O Var complicou o Vuaden

Na velada cotovelada do André no Moledo, Vuaden titubeou mas achou que aplicando o cartão amarelo reolveria tudo, afinal a falta pra vermelho não foi cometida pela equipe vermelha. Aí o juiz do Var viu aquilo que Vuaden viu mas fingiu que não viu e constrangeu o árbitro a reavaliar sua decisão. Visivelmente contrariado ele foi conferir no vídeo e por pura convicção, não por justeza, cometeu uma injustiça. Aí o Renato, que até então apitava o jogo resolveu complicar, mais um constrangimento pro Vuaden que, pra não deixar passar barato, puniu com o cartão amarelo um reserva colorado.

Convite para conhecer um sítio em Batatuba

 

Um amigo me convidou para passar o fim de semana no sitio dele e eu mais do que depressa agradeci, não sem antes fazer uma exposição de motivos.

Eu disse a ele que: Prefiro receber 60 milhões da JBS; dinheiro ilícito da Transpetro; receber propina de Furnas e da Odebrecht; me envolver no escândalo da Petrobrás; guardar mais de cinquenta milhões em caixas de papelão em um apartamento qualquer; mandar construir com dinheiro público um aeroporto dentro de uma fazenda particular; ser dono de um helicóptero carregado com coca; ter uma conversa gravada, ouvida, compartilhada e não dar em nada; receber caixa dois, se arrepender e pedir desculpas só depois de descoberto; ampliar prazos para exploração de empresas portuárias em troca de milhões de cédulas;  chefiar quadrilhas e milícias… blá-blá-blá. blá-blá-blá, blá-blá-blá e, o mais interessante, dirigir confortavelmente um Dodge e um Fox, perdão, um Fux.

Tudo isso é  muito mais seguro do que ir ao teu sítio, disse a ele. Vai que eu esqueça minha cueca dependurada no varal e eles localizam?

Ilustração do Daniel Cruz

 

 

 

A última ceia

 

Quem é mais importante na conservação e preparo dos alimentos?

Pois houve um conclave para discutir a utilidade dos utilitários. Porém, não contavam com  o elementos surpresa, uma espécie de Judas que invadiu a ceia para crucificá-los.


Ilustração, Daniel Cruz

Foi num jantar na grande mesa dos eletrodomésticos. Eram doze no total, mas um estava atrasado. Assim mesmo iniciaram a grande conferência. A geladeira por ser a maior de todas destacou a sua importância na vida das pessoas, afinal, sem ela não tinha como conservar alimentos e nem água gelada para os dias de calor como o de hoje em Porto Alegre.

– Não fosse por mim a comida estragaria e haveria uma grande epidemia, disse a Consul que não era bem uma Brastemp.

O micro-ondas evidenciou a sua agilidade no aquecimento dos alimentos o que desagradou o fogão a gás que se sentiu rejeitado. O forno elétrico também não gostou nada do que ouviu e ameaçaram defenestrá-lo do quinto andar,  mas foram impedidos pela cafeteira que serviu um expresso passado na hora, evitando uma cisão.

Já a grelha disse que unia os casais, deixava o jantar mais romântico, ao passo que o réchaud se vangloriava:

– Não tem jantar romântico sem a minha presença, queijos e vinhos é a minha especialidade.

O split aproveitou a deixa para lembrar que é ele quem aquece o ambiente durante e depois do jantar.

O chuveiro lembrou que é dele o banho quente.

A máquina de lavar reivindicou os louros.

– Afinal, quem limpa a sujeira das louças deixadas na cozinha?

O mixer, que até então estava quietinho, ouvindo tudo, resolveu se rebelar e disse que sem ele não haveria preparo de alimento algum.

– Eu trituro, eu fatio, eu misturo eu tenho 1001 utilidades.

Foi quando entrou na sala, atrasado, o liquidificador, de sombreiro vestindo roupas de caubói, arrastando as botas e cuspindo ódio.

– Além de não me esperarem para iniciar a ceia, sou obrigado a ouvir deste nanico que ele é mais importante do que eu! Exclamou aos berros, ameaçando transformar todos em suco.

A turma do deixa disso tentou acalmá-lo, mas, ele estava incontrolável, se sentido dono da razão e da verdade. Os ânimos estavam alterados o consumo de energia aumentou, já era alta voltagem na veia, o ambiente estava prestes a explodir e o liquidificador, uma arma perigosa reconhecida por lei e se sentido poderoso nesta condição, resolveu acabar a celebração. Disparou suas lâminas contra a caixa de luz interrompendo o fornecimento do sangue energizado a esta altura bombeado com a pressão de uma comporta de Itaipu. O corte abrupto atingiu o coração de cada eletrodoméstico, todos morreram na hora, inclusive o liquidificador que, por se achar acima da lei, de longe imaginava que poderia sucumbir com a sua própria arma.

 

João da Grelha e a fisioterapia caseira

Era um mão de vaca, sovina, pão duro, miudeiro como se diz lá em Colorado. Frequentava a academia, a fisioterapia. Pagava por ela porque o convênio não cobria. Certo dia, do alto da sua sabedoria, concluiu que se comprasse uma bola suíça seus gastos acabariam. Encomendou uma pelo Amazom, custou o mesmo que uma sessão na clínica. Resolveu que iria fazer em casa sua própria academia. Mas tinha um porém, os eletrodos, o tratamento de choque que recebia em cada consulta.

Não teve dúvida, abriu a grelha que usava para fazer o churrasco dominical, espalhou sobre ela um pacote de eletrodos de aço carbono, há anos guardado, comprou de barbada na internet. Um erro primário, os eletrodos não são aqueles usados na físio, só tem o mesmo nome. Conectou a grelha ao interruptor da parede e cobriu com um colchonete emborrachado.

Depois dos alongamentos, João deitou-se na grelha, antes deu uma conferida para se certificar de que tudo estava isolado. De certa forma estava, menos a bunda que ficou encostada no cabo da grelha. Ao acionar a chave ouviu-se um berro muito alto, um grito de horror, seguido de um cheiro forte de carne assada.

A perícia não reuniu os elementos necessários para concluir o trabalho e arquivou o processo por falta de informações, era impossível calcular como ele fez aquilo. João não sobreviveu para contar a história.

A mídia na escola da EJA

Escrever um jornal a partir do aprendizado em sala de aula requer pauta, prática e conhecimento das plataformas digitais, coisa que para um professor migrante às novas tecnologias se apresenta como um desafio e tanto. O máximo que consegue, com muito esforço, é configurar num modelo do Word toda a produção dos alunos. No final, o simples torna-se plausivel. Sim, os registros dos alunos de EJA do CMET Paulo Freire de Porto Alegre, ganharam forma, fotos, ilustrações e a publicação. Todas as fases contempladas e, como recompensa, o reconhecimento de um trabalho onde as lembranças pessoais foram transformadas em fonte de informação.

Veja no link –  Jornal EJA da turma 307 do CMET

Os bastidores da notícia

 

A inserção do aluno no contexto da mídia para que, através dela, o estudante, de qualquer idade, forme sua capacidade de pensar o cotidiano, me parece fundamental em sala de aula. Comprovei que a leitura critica da mídia se faz necessário, trabalhando com uma turma de Educação de Jovens e Adultos do Centro Municipal de Educação dos Trabalhadores – CMET Paulo Freire de Porto Alegre no segundo semestre de 2018. Lá foram aplicados conteúdos procurando levar o aluno a pensar sobre o todo que o cerca. Uma visão questionadora e libertária do pensamento próprio, que passa pela leitura e discussão dos temas da atualidade relacionado às suas memórias. A releitura da infância no contexto atual.

Numa das etapas fomos conhecer as redações de um dos mais antigos e tradicionais jornais do país, o Correio do Povo em Porto Alegre e da Rádio Guaíba.   Eles traziam na memória, o que se pode chamar de – doces recordações de criança. Tanto o rádio como o jornal fizeram parte da vida deles. Chegou o dia em que, finalmente, conheceram  os bastitodres da notícia. O relato está no linck a seguir, num texto coletivo da turma de alunos contando o que viram lá, tirando suas próprias conclusões.

Acesse aqui: Relatos visita correio do povo e rádio guaíba

 

 

A transformação de coxinhas em escondidinhos

 

Li nas redes sociais – “A trasformação dos coxinhas em escondidinhos” o que nada mais é do que um jeito metafórico de se dirigir aos que bradaram pelo capitão. Sim, os indignados sumiram.

Enrolados na bandeira da moralidade, os da turma do face debandaram em revoada migratória, não aparecem mais para difundir o ódio e espalhar veneno; andam escondidinhos da família justificando prosa pra não aparecerem nas festas de fim de ano; os do trabalho entram cabisbaixos e saem de fininho; os conhecidos trocam de calçada e eu vou seguindo o meu caminho de cabeça erguida e prestando muita atenção nesta virada que tem um motorista, que não é o mesmo do Collor, na contramão dos  planos de lisura de um anticristo que usou e abusou de um Deus que não é só dele, uma pátria que também não é só dele e da família dele.

 

Um gremista do bem

Convivi com o Frecha Negra nos meus tempos de Câmara de Porto Alegre. Solícito, simples e de boa prosa. Diabético e fumante. Alma sem maldade assim como era dentro das quatro linhas do gramado. Não jogou no meu time porque não quis, o Colorado, com certeza, teria sempre uma camiseta e um lugar reservado no campo para ele.

O Flecha ou Flexa, como queiram, porque sempre escreveram dos dois jeitos, deixou um legado para as novas gerações do futebol. O mineirinho leve, de futebol leve, de chute não muito leve, de peso leve, que Deus o leve. Vai em paz Tarciso, o futebol perde um jogador, o parlamento um vereador.

Sua majestade, o veneno

 

No RBS Noticias da TV o desespero dos produtores de vinho e azeite de oliva com o veneno 2,4 D, usado nas lavouras agrícolas antes de serem plantadas. O vento carrega a morte de milhares de parreiras e oliveiras. Acompanhei a luta dos produtores para introduzir do meio do Rio Grande do Sul para baixo, novas culturas de sustentabilidade para pequenos e médios produtores.

Foram décadas de pesquisas e experimentos destruídas por aviões envenenados a serviço da ganância do agronegócio. Só num município, Jaguari, a produção de uva caiu de hum milhão para 450 mil toneladas e este ano a previsão é que a quebra seja de mais 30 por cento.

O que se esperar de um país em que a rainha do veneno é a futura ministra da agricultura?

A tão famigerada economia desta parte do estado pode acabar em abandono da produção de vinho e azeite de oliva. É só mais um sinal da cegueira que se institucionaliza governo após governo, modelo passado adiante cada vez com mais agressividade. Os venenos banidos dos países ricos são jogados nos campos do Brasil, com rainha e tudo.

Esta é a mudança.

 

O espelho sem face

Acordo em Passo Fundo e enquanto preparo o chimarrão ouço o locutor no rádio comemorar a lista de ministros e dos partidos que estão do lado do presidente eleito, afirmando que agora homem só casa com mulher, que trabalhador vai ter que se submeter às leis do patrão senão fica sem emprego, que neguinho tem que levar pau mesmo se não obedecer às regras do novo comandante que vem aí, elencando uma série de outros comentários que beiram a destruição da raça que ele chama, pelo o que eu pude entender, inferior.

Não demorou nem um segundo para lembrar o livro – Ensaio sobre a cegueira, em que José Saramago já alertava sobre uma epidemia branca que se espalhou incontrolavelmente numa cidade, resguardando os cegos em quarentena, reduzidos à essência humana. Recolhidos a um manicômio, quem podia enxergar se fazia de cego evitando que as pessoas se aproveitem da sua condição, além das gangues que se formam dentro desta microssociedade com o surgimento de lideres que procuram tirar vantagem sobre outros na mesma condição de cegueira.

Não vejo problema algum, enquanto tomo um mate, relacionar a obra do escritor português ao comportamento de boa parte dos brasileiros que, de um bom tempo para cá, vem elegendo os que se posicionam por meio dos discursos de intolerância, violência, preconceito e sobretudo, a total incoerência em tudo o que dizem, prometendo acabar com os malfeitores que roubam a nação. Políticos que para atrair a confiança do eleitor sopram fúrias aos quatro ventos afirmando que lugar de condenado (leiam-se, ministros do futuro governo), é na cadeia, que a constituição é soberana e por aí vai. O que se vê são brandidos condenados e o que deveria ser justiceiro integrados no mesmo grupo. Um juiz submetido às regras dos delinquentes.

Os cegos elegeram Donald Trump. O guru da direita, Olavo de Carvalho, doutrinou milhões com sua fake visão, ocupando um vazio desprezado pela esquerda, elegendo o mais improvável.

É preciso recuperar a lucidez e resgatar o afeto desta legião de peregrinos que se jogaram confiantes numa aventura sem a mínima segurança. José Saramago nos obriga a fechar os olhos e ver “uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos”.

Pronto, desligo o rádio e vou preparar o café.