As velhinhas francesas queriam o meu mate

“laisse tomber le thé”

Foi lá pelos meados de 90 que eu fotografava, com uma Nikon, alguns iates de luxo ancorados em Saint Tropez na Rivera Francesa, tomando um chimarrão.

Um grupo de senhoras com seus cachorrinhos, se aproximou para saber o que eu bebia, (não lembro bem, mas posso assegurar que a Brigitte Bardot figurava entre elas).

Numa mistura de vários idiomas, expliquei que se tratava de tea brasilian, ou thé, ou chá, ou mate, ou chimas, enfim, de um jeito ou de outro elas entenderam.

Eis que uma das simpáticas francesinhas da terceira idade, pediu para tirar uma foto ao meu lado, o que prontamente foi atendida. Aí veio outra, outra e mais outra.

Uma das últimas senhorinhas, com o rosto um tanto desfigurado por causa da maquiagem exposta ao calor do mediterrâneo, derretendo e descendo pelas laterais de orelha a orelha, além dos lábios exageradamente pintados de cereja, pediu a cuia e fez menção de levar a bomba à boca.

Prevendo a lambuzeira bomba abaixo, descendo até a erva, tentei interromper o movimento que ela fazia mas, sem conseguir salvar o mate e raciocinar uma frase em francês ao mesmo tempo, apenas gritei:
“No Boté la Bombê en la Boqué”.
Se ela entendeu eu não sei, mas que largou, largou.

Perguntinha complicada

No ônibus, sentado ao lado de uma senhora de aparência humilde, ao passar pela Avenida Mauá no centro de Porto Alegre, ela olha uma enorme faixa no prédio da “ocupação Saraí” e me pergunta:
– Eles invadiram este prédio?
– Não, eles ocuparam, quando alguma coisa está desocupada, se ocupa.
– Ahhhmmm
– Invasão é quando alguém chega na sua casa, lhe coloca pra fora e fica morando lá.
– Entendi.
– É mais ou menos o que os Estados Unidos fazem com os árabes, os africanos e outros países pelo mundo, reforcei o argumento.
Ela não pareceu muito interessada no meu argumento, até me pareceu tê-lo ignorado.
Mais uns meros a frente ela, pensativa e preocupada, diz:
– E eles pagam água e luz?
Putz!!!

Não deu no rádio

– Pai, tô indo pra casa.
– Tá por onde?
– No centro
– Então não venha pela Borges, Loureiro, evite a Salgado e nem pensar a Andradas ou a Sete de Setembro.
– Por quê?
– É que tá tudo trancado por causa das manifestações.
– Tou estacionada na frente da casa de cultura e tá tudo em ordem por aqui.
Mais tarde, em casa.
– Pegou muito trânsito?
– A cidade tá vazia pai.
– Mas no rádio só se fala em trânsito, nunca se falou tanto na vida. A cidade tá um caos.
– Normal
– Sério?
– Tô te dizendo, o Lula só chega as sete.
– O Lula vem aí?
– Sim, não deu no rádio?

Vai saber… é de matar curioso

No lotação a mulher ao lado saca o celular e inicia uma conversa. Claro que eu só ouço o que ela diz.

– Oi amiga, tudo bem?

– Eu também.

– Ela tá bem?

– Humm, bom…

– Ele melhorou?

– Vocês são amigos já faz um bom tempo né?

– O que foi mesmo que aconteceu com ele?

– Ai amiga, que constrangedor…

Aí a conversa se desenrola aos resmungos e um bom tempo e aenhora só ficou no humm, affe, ixe, a fudê… até que a certa altura da viagem toma novos contornos.

– Sim, vamos hoje a tarde

– É longe sim, dez horas de vigem, fora as paradas (risos)

– Vamos a Rê, o Dê, a Mi e Eu.

– Visitar o filho da Rê que mora lá.

– É, o mais novo, o Puí, ele tem uma filha que nasceu faz pouco.

– Sim, é Gabrieli, nome de pompa, com dois éles e ipsolon no final, dizem que é linda.

(Arrumando então: Gabrielly – ninguém é adivinha).

A mulher levanta ligeiro e pede pro motorista deixá-la na esquina, a lotação já estava na esquina, ela desce correndo sem que tivesse a oportunidade de saber ao menos o rumo da viagem e que tipo de mal constrangedor foi aquele do amigo da amiga.

 

 

O calor afeta o raciocínio bilíngue

Pois a amiga Susana Rangel, em meio a este calorão intenso, perguntou se tenho “airfry” na cozinha de casa.
Respondi que tenho ventilador de teto e justifiquei:
– Ar frio só na sala e nos quartos.
– Deixa de ser bobo guri, tou falando em fritadeira elétrica.
E eu lá ia saber que ela queria fritar hambúrguer sem óleo?!

O pó dos delírios

Procurem entender a minha angustia – na madrugada estou escrevendo, com a janela aberta pro lado do mato, com o ventilador de teto na testa porque não suporto o ar refrigerado. Lá pelas tantas dou uma pausa para esvaziar o que sobrou na xícara de café preto, mais pra frio do que pra morno. Depois do último gole sinto que duas asas se manifestaram no fundo da caneca. Alguém sabe afinal, se o pó da asa da mariposa é fatal?

Por que fui perguntar? Os amigos me tiraram, atocharam todas pelas redes sociais, desde pó alucinógeno ao ataque de caganeira, ou que mata em três ou quatro dias.

Pura mentira, deveriam trabalhar pro Bolsonaro, patrocinados pelo véio da Havan, de tanto fake que inventaram.

Tou aqui, vivinho da silva. Nada de alucinógeno, só ainda um pouco alucinado com o que aconteceu.

Um Prometeu às avessas

O asseverado Bolsonaro, um Prometeu tupiniquim, nada comparado ao titã grego, prometeu acabar com privilégios e acabou com o horário de verão.

Prometeu acabar com o PT e acabou com seu próprio partido.

Prometeu acabar com os altos salários e acabou com o salário mínimo.

Prometeu prioridades aos trabalhadores, acabou com o emprego e a aposentadoria.

Prometeu o fim da mamata e acabou com a maminha.

Promete acabar com a pobreza… classe média, abra o olho com este cara aí.

Prá pensar – Como alguém que foi um completo fracasso até os 30 anos de idade se tornou um homem com poder para matar milhões e deixar a Europa em ruínas? Refiro-me a Hitler, o líder nazista que preferiu acusar sua avó de chantagem sexual a admitir que pudesse ter sangue judeu. Também não batia bem.

 

Quando as árvores de Natal eram de verdade

 

O Natal da minha infância em Colorado, tinha cheiros característicos, o da barba de pau umedecida e o da resina da araucária. A mãe mandava que eu fosse passear num certo dia de véspera e ao regressar, ao por o pé na soleira da porta, era tomado por um ambiente com o aroma da mata. Na sala de casa tinha uma árvore de natal me esperando com uma estrela no alto, e envolvida num manto de delicadas esferas coloridas e ninhos abandonados de pássaros que ficaram dependurados nos galhos das laranjeiras, às vezes algum vinha acompanhado de um ovo que não vingou.

No sopé se alastrava um projeto arquitetônico da mãe para os filhos. Ali estava o espírito de alguém com alma de criança dando forma aos detalhes. A disposição de cada item da criação tinha um significado, uma finalidade e uma direção. Todos os caminhos levavam à manjedoura onde estava uma criança, símbolo da natalidade entre as civilizações da terra, exemplo de fé, de paz e de esperança.

É raro ver uma mãe enfeitando uma árvore de verdade com a delicadeza de antes. Hoje, o arcabouço vem com código de barras.

 

O malvadinho e a formação do caráter

Duas crianças brincam de gente grande e uma grande ideia começa ganhar formato diante da realidade que presenciam.

O malvadinho diz:

– Esta eleição tá no papo.

O menos radical responde:

– Que tanta certeza?

E o diálogo segue um breve roteiro.
– Vou apelar na justiça, mando prender meu adversário.
– Alegando?
– Que ele roubou meus quindins.
– Mas o cara é diabético, não vão acreditar na tua história.
– O eleitor odeia pobre e ladrão, de quindins, no caso.
– Vai ser preciso um bom lobby.
– Sim, o de que ele comeu quindins com sagu. Ninguém vai perdoar.
– Que culpa tem o sagu?
– O eleitor odeia sagu. Sagu lembra pobreza.