Sem o mínimo necessário

 

Em 70 anos de história o salário mínimo já foi suficiente para sustentar uma família.

Em 1938, o Brasil vivia sob a ditadura do Estado Novo e o governo Vargas contemplava, à sua maneira, um extenso rol de direitos sociais e trabalhistas que culminou com a criação da CLT (Consolidação das Leis Trabalhistas) em 1943. Neste rol se inseriu a criação do salário mínimo.

O salário mínimo foi calculado de acordo com as necessidades básicas do trabalhador. Seu auge com poder de compra, ocorreu na segunda metade dos anos cinqüenta, especialmente no governo de Juscelino Kubitschek.

Foi uma conquista de luta dos trabalhadores, que se organizaram pelo reajuste na chamada Greve dos 300 mil, em São Paulo em março de 1953. O resultado desta insatisfação duplicou o seu valor.

Na vigência do regime militar (1964/1985) os reajustes passaram a ser calculados com base no índice de inflação o que levou a uma forte queda salarial.

Com a estabilização da moeda a partir do Plano Real, em 1994, no Governo de Itamar Franco, o salário mínimo começou a ganhar força. Mas foi a partir de 2003, com governo Lula e com a pressão das centrais sindicais que a elevação do avançou com maior impacto nas classes financeiramente menos favorecidas. 

Em cinco anos o salário mínimo subiu mais de 100%. O reajuste de março de 2008 ocorreu em um processo sem precedentes desde 1964 e foi decidido por acordo entre o governo e centrais sindicais.

A três primeiras marchas unitárias das centrais sindicais, em 2004, 2005 e 2006 resutaram num aumento real com reajuste superior a inflação.

Dilma estabeleceu uma meta do salário mínimo para que em 2019 ele chegasse a R$ 1.198,00.

No levantamento do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócioeconômicos – DIESE, o valor ideal para sustentar uma família de quatro pessoas deveria ser R$ 3.959,98. Isso corresponde a quatro vezes o salário em vigor de 998,00 assinado por Bolsonaro como seu primeiro ato de governo.

A vaidade do Nelson peito de pombo, sim, o pefeito.

Vi com um certo resguardo pra não dizer atônito na eleição passada, o povo de Porto Alegre se posicionar por mudanças, o que é um sinal positivo, afinal, mudar é preciso, assim como “navegar”, já dizia Fernando Pessoa. O que me intrigava era o alvo da mudança e a escolha que se aproximava.

Me ocorria que dois anos antes o povo gaúcho, talvez pela ausência de uma autocritica e de certo modo tomado por um ódio e com a vaidade de que as mudanças do Brasil sempre começaram pelo Sul, tinda dado um tiro no pé. Uma bala disparada por boa parte dos ocupantes das repartições oficiais, sim, o servidor público escolheu Zé Ivo Sartori e recebeu como recompensa o parcelamento vitalicio dos salários.

Aí foi a vez do politizado eleitor de Porto Alegre fazer a sua parte e habilitar Nelson Marchezan Júnior para comandar a cidade, outra dose de ódio e vaidade que inflou ainda mais o peito de pomba do senhor menino criado em berço esplêndido, época em que o seu pai era o líder do governo na Câmara Federal em Brasília em pleno regime militar. Pois foi mais um tiro de bazuca no dorso do pé de uma cidade que não caminha.

  • Enquanto sobe o topete daquele que o povo de Porto Alegre ecolheu nas urnas, o tapete das ruas se esfarela, esmigalhando a cidade.

Com estas duas demonstrações de esperteza do eleitor o Ministério da Saúde alerta: O ódio pode provocar demência. (Se persistirem os sintomas procure o google analist, e saiba quem tá levando teu voto). É o mínimo, o caminho adequado.

 

 

O CHATO

 

No terminal de passagens o chato se debruça no balcão e dá inicio ao seu predestinado ofício.

– Tem passagem para hoje até Porto Alegre?

A atendente responde:

– Hoje não tem mais, agora só no ônibus da próxima terça-feira.

– Como assim?

– As passagens deste domingo esgotaram o próximo ônibus que sai daqui para Porto Alegre é na terça.

– E eu vou ter que esperar até terça pra ir embora?

– Se for de ônibus, sim.

– Mas eu tenho que estar lá na segunda-feira.

– Infelizmente não posso fazer nada.

– Não tem como dar um jeito?

– Como?

– Me arruma um lugar.

– Em pé?

– Não, quero ir sentado.

– Nem em pé nem sentado senhor

– Mas é brincadeira…

– Quem sabe o senhor compra a passagem aqui e pega o ônibus em Floripa.

– E pode fazer isso?

– Sim.

– Como funciona?

– O senhor adquire a passagem aqui e embarca em Florianópolis.

– Mas é seguro?

– É sim, todos fazem assim.

– Todos?

– Os que optam embarcar em Floripa.

– Mas porque não me falou antes então?

– Porque o senhor não perguntou.

– Mas poderias ter me dado esta opção.

– Posso retirar a passagem?

– Peraí, ela é mais cara?

– Não tem diferença, o preço é o mesmo.

– Mas Florianópolis fica mais longe de Porto Alegre do que a Pinheira e o preço é o mesmo?

– Sim, não tem diferença.

– Então se eu comprar uma passagem daqui eu tenho prejuízo, isso é uma exploração.

– Não, senhor, com a passagem comprada na Pinheira, tanto faz o senhor pode embarcar aqui ou em Florianópolis, porque o ônibus sai de lá.

– Sim, mas daqui pra Porto Alegre é mais perto.

– O senhor vai escolher o horário para eu imprimir a passagem?

Neste momento a fila de espera aumentava e o cidadão, vestindo uma camiseta tricolor, não saia da frente.

– Só mais uma pergunta; se eu decidir embarcar lá em Florianópolis como vou saber se tem passagem para o horário?

– É só o senhor acessar o site da empresa e pode comprar por lá pelo cartão de crédito.

– Mas eu não utilizo cartão de crédito.

– Então é só vir aqui, depois da uma da tarde, que eu retiro o bilhete.

– E fora deste horário tem algum telefone pra contato?

– Este aqui senhor, falar com o Vinicius.

– Se eu ligar agora ele atende?

– Se não estiver fora de área, atende sim.

– Hummmm!!!

– E se não atender?

– Aí o senhor vem aqui.

Aí já se formou um murmurinho com um ensaio de via geral e uma senhora impaciente com um bebê de colo que ameaçou trocar as fraldas da criança ali mesmo, no balcão. Ele fez menção de ir embora e ameaçou voltar para buscar mais alguma informação mas a senhora interrompeu o movimento com um:

– Tinventa olhólhó!!!!

O camarada beijou o distintivo da camiseta e gritou:

– Viva o Tricolor dos pampas

Prestes a ser defenestrado via janela do guichê, vazou pela porta da frente.

 

 

Senhores azuis, por onde andam?

Na manhã de sábado, Avenida Azenha trancada porque um destes caminhões de concreto bloqueava uma pista inteira, dentro um cercado de cones. Ouvi um dos operadores do caminhão responder a uma senhora que lá, ele se encarregavam em sinalizar a pista:
– Assim sobra tempo pros azuizinhos se preocuparem com a cidade, justificou o camarada.
Ao chegar na Redenção, que aos sábados reúne boa parte da cidade que visita as feiras e o parque, novamente uma tranqueira. Desta vez eram dois carros, no estacionamento duplo ocupando cada lado da pista. Os outros veículos precisavam fazer um zig-zag para passar. Lá não tinha Azulzinho  para comandar o transito e sim um flanelinha.
No centro encontrei, por acaso, um lugar para estacionar perto do Mercado Público. Mal desci do carro e lá estava outro flanelinha, que não vi de onde tinha saído que já foi me avisando.
– Deixa cinquinho pro carro ficar bem cuidado.
Neste trajeto todo o que eu não vi foram os tais azuizinhos cuidando da cidade, porque os flanelinhas e o operador da Concremix, comandando o trânsito e fazendo o patrulhamento e sinalização das ruas, eu já conheço. 

É uma aventura andar de ônibus em Porto Alegre

Embarco num ônibus da linha Assunção por volta das três horas da tarde, para fazer o trajeto Câmara/Mercado Público de Porto Alegre. Caminho curto de cinco paradas ou nem isso. Noto uma delicadeza incomum do cobrador/trocador com os passageiros, avisando que mais adiante tinha a curva do gasômetro e que tomassem cuidado.

Ao chegar no terminal da Uruguai o motorista teve todo o cuidado para estacionar, transportava o carro com mãos de pelica, manobrava o volante na ponta dos dedos e não abriu a porta sem que o ônibus estivesse devidamente estacionado. Uma mulher chegou a reclamar que perderia o outro transporte se o motorista não liberasse a saída.

Fiquei imaginando se esta era uma norma da empresa, talvez negociada num acordo de greve, ou se de uma hora para a o mosquito das boas maneiras tivesse picado a tripulação.

Ao descer, descobri o motivo de tanto cuidado e delicadeza. Dois azuizinhos* estavam dentro do coletivo e pareciam desconfortáveis com aquela repentina tomada de consciência com a etiqueta social, porque também precisavam descer e o gentil condutor não abria a porta porque o ônibus da frente não lhe deu meio metro de espaço para que o ônibus fosse devidamente acomodado na plataforma.

Fiquei imaginando como a cidade será diferente se todos fizessem assim e até chequei a pensar que havia realizado um sonho de embarcar num transporte público de qualidade.

Meia hora depois retorno para a Câmara, vou ao mesmo terminal e embarco desta vez num coletivo da linha Pereira Passos.

O motorista se mostrava ansioso porque os passageiros demoravam para embarcar, já que a roleta não suportava a demanda. Pedia para darem lugar na porta e fechou-a sem que a última bunda tivesse deixado totalmente a plataforma, espremendo as nádegas do último camarada a embarcar.

Ao dobrar a esquina da Uruguai para ingressar na Mauá, vi que o meu sonho de transporte público de qualidade não durou meia hora.

Os passageiros em pé caíram sobre os sentados e um senhor de idade chegou a perder o boné. Foi um strike.

Uma senhora pediu calma e recebeu como resposta do motorista um: “estamos atrasados”. Ninguém mais se manifestou. Seguiram-se freadas e arrancadas espetaculares no caminho de quatro paradas até o Parlamento. Uma mãe segurava firme uma criança de três ou quatro meses para que ela não batesse a cabeça no banco da frente. A barulheira da carroceria era ensurdecedora e ao menos as janelas abertas compensavam a falta de ar condicionado no coletivo. Corri o olho a procura de um azulzinho, mas só vi um gremista, com fardamento tricolor se equilibrando para não despencar na parte rebaixada do coletivo, para onde um colorado já tinha escorregado e procurava se levantar.

Os passageiros não demostravam lá muita indignação embora pareciam atordoados. Cada qual procurando um lugar para sentar na esperança de chegar inteiro no seu destino final.

*Azuizinhos – da guarda municipal de Porto Alegre, fiscais da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC)