O pastor que conquistou a Glória

O cotidiano reserva o inesperado, o inédito. O bom do cotidiano é isso, você não prever o próximo segundo.

No trem, um senhor de cabelos grisalhos, terno e gravata, com o novo testamento nas mãos senta ao meu lado e depois de um tempo orando, quase chegando na estação, me conta que conquistou a glória com a palavra de Deus.
Perguntei sobre a conquista, do que se tratava e se a cerimônia foi recente tendo em vista a fatiota que vestia.
– Tou indo agora pra me casar com ela.

– Então a Glória é uma mulher?

– A cerimônia é às dez.

E eu lá ia saber de que glória ele falava?!

Conversa de adultas


Conversa de duas senhorinhas, na casa dos 80 anos pra mais, numa clínica de alto padrão em Porto Alegre na manhã de hoje:
– A empresa que a minha filha trabalhava fechou as portas e ela tá tentando ao menos se aposentar.
– O meu filho vendia roupas, fechou a loja. Quem vai comprar roupas?
– Todo o mundo sem dinheiro.
– Tem que guardar para comprar remédios e comida.
– Sim, metade do que se ganha vai em remédio.
– E a comida não fica pra trás.
– O quê que tá acontecendo, meu Deus?
– Tava dando tudo certo, mas deu esta guinada.

O dia em que a diarista não veio

Ontem, antes de dormir, fiquei sabendo que a diarista não apareceria nesta sexta-feira. Dei de mão no aspirador que levantou vôo pelas paredes, cantos do teto, nas frestas do assoalhos, pás dos ventiladores de teto. Aproveitando a onda aspirei até os cachorros da casa e me declarei “inimigo do pó”, erguendo a haste do aspirador feito herói, um gesto ridículo, mas fiz.

Ao acordar pela manhã vi que a sujeira da casa ainda estava lá e a faxina por fazer.

Sonhar com trabalho me deixa puto.

A primeira aparição do homem do tempo no Jornal do Almoço

Início dos anos 90, período em que eu coordenava o Jornal do Almoço da RBS TV lá no morro Santa Teresa, o Cléo fazia as suas primeiras participações na Rádio Gaúcha despejando chuvas e agonizando secas por todo o estado. Cléo trazia para os noticiários uma voz diferenciada para os padrões do rádio, alguns tons bem abaixo do que qualquer agudo dos mais afiados locutores e repórteres.

Naquele verão o Rio Grande do Sul sofria com uma estiagem sem precedentes. Plantações secando, gado morrendo de sede anunciando uma quebra recorde de safra.

Liguei para o Cléo no 8º Distrito de Meteorologia para bater um papo sobre aquele momento e dos riscos da seca para os gaúchos.

Pois o meteorologista foi tão convincente que na hora, mesmo sem conhecê-lo, resolvi convidar para que participasse do Jornal do Almoço naquele mesmo dia.

No horário marcado lá estava o entrevistado na redação do JA. Em seguida a produtora Marinês Canton foi até o suíte master, onde eu ficava para colocar o jornal no ar e me perguntou:

– Você conhece o entrevistado do tempo?

– Não, por quê?

– E então desce e dá uma olhada.

Barba de bom velhinho, camisa xadrez, cabelos espetados tipo Andy Warhol vendendo suas latas de feijões.

Meu Deus, pensei… o cabelo dá pra resolver na maquiagem, mas a camisa…

Aquele xadrez de “rasgar o vídeo”, linguagem dos diretores de imagem, poderiam interferir na leitura da câmera e comprometer o sinal e em último caso, reparando exageros, tirar o programa do ar.

Foi quando então que a Marinês achou a solução.

– Uma camisa do Lauro Quadros, eles tem o mesmo porte físico e o Lauro sempre guarda camisas de reserva na maquiagem, disse ela.

Nem dez minutos depois, com o cabelo levemente lambido por uma camada de gel o Cléo Kuhn estreou no Jornal do Almoço, vestindo uma camisa lisa, graças aos caprichos do Lauro Quadros.

Virei amigo do Cláo e cheguei a pegar uma carona no mesmo dia. O carro eu não lembro direito, acho que era um Chevette que precisou de um empurrãozinho para pegar no tranco e deslizar morro abaixo.

 

A morte do coronel Anacleto de Passo Fundo

Marga e eu recebemos para o café da manhã de domingo em casa, o Carlos Alberto Fonseca, jornalista e procurador do município de Passo Fundo e a esposa, Maria Helena Pierdoná Fonseca, procuradora do Estado. Entre uma xícara de desnatado e um pão feito em casa, confirmaram a morte do coronel Anacleto, agora, no mês de agosto.

Duvido que alguém com mais de cinquenta anos e que residia na região do Planalto gaúcho nunca tenha ouvido falar ou escutado este radialista que acordava o campo e a cidade todos os dias pelas ondas médias da extinta Rádio Passo Fundo.

Quando criança, nos anos sessenta, morando na recém emancipada Colorado, eu despertava com as bagunças do coronel que batia numa lata, acho que era uma lata que levava para o estúdio e mandava todos pularem da cama pra trabalhar, alertando para não perderem o horário, acho que era do ônibus, que ele classificava como “cipó”. Tinha o das seis, das sete e assim por diante. Na verdade chamava a macacada pra saltar das árvores e ninguém se incomodava, era mais ou menos isso.

Confesso que não conheci o coronel e nem mesmo a sua história, embora tenha começado a minha vida profissional na Rádio Planalto de Passo Fundo onde ele, pelo o que sei, também trabalhou. Achei até que tinha partido há muito tempo por nunca mais ter ouvido falar nele.

A história do Fleumir Resende – coronel Anacleto, nome de guerra, vale uma biografia porque encantou gerações no tempo em que o rádio era indispensável na sociedade e quando a criatividade nascia do improviso e do talento dos seus profissionais.

Nunca soube também se foi um militar ou o coronel dele era patente emprestada e o motivo de ser chamado Anacleto.

Cada um com suas manias – O maluco da hidro

Acaba a aula de hidroginástica, nos vestiários o camarada toma um banho de ducha com shampoo, condicionador e sabonete e anuncia aos demais:
– Agora vou nadar.
E saiu de volta pra piscina, não deixando qualquer chance para uma pergunta como:
– Então, praquê o banho?

Na aula seguinte ele repete o gesto, não deixei passar barato e antes que ele disparasse pra piscina, lasquei:
– E aí meu, vai nadar de novo?
O camarada nem pestanejou e disparou:
– Se eu fosse nadar não estaria tomando banho né meu!

Sujeito mais sem graça.

A penitência que virou moda

 

Como qualquer criança da minha idade, lá pelos sete ou oito anos, vivendo no interior, também fui um guri arteiro. Na falta de opções a gente sempre achava o que fazer muito embora contrariasse as regras dos adultos.

Certo dia de verão, depois de uma briguinha de rua que evoluiu para socos e pontapés, fui me esconder na gruta até aliviar a ira da minha mãe que não admitia filho brigando por aí. A gruta que até hoje existe, era úmida, embalada ao som de uma vertente de água que atraía os andarilhos a caminho da cidade, paravam ali para matar a sede. Alguns levados pelo sossego do lugar aproveitavam para fazer uma oração a santa Lourdes e uns até contavam seus pecados. Naquela tarde ouvi confissões e só não estipulei penitência porque me encontrava em situação clandestina, escondido atrás da santa

Mais tarde, quando calculei que a ira da mãe havia passado saltei de cima do altar da gruta para pegar a estrada e retornar pra casa mas, uma pedra pontuda quase me deixa nu. O calção cinza feito com um corte de saco de pano de açúcar cristal foi contemplado com um rasgo que ia do meio da coxa até a cintura. Não fosse a peça de elástico que segurava o calção eu teria problemas para sair da gruta a caminho de casa. Fui embora segurando o rasgo com a mão direita, camuflado em macegas e plantações de milho e soja.

Mais tarde a mãe retornou da lavoura, esperei que ela descansasse a enxada e se desfizesse do cesto da colheita e antes do sermão, me adiantei para pedir desculpas e mostrar para ela o calção em trapos.

Foi então que ela me disse:

– Isso é castigo por tudo aquilo que você anda fazendo, é pra pagar teus pecados.

Hoje quando vejo gente na rua com calças de joelhos, pernas e bunda rasgadas, me faz viajar a memória para a velha gruta e as palavras da dona Ilga. Eles jamais vão imaginar que, para mim, aquela roupa é uma penitência para pagar seus pecados e que, quanto mais rasgos, maior é a pena.

Sim, a penitência como castigo do pecado virou moda. Tenha a santa paciência.

 

A trama dos carniceiros e o trágico fim do veterinário fiel

O grupo de hienas, por sua natureza, não abatia presas preferindo a carne morta. Se diziam do bem, porém, carniceiras.

Certo dia chegou ao Parque Nacional um veterinário com a missão de cuidar de todos os animais diminuir a quantidade de mortes. E as mortes diminuiram drasticamente com medidas simples como o acesso as melhores pastagens, periodo de descanso dos animais, reforço nas vitaminas como se frequentassem restaurantes,  se sentiram no direito e segurança de fazerem passeios pelos lugares até então permitido somente à elite da floresta, ou seja, presas e predadores em potencial que exploravam manadas de ponta.

As hienas extremamente covardes ficaram inquietas, incomodadas com a escacez de comida. Temendo a fome bolaram um plano.

A matriarca subiu na pedra mais alta e, de capa preta, sentenciou.

– Prenderemos o veterinário ou vamos morrer de fome.

A trama era ousada para convencer as zebras e os gnus a ficarem do lado delas. A proposta era inventsr mentiras pars enfraquecer o veterinário e aniquilar qualquer tentativa de manter seus cuidados com as manadas.

– Espalharemos por toda a savana o boato de que o veterinário que parece tão bonzinho e dedicado, no fundo quer se adonar das terras para especulação imobiliária transformando o lugar num empreendimento comercial para atrair os humanos. Disse a matriarca.

Se associaram aos urubus para espalhar as fake news, afinal, eles também estavam sendo prejudicados pela ausência de mortes.

A noticia foi pelos ares, amplamente divulgada pelos abutres que não cansavam de repetir a mesma informação. Por terra, o clã de hienas se encarregava de arregimentar adeptos ao plano. As fake iam desde a criação de jaulas e cercados para  exposição dos rebanhos aos turistas, até mesmo a criação de grandes abatedouros para a exportação da carne dos animais confinados. Boa parte da savana caiu na conversa das sacanas.

No dia seguinte, todos cercaram a cabana e o veterinário não pode sair para tratar os animais, muito menos para pedir ajuda.

Em pouco tempo zebras e gnus foram morrendo, doentes pela falta de cuidados. Os carniceiros organizaram grandes banquetes.

O veterinario desesperado fugiu durante um momento de desatenção da guarda mas, com fome e muito desidratado ficou no caminho, morreu e também foi devorado.

Os carniceiros retomaram a savana, zebras e gnus também voltaram a rotina de escravidão e medo, concientes de que ajudaram os inimigos a aniquilar seu protetor.

 

 

 

INCOERÊNCIAS

 

BLINDAGEM – Enquanto a verdade nua e crua aparece nas revelações do The Intercept, compartilhada pela parte coerente da mídia brasileira, grandes redes de comunicação continuam caladas temendo o pior. De outra parte as instituições com poder de polícia, como a Federal, procuram rastrear a origem das denúncias, quando deveriam prender o chefe.

ÉTICA – As notícias mais recentes captadas pelo vazamento dão conta de que o irrefutável procurador da República das laranjas cobrou um valor módico de 30 mil cédulas para dar uma palestra e exigiu passagens e hospedagens para a família toda num hotel de luxo a beira mar no nordeste brasileiro. A palestra foi sobre ética e combate a corrupção.

PERGUNTAS – Por fim, outra noticia não menos grave, aliás, não tem noticia leve nos vazamentos, é de que Moro e Deltan queriam desviar uma graninha, dinheiro público da 13ª Vara Federal para fazer propaganda da Lava Jato. Ora, não precisa entender de marketing para concluir que a operação dos sócios da república de Curitiba sempre esteve presente na mídia, 24 horas por dia, sete dias por semana em todos os dias do ano, de forma gratuita. Publicidade pra quê, ou melhor, para beneficiar quem ou o quê?

 

As cotas e os filhos da cocota

Ingressar numa universidade pública pelo sistema de cotas e concluir o curso com um alto conceito me faz pensar: Quantos excelentes trabalhos de pesquisa foram deixados para trás por dezenas, centenas de anos, nos tempos em que os estudantes egressos de escolas públicas sejam negros ou brancos, não tiveram a oportunidade de se destacar num campo reservado aos alunos de melhor poder aquisitivo? Por que esta sede tacanha para privatizar a educação e retirar dos mais pobres o direito ao curso superior de qualidade? Quem está por trás de todo este processo?

Pois eu fui lá, amparado no sistema inclusivo de cotas, egresso de escola pública, meti a cara aos 57 anos de idade e conclui, cinco anos depois, o que eu jamais imaginaria alcançar.

A ousadia valeu a pena, houve o reconhecimento a um trabalho até então inédito de pesquisa juntando a profissão que exerci por 40 anos e a sala de aula. O jornalismo e a pedagogia têm suas esquinas por onde cruza o fazer do conhecimento. Um sistema de ensino só estará falido quando censurar o acesso à informação desde os primeiros anos de escola.

Vivemos um momento ameaçador em que a democracia e a pluralidade estão sendo forçadas a abandonar os bancos escolares e, o duro golpe de sucateamento das universidades, ódio das cotas que afrontam os filhos mimados da dona cocota.

Os carrascos do conhecimento retiram os direitos e conquistas dos estudantes e trabalhadores, menosprezando a constituição. Vestem a capa da liberdade e da igualdade, cobertos de maldade. Já o cara que abriu as portas do ensino superior nas universidades públicas para os pobres e negros, dando condições de acesso ao ensino superior, está preso.