É uma aventura andar de ônibus em Porto Alegre

Embarco num ônibus da linha Assunção por volta das três horas da tarde, para fazer o trajeto Câmara/Mercado Público de Porto Alegre. Caminho curto de cinco paradas ou nem isso. Noto uma delicadeza incomum do cobrador/trocador com os passageiros, avisando que mais adiante tinha a curva do gasômetro e que tomassem cuidado.

Ao chegar no terminal da Uruguai o motorista teve todo o cuidado para estacionar, transportava o carro com mãos de pelica, manobrava o volante na ponta dos dedos e não abriu a porta sem que o ônibus estivesse devidamente estacionado. Uma mulher chegou a reclamar que perderia o outro transporte se o motorista não liberasse a saída.

Fiquei imaginando se esta era uma norma da empresa, talvez negociada num acordo de greve, ou se de uma hora para a o mosquito das boas maneiras tivesse picado a tripulação.

Ao descer, descobri o motivo de tanto cuidado e delicadeza. Dois azuizinhos* estavam dentro do coletivo e pareciam desconfortáveis com aquela repentina tomada de consciência com a etiqueta social, porque também precisavam descer e o gentil condutor não abria a porta porque o ônibus da frente não lhe deu meio metro de espaço para que o ônibus fosse devidamente acomodado na plataforma.

Fiquei imaginando como a cidade será diferente se todos fizessem assim e até chequei a pensar que havia realizado um sonho de embarcar num transporte público de qualidade.

Meia hora depois retorno para a Câmara, vou ao mesmo terminal e embarco desta vez num coletivo da linha Pereira Passos.

O motorista se mostrava ansioso porque os passageiros demoravam para embarcar, já que a roleta não suportava a demanda. Pedia para darem lugar na porta e fechou-a sem que a última bunda tivesse deixado totalmente a plataforma, espremendo as nádegas do último camarada a embarcar.

Ao dobrar a esquina da Uruguai para ingressar na Mauá, vi que o meu sonho de transporte público de qualidade não durou meia hora.

Os passageiros em pé caíram sobre os sentados e um senhor de idade chegou a perder o boné. Foi um strike.

Uma senhora pediu calma e recebeu como resposta do motorista um: “estamos atrasados”. Ninguém mais se manifestou. Seguiram-se freadas e arrancadas espetaculares no caminho de quatro paradas até o Parlamento. Uma mãe segurava firme uma criança de três ou quatro meses para que ela não batesse a cabeça no banco da frente. A barulheira da carroceria era ensurdecedora e ao menos as janelas abertas compensavam a falta de ar condicionado no coletivo. Corri o olho a procura de um azulzinho, mas só vi um gremista, com fardamento tricolor se equilibrando para não despencar na parte rebaixada do coletivo, para onde um colorado já tinha escorregado e procurava se levantar.

Os passageiros não demostravam lá muita indignação embora pareciam atordoados. Cada qual procurando um lugar para sentar na esperança de chegar inteiro no seu destino final.

*Azuizinhos – da guarda municipal de Porto Alegre, fiscais da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC)