É preciso desconstruir o Pinóquio

O Brasil era, até bem pouco tempo, o segundo colocado no ranking de ignorância sobre a nossa realidade, só perdia para a África do Sul. Agora deve estar em primeiro. O brasileiro à direita, gosta de distorcer os fatos, persistir no erro, adora uma mentirinha e por gostar tanto de bofeira, elegeu um Pinóquio para inflar sua ira e satisfazer seu ego. E cá estamos ferrados nas mãos de um aloprado.

Ô Gepeto, vê se vem logo consertar o estrago.

Por pouco

 

Entrei na sorveteria naquela tarde pensando nos sabores a escolher. Logo vi um homem alterado na voz, chamando pela filha pequena. O cara era uma tora, cada braço dava uma perna, das minhas, o pescoço era a minha cintura, com folga, a testa mais parecia uma plataforma de retroescavadeira apropriada para quebrar ossos, começado pelo nariz. O tênis de cor acinzentada parecia uma sapata de sustentação de um prédio de oito andares.

Peguei a casquinha e me aprumei para recheá-la, quando ele repetiu:

– Perto do pai, fica perto do pai.

A menina veio na minha direção, agarrando a minha perna.

– Eu falei perto do pai, disse ele com uma voz ainda mais exaltada.

A menina apertou ainda mais a minha perna, que estava mais gelada do que os sorvetes no freezer.

Foi quando uma mulher se aproximou, pegou a criança pela mão dizendo:

– Vem com a mamãe, deixa o papai servir o sorvete.

O clima não ficou dos melhores já que, afinal, a mãe não deu pistas sobre quem é o pai? Era o mínimo que a clientela esperava.

Larguei a casquinha, já esmigalhada e ingressei na calçada da Rua. Disparei sem rumo, como se passasse da primeira pra quinta marcha num piscar de olhos e sem olhar para trás. Juro que senti o chão tremer às minhas costas mas, segui firme obedecendo a lei da física, aquela dos corpos em movimento e ao mesmo tempo calculando o estrago que seria caso uma patrola alcançasse o Corolla, por exemplo.

 

Se os repórteres abandonarem a árvore, Bolsonaro perde o palanque

 

Ouvi outro dia o relato de um jornalista político de Brasília falando sobre a insalubridade que é ficar debaixo de uma árvore esperando pelo Bolsonaro.

Já fomos melhores, os jornalistas nunca, em momento algum, baixaram a guarda para políticos de ocasião. Cada vomitada tóxica que sai da boca do Bolsonaro repercute na mídia e nas redes sociais como se fosse novidade. Nunca será um furo de reportagem porque as declarações são coletivas, mas são escadas para que os horrores ditos por este cara alcancem a mídia. Ele não tem argumentos e nem capacidade intelectual para se comunicar de outra forma. É o seu palanque eleitoral porque de outra forma ele não se sustentaria, foge do debate político como o diabo foge da cruz.

Bolsonaro é um farsante que se apega às palavras rasas para fulminar seus desafetos, entre os quais a imprensa que cumpre o seu papel de apurar a verdade. Aliás, ele odeia a verdade e está aí o motivo de tanta raiva dos jornalistas.

Então, o meio encontrado por ele para despachar seu ódio logo cedo foi transformar a árvore em palanque eleitoral. Depois, delirar com a reação pública, acompanhando a repercussão pelas redes sociais, sentado na privada do Palácio do Planalto, não aquela perto da biblioteca porque ele odeia cheiro de livros, mas do seu gabinete que deve ter um perfume adequado a badalhoca que produz.

O palanque que lhe resta é casualmente um símbolo que ele odeia por estar associada ao meio ambiente, mas que resiste á estupidez diária do Bolsonaro e empresta a sua sombra aos profissionais de imprensa que cumprem o seu papel de reportar os fatos.

Se os repórteres abandonarem a árvore, o trapaceiro perde o palanque.

 

Perguntinha complicada

No ônibus, sentado ao lado de uma senhora de aparência humilde, ao passar pela Avenida Mauá no centro de Porto Alegre, ela olha uma enorme faixa no prédio da “ocupação Saraí” e me pergunta:
– Eles invadiram este prédio?
– Não, eles ocuparam, quando alguma coisa está desocupada, se ocupa.
– Ahhhmmm
– Invasão é quando alguém chega na sua casa, lhe coloca pra fora e fica morando lá.
– Entendi.
– É mais ou menos o que os Estados Unidos fazem com os árabes, os africanos e outros países pelo mundo, reforcei o argumento.
Ela não pareceu muito interessada no meu argumento, até me pareceu tê-lo ignorado.
Mais uns meros a frente ela, pensativa e preocupada, diz:
– E eles pagam água e luz?
Putz!!!

Nas asas do poder – o tráfico de drogas em vôos oficiais

O ditador chileno montou um esquema de tráfico de drogas usando aviões da Força Aérea Chilena que distribuíam a droga na Europa através das embaixadas do país em Estocolmo e Madri, além dos Estados Unidos. Pinochet chegou a desenvolver seu próprio produto para lucrar nesse mercado: a “coca negra”. (revista Forum)

Um avião presidencial de um pais vizinho ao Chile foi apreendido recentemente na Espanha, transportando coca.

Pelo o que se sabe a coca era branca, mas, já estão desenvolvendo pesquisas para que ela se torne laranja.

 

 

O ponto de mutação

É cada vez mais difícil ser Bolsonaro sem abrir mão dos ídolos de uma vida inteira. Roger Waters passou a ser odiado pelo rebanho do capitão depois da sua turnê pelo Brasil, quando disse que o presidente do Brasil é corrupto e insano, e mais recentemente disse que ele é uma ameaça para a humanidade porque está destruindo o planeta. Outros como Cher, Madona e Alfonso Herrera, que interpreta personagem LGBT na série as Netflix “Sense8”, engrossam a lista de críticos a Bolsonaro.

O Papa Francisco é outro que entrou para a lista de odiados quando afirmou que a Amazônia é um problema do mundo e denunciando novos colonialismos como causa dos incêndios na floresta. Foi o que bastou para que os devotos do “capetão” tencionassem o fogo do inferno ao representante de Deus na terra.

Gerações inteiras embaladas pelas letras e músicas do Chico Buarque também se voltaram contra o artista e aplaudiram quando Bolsonaro se negou a assinar o diploma do Prêmio Camões de literatura da língua portuguesa, organizado pelos governos de Portugal e Brasil.

O escritor moçambicano Mia Couto lidera o movimento de protesto contra o governo brasileiro pela posição tomada. É mais um ídolo riscado da lista dos fanáticos seguidores do capeta, seguidores com pontos de vista inadequados para guiar o comportamento humano como bem define o físico e ambientalista, Fritjof Capra no livro O Ponto de Mutação.

Se você também integra a lista dos indesejados, meus cumprimentos. Você está do nosso lado.

 

 

De Amaral de Souza e Lauro Guimarães a Gilmar Mendes e Janot

“Sempre acreditei que, na relação profissional com tão notória figura, estava exposto, no máximo, a petições mal redigidas, em que a pobreza da língua”. Esta afirmação do ministro do Supremo Gilmar Mendes sobre o ex-procurador-geral da República, Rodrigo Janot que confessou a sua intenção de assassinar Mendes, mas que o dedo falhou na hora de dar um tiro no algoz, me remeteu à Praça da Matriz em Porto Alegre lá por 2007/08, não lembro bem.

Foi logo depois do meio dia de uma sexta-feira. Eu acabara de gravar o programa do Ministério Público para a TV Justiça, nos estúdios da Assembleia Legislativa e retornava para o Forte Apache, nome dado AP Palácio do Ministério Público do Estado, sede da Procuradoria-Geral de Justiça e onde funcionava a assessoria de imprensa do MP.

Sentados lado a lado, no banco da praça, estavam o ex-governador do Rio Grande do Sul Amaral de Souza e o ex-procurador-geral de Justiça Lauro Guimarães. Os dois se conheciam de Palmeira das Missões, município localizado ao Norte do Rio Grande do Sul da época em que Lauro Guimarães era promotor de Justiça da cidade e Amaral de Souza advogava por causas nobres e justas dos cidadãos da Palmeira. Mais tarde, Amaral vinha a ser governador do Estado, indicado pelo regime militar, e Guimarães o seu secretário de Turismo.

Juntei-me a conversa e os dois me contaram a história que me lembrou a briga do Mendes e o Janot.

Lauro disse que o Amaral como advogado volta e meia visitava a mesa do promotor com interpelações e apelações.

– As petições eram mal redigidas, disse o Lauro.

Um dia ele resolveu reclamar para o então advogado Dr. Amaral sobre os atropelos na língua e a pobreza da redação.

Amaral não perdeu tempo para justificar a correria na sua banca de advocacia, o que não lhe permitia o aprofundamento nos textos redigidos e ao mesmo tempo, respondeu ao promotor, que pouco lhe importava a qualidade da redação:

– Pode tá mal escrita, mas tou ganhando muito dinheiro.

Conversa de adultas


Conversa de duas senhorinhas, na casa dos 80 anos pra mais, numa clínica de alto padrão em Porto Alegre na manhã de hoje:
– A empresa que a minha filha trabalhava fechou as portas e ela tá tentando ao menos se aposentar.
– O meu filho vendia roupas, fechou a loja. Quem vai comprar roupas?
– Todo o mundo sem dinheiro.
– Tem que guardar para comprar remédios e comida.
– Sim, metade do que se ganha vai em remédio.
– E a comida não fica pra trás.
– O quê que tá acontecendo, meu Deus?
– Tava dando tudo certo, mas deu esta guinada.

A morte do coronel Anacleto de Passo Fundo

Marga e eu recebemos para o café da manhã de domingo em casa, o Carlos Alberto Fonseca, jornalista e procurador do município de Passo Fundo e a esposa, Maria Helena Pierdoná Fonseca, procuradora do Estado. Entre uma xícara de desnatado e um pão feito em casa, confirmaram a morte do coronel Anacleto, agora, no mês de agosto.

Duvido que alguém com mais de cinquenta anos e que residia na região do Planalto gaúcho nunca tenha ouvido falar ou escutado este radialista que acordava o campo e a cidade todos os dias pelas ondas médias da extinta Rádio Passo Fundo.

Quando criança, nos anos sessenta, morando na recém emancipada Colorado, eu despertava com as bagunças do coronel que batia numa lata, acho que era uma lata que levava para o estúdio e mandava todos pularem da cama pra trabalhar, alertando para não perderem o horário, acho que era do ônibus, que ele classificava como “cipó”. Tinha o das seis, das sete e assim por diante. Na verdade chamava a macacada pra saltar das árvores e ninguém se incomodava, era mais ou menos isso.

Confesso que não conheci o coronel e nem mesmo a sua história, embora tenha começado a minha vida profissional na Rádio Planalto de Passo Fundo onde ele, pelo o que sei, também trabalhou. Achei até que tinha partido há muito tempo por nunca mais ter ouvido falar nele.

A história do Fleumir Resende – coronel Anacleto, nome de guerra, vale uma biografia porque encantou gerações no tempo em que o rádio era indispensável na sociedade e quando a criatividade nascia do improviso e do talento dos seus profissionais.

Nunca soube também se foi um militar ou o coronel dele era patente emprestada e o motivo de ser chamado Anacleto.

Cada um com suas manias – O maluco da hidro

Acaba a aula de hidroginástica, nos vestiários o camarada toma um banho de ducha com shampoo, condicionador e sabonete e anuncia aos demais:
– Agora vou nadar.
E saiu de volta pra piscina, não deixando qualquer chance para uma pergunta como:
– Então, praquê o banho?

Na aula seguinte ele repete o gesto, não deixei passar barato e antes que ele disparasse pra piscina, lasquei:
– E aí meu, vai nadar de novo?
O camarada nem pestanejou e disparou:
– Se eu fosse nadar não estaria tomando banho né meu!

Sujeito mais sem graça.