Senhores azuis, por onde andam?

Na manhã de sábado, Avenida Azenha trancada porque um destes caminhões de concreto bloqueava uma pista inteira, dentro um cercado de cones. Ouvi um dos operadores do caminhão responder a uma senhora que lá, ele se encarregavam em sinalizar a pista:
– Assim sobra tempo pros azuizinhos se preocuparem com a cidade, justificou o camarada.
Ao chegar na Redenção, que aos sábados reúne boa parte da cidade que visita as feiras e o parque, novamente uma tranqueira. Desta vez eram dois carros, no estacionamento duplo ocupando cada lado da pista. Os outros veículos precisavam fazer um zig-zag para passar. Lá não tinha Azulzinho  para comandar o transito e sim um flanelinha.
No centro encontrei, por acaso, um lugar para estacionar perto do Mercado Público. Mal desci do carro e lá estava outro flanelinha, que não vi de onde tinha saído que já foi me avisando.
– Deixa cinquinho pro carro ficar bem cuidado.
Neste trajeto todo o que eu não vi foram os tais azuizinhos cuidando da cidade, porque os flanelinhas e o operador da Concremix, comandando o trânsito e fazendo o patrulhamento e sinalização das ruas, eu já conheço. 

É uma aventura andar de ônibus em Porto Alegre

Embarco num ônibus da linha Assunção por volta das três horas da tarde, para fazer o trajeto Câmara/Mercado Público de Porto Alegre. Caminho curto de cinco paradas ou nem isso. Noto uma delicadeza incomum do cobrador/trocador com os passageiros, avisando que mais adiante tinha a curva do gasômetro e que tomassem cuidado.

Ao chegar no terminal da Uruguai o motorista teve todo o cuidado para estacionar, transportava o carro com mãos de pelica, manobrava o volante na ponta dos dedos e não abriu a porta sem que o ônibus estivesse devidamente estacionado. Uma mulher chegou a reclamar que perderia o outro transporte se o motorista não liberasse a saída.

Fiquei imaginando se esta era uma norma da empresa, talvez negociada num acordo de greve, ou se de uma hora para a o mosquito das boas maneiras tivesse picado a tripulação.

Ao descer, descobri o motivo de tanto cuidado e delicadeza. Dois azuizinhos* estavam dentro do coletivo e pareciam desconfortáveis com aquela repentina tomada de consciência com a etiqueta social, porque também precisavam descer e o gentil condutor não abria a porta porque o ônibus da frente não lhe deu meio metro de espaço para que o ônibus fosse devidamente acomodado na plataforma.

Fiquei imaginando como a cidade será diferente se todos fizessem assim e até chequei a pensar que havia realizado um sonho de embarcar num transporte público de qualidade.

Meia hora depois retorno para a Câmara, vou ao mesmo terminal e embarco desta vez num coletivo da linha Pereira Passos.

O motorista se mostrava ansioso porque os passageiros demoravam para embarcar, já que a roleta não suportava a demanda. Pedia para darem lugar na porta e fechou-a sem que a última bunda tivesse deixado totalmente a plataforma, espremendo as nádegas do último camarada a embarcar.

Ao dobrar a esquina da Uruguai para ingressar na Mauá, vi que o meu sonho de transporte público de qualidade não durou meia hora.

Os passageiros em pé caíram sobre os sentados e um senhor de idade chegou a perder o boné. Foi um strike.

Uma senhora pediu calma e recebeu como resposta do motorista um: “estamos atrasados”. Ninguém mais se manifestou. Seguiram-se freadas e arrancadas espetaculares no caminho de quatro paradas até o Parlamento. Uma mãe segurava firme uma criança de três ou quatro meses para que ela não batesse a cabeça no banco da frente. A barulheira da carroceria era ensurdecedora e ao menos as janelas abertas compensavam a falta de ar condicionado no coletivo. Corri o olho a procura de um azulzinho, mas só vi um gremista, com fardamento tricolor se equilibrando para não despencar na parte rebaixada do coletivo, para onde um colorado já tinha escorregado e procurava se levantar.

Os passageiros não demostravam lá muita indignação embora pareciam atordoados. Cada qual procurando um lugar para sentar na esperança de chegar inteiro no seu destino final.

*Azuizinhos – da guarda municipal de Porto Alegre, fiscais da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC)