prender meu adversário.
– Alegando?
– Que ele roubou meus quindins.
– Mas o cara é diabético, não vão acreditar na tua história.
– O eleitor odeia pobre e ladrão, de quindins, no caso.
– Vai ser preciso um bom lobby.
– Sim, o de que ele comeu quindins com sagu. Ninguém vai perdoar.
– Que culpa tem o sagu?
– O eleitor odeia sagu. Sagu lembra pobreza.

É preciso que o Gepeto desconstrua o Pinóquio

O Brasil fica em segundo lugar no ranking de ignorância sobre a nossa realidade. Só perde para a Africa do Sul. O brasileiro adora uma mentirinha, tanto, que escolheu o Pinóquio para presidente e acredita na mídia de olhos fechados. Ah!! Gepeto, volte logo para consertar o estrago feito.

NO BRETE

Declarações e situações surreais:

… de que a sociedade desrespeita os códigos bases e que o Intercept viola a privacidade, foram duas de tantas pérolas que o presidente do TRF-4 disse agora pela manhã no programa da Rádio Gaúcha. Fica pra mim a “convicção” de que violar e desrespeitar só vale para quem usa capa preta a revelia.

Enquanto isso o MPF tenta se livrar de uma bomba, pra se passar de bonzinho, sugerindo progressão de pena ao LULA antes que o STF o faça. Será que vamos ter uma quarta-feira de cinzas?

Se não conseguirem remover a decisão do Lula, e não vão, de que ele aceite a progressão de regime, certamente o jogarão num cadeião pra demonstração de força e ódio.

O pastor que conquistou a Glória

O cotidiano reserva o inesperado, o inédito. O bom do cotidiano é isso, você não prever o próximo segundo.

No trem, um senhor de cabelos grisalhos, terno e gravata, com o novo testamento nas mãos senta ao meu lado e depois de um tempo orando, quase chegando na estação, me conta que conquistou a glória com a palavra de Deus.
Perguntei sobre a conquista, do que se tratava e se a cerimônia foi recente tendo em vista a fatiota que vestia.
– Tou indo agora pra me casar com ela.

– Então a Glória é uma mulher?

– A cerimônia é às dez.

E eu lá ia saber de que glória ele falava?!

Conversa de adultas


Conversa de duas senhorinhas, na casa dos 80 anos pra mais, numa clínica de alto padrão em Porto Alegre na manhã de hoje:
– A empresa que a minha filha trabalhava fechou as portas e ela tá tentando ao menos se aposentar.
– O meu filho vendia roupas, fechou a loja. Quem vai comprar roupas?
– Todo o mundo sem dinheiro.
– Tem que guardar para comprar remédios e comida.
– Sim, metade do que se ganha vai em remédio.
– E a comida não fica pra trás.
– O quê que tá acontecendo, meu Deus?
– Tava dando tudo certo, mas deu esta guinada.

A trama dos carniceiros e o trágico fim do veterinário fiel

O grupo de hienas, por sua natureza, não abatia presas preferindo a carne morta. Se diziam do bem, porém, carniceiras.

Certo dia chegou ao Parque Nacional um veterinário com a missão de cuidar de todos os animais diminuir a quantidade de mortes. E as mortes diminuiram drasticamente com medidas simples como o acesso as melhores pastagens, periodo de descanso dos animais, reforço nas vitaminas como se frequentassem restaurantes,  se sentiram no direito e segurança de fazerem passeios pelos lugares até então permitido somente à elite da floresta, ou seja, presas e predadores em potencial que exploravam manadas de ponta.

As hienas extremamente covardes ficaram inquietas, incomodadas com a escacez de comida. Temendo a fome bolaram um plano.

A matriarca subiu na pedra mais alta e, de capa preta, sentenciou.

– Prenderemos o veterinário ou vamos morrer de fome.

A trama era ousada para convencer as zebras e os gnus a ficarem do lado delas. A proposta era inventsr mentiras pars enfraquecer o veterinário e aniquilar qualquer tentativa de manter seus cuidados com as manadas.

– Espalharemos por toda a savana o boato de que o veterinário que parece tão bonzinho e dedicado, no fundo quer se adonar das terras para especulação imobiliária transformando o lugar num empreendimento comercial para atrair os humanos. Disse a matriarca.

Se associaram aos urubus para espalhar as fake news, afinal, eles também estavam sendo prejudicados pela ausência de mortes.

A noticia foi pelos ares, amplamente divulgada pelos abutres que não cansavam de repetir a mesma informação. Por terra, o clã de hienas se encarregava de arregimentar adeptos ao plano. As fake iam desde a criação de jaulas e cercados para  exposição dos rebanhos aos turistas, até mesmo a criação de grandes abatedouros para a exportação da carne dos animais confinados. Boa parte da savana caiu na conversa das sacanas.

No dia seguinte, todos cercaram a cabana e o veterinário não pode sair para tratar os animais, muito menos para pedir ajuda.

Em pouco tempo zebras e gnus foram morrendo, doentes pela falta de cuidados. Os carniceiros organizaram grandes banquetes.

O veterinario desesperado fugiu durante um momento de desatenção da guarda mas, com fome e muito desidratado ficou no caminho, morreu e também foi devorado.

Os carniceiros retomaram a savana, zebras e gnus também voltaram a rotina de escravidão e medo, concientes de que ajudaram os inimigos a aniquilar seu protetor.

 

 

 

INCOERÊNCIAS

 

BLINDAGEM – Enquanto a verdade nua e crua aparece nas revelações do The Intercept, compartilhada pela parte coerente da mídia brasileira, grandes redes de comunicação continuam caladas temendo o pior. De outra parte as instituições com poder de polícia, como a Federal, procuram rastrear a origem das denúncias, quando deveriam prender o chefe.

ÉTICA – As notícias mais recentes captadas pelo vazamento dão conta de que o irrefutável procurador da República das laranjas cobrou um valor módico de 30 mil cédulas para dar uma palestra e exigiu passagens e hospedagens para a família toda num hotel de luxo a beira mar no nordeste brasileiro. A palestra foi sobre ética e combate a corrupção.

PERGUNTAS – Por fim, outra noticia não menos grave, aliás, não tem noticia leve nos vazamentos, é de que Moro e Deltan queriam desviar uma graninha, dinheiro público da 13ª Vara Federal para fazer propaganda da Lava Jato. Ora, não precisa entender de marketing para concluir que a operação dos sócios da república de Curitiba sempre esteve presente na mídia, 24 horas por dia, sete dias por semana em todos os dias do ano, de forma gratuita. Publicidade pra quê, ou melhor, para beneficiar quem ou o quê?

 

As cotas e os filhos da cocota

Ingressar numa universidade pública pelo sistema de cotas e concluir o curso com um alto conceito me faz pensar: Quantos excelentes trabalhos de pesquisa foram deixados para trás por dezenas, centenas de anos, nos tempos em que os estudantes egressos de escolas públicas sejam negros ou brancos, não tiveram a oportunidade de se destacar num campo reservado aos alunos de melhor poder aquisitivo? Por que esta sede tacanha para privatizar a educação e retirar dos mais pobres o direito ao curso superior de qualidade? Quem está por trás de todo este processo?

Pois eu fui lá, amparado no sistema inclusivo de cotas, egresso de escola pública, meti a cara aos 57 anos de idade e conclui, cinco anos depois, o que eu jamais imaginaria alcançar.

A ousadia valeu a pena, houve o reconhecimento a um trabalho até então inédito de pesquisa juntando a profissão que exerci por 40 anos e a sala de aula. O jornalismo e a pedagogia têm suas esquinas por onde cruza o fazer do conhecimento. Um sistema de ensino só estará falido quando censurar o acesso à informação desde os primeiros anos de escola.

Vivemos um momento ameaçador em que a democracia e a pluralidade estão sendo forçadas a abandonar os bancos escolares e, o duro golpe de sucateamento das universidades, ódio das cotas que afrontam os filhos mimados da dona cocota.

Os carrascos do conhecimento retiram os direitos e conquistas dos estudantes e trabalhadores, menosprezando a constituição. Vestem a capa da liberdade e da igualdade, cobertos de maldade. Já o cara que abriu as portas do ensino superior nas universidades públicas para os pobres e negros, dando condições de acesso ao ensino superior, está preso.

Narradores de fogão

 

Vinham na escuridão da noite e contavam histórias tenebrosas como se elas fossem de verdade. Podia ser um vizinho ou parente. Enquanto borbulhava a carne para o caldo da sopa sobre a chapa quente, a lenha seca estalava e as lascas verdes tocavam músicas. Nós, crianças, ficávamos recolhendo na ponta do dedo a espuma da lenha que cintilava e cheirava lamentos de uma grande arvore que se transformou em fragmentos, mas que ao mesmo tempo resplandecia o perfume da madeira. Eram noites mágicas de frio seco ou úmido que recolhia para dentro das casas todo e qualquer ser vivo que habitasse desde os oitões telhado as profundezas dos porões de terra.

Os fogões esquentavam as casas e traziam para junto deles as noticias do vilarejo. As narrativas não tinham tempo nem ordem, elas iam surgindo de acordo com quem chegasse e se juntasse às conversas. Muitas vezes o simples fato de um gato caçador de ratos ter feito um estrago no celeiro era um gatilho para disparar, com boa dose de crueldade, longas fábulas e lendas de lobos e dragões que todos os anos atacavam as aldeias em busca de alimentos, entre eles, porcos e carneiros.

Qualquer uivo que ecoasse nas madrugadas deixava as crianças agitadas e os adultos atiçavam o medo aumentando o poder da imaginação e dos apuros do lado de fora. Era uma forma de mostrar aos pequenos os perigos do mundo.

 

É preciso separar o bem do mal

Há de se entender a revolta das pessoas de bem contra o juiz paladino e seu fiel escudeiro, um procurador da república, mas o que eles fizeram e fazem por debaixo dos panos não é regra institucional. MP e Judiciário não podem ser pré-julgados pela balbúrdia deles e dos seus rebanhos.

Antes de jogar fora o cesto de laranjas, separe as boas das podres. As piores sempre estarão agindo às escondidas procurando contaminar o balaio.

Você sairá no lucro.