Ao primeiro sinal – Já pro xecape

 

A Marilda é uma amiga esotérica e espiritualista da ilha da magia, não poderia existir melhor lugar para ela. Fã da Doutrina, é incansável na ajuda ao próximo. Um dia tentei acompanhá-la, mas desisti antes do anoitecer porque tinha um compromisso dos diabos, bater uma carpeta no bar do Guedes que fica ao lado da Delegacia de Defraudações, e como jogo é jogo, não se pode ajudar o próximo, o adversário no caso, sob pena de entregar a “mesa”.

Outro dia me enviou uma mensagem transcedental, embora tenha vindo por e-mail, alertando para a chegada da “Era da Regeneração do Seres Humanos”, algo assim como separação do joio do trigo. “Os corpos que não refinarem suas energias não conseguirão ficar encarnados dentro desta dimensão, pois a outra imediatamente será instalada”.

O que me abalou é que ela me avisou muito em cima da hora, e tudo já era para o próximo ano.

Veio com uma história de que o sistema solar gira em torno de Alcione. Sou fã da Marrom, mas ao ponto da Via Lactea rodar abóboda e se render ao samba me pareceu um exagero.

Claro que Alcione é a estrela central da constelação de Plêiades e que o sol leva 26 mil anos para completar sua órbita ao seu redor. Seria bullyng pensar na tese de que se tratava mesmo da marrom e sua robustez.

O que mais me preocupou nisso tudo foi o tom de ameaça da mensagem, de que o tal Cinturão de Fóton que decompôs e dividiu o elétron, também anda pelas cercanias. Deduzi que esta criatura nenhum pouco sociável deve ser fotografo de jaqueta e cinturão carregados de filmes, baterias e outros trecos de apetrecho, que numa saraivada de flashes fez do elétron um picadinho.

O desespero bateu quando constatei que o brutamonte é o responsável pelos miasmas, não sei bem o que é, mas imagino que sejam doenças alérgicas que afetam os castelhanos, “Mi Asmas”

Não me considero supersticioso, mas bateu o pavor, e o primeiro sinal:

– Já pro Xecape!

Não é por nada, mas queria entrar o ano novo em folha, afastando logo esse mal da sambista e dos fotógrafos.

No dia seguinte, bem cedo, lá estava eu no Hospital Nossa Senhora da Divina Providência com um punhado de solicitações de exames, raio-x e ultra-sons.

Antes que os “Mensageiros do Amanhecer” se aproximassem com suas trombetas arrebanhando almas, madruguei em jejum num banco de sangue.

Cheguei a levar um livro de bolso do Galeano, pois em caso de uma demora ou desconforto, poderia ser ríspido com os enfermeiros, abrir o livro, recitar uma frase e por a culpa no autor.

A primeira ameaça de declaração de guerra ocorreu quando a atendente mandou entrar num armário, tirar a roupa e colocar um avental. O projetista deve ter sido um duende indignado com a raça humana. Custava aumentar mais 1 centímetro para cada lado e deixar o recinto mais folgado? Prá quê um cabide num armário de 30 centímetros quadrados?

O avental era tamanho P, ou encolheu na última lavagem. Desisti de pedir um numero maior quando ouvi a atendente reclamar prá outra no corredor relatando que um senhor do compartimento ao lado, protestou aos berros dizendo que não cabia naquele guardanapo e queria um numero maior. E em tom de ironia e sarcasmo uma disse prá outra:

– Diz prá ele que não temos lona de circo disponível… risos, muitos risos, gargalhadas.

Na situação de desvantagem em que me encontrava, comecei a perder a batalha. Encarei os inimigos mesmo assim abrindo a porta e aparecendo no corredor apresentando as armas de defesa, um tênis com meia, cueca samba-canção e aquele paninho imoral, mal cobrindo o umbigo. E seja lá o que a sorte me reservar.

A mesa de raio-x, bem que poderia ter um colchonete, e o minúsculo travesseiro mais parecia uma almofadinha de agulheiro.

– Não respira, não mexe…fruuu-friiii… respira!!!

Protestei quando senti um desconforto lateral no osso da coxa ao ficar de lado.

– Pernas encolhidas e com os braços para cima em forma de reza, ordenou a operadora da máquina de raio-x.

Fiquei ridículo parecendo um louva-a-deus prestes a ser triturado pelo terrível Cinturão de Fóton, que passeava de um lado para o outro no alto da mesa, dirigindo um raio de luz na minha direção, procurando o melhor ângulo para esmigalhar minha coluna. Já não me restava mais nenhuma dúvida de que teria o mesmo fim do elétron.

– Não respira, não mexe…. fruuuu-friiii…. respira!!!

“As conexões interdimensionais são feitas através de ressonância para sobrevivermos na radiação fotônica, temos que nos afinar a um novo campo vibratório” dizia o e-mail transcendental da Mirilda.

O meu próximo destino foi a sala de ultra-sonografia, onde meu par de rins seria pela primeira vez detalhadamente analisado.

Para descontrair, a auxiliar elogiou minha sábia providência:

– Veio prevenido com uma bermudinha por baixo heim!

Acho que foi mais um sinal, um aviso prá da próxima vez comprar um numero menor da samba-canção.

– Vai fazer exame de quê?

– Será que já vai dar prá ver o sexo da criança? …risos, muitos risos, gargalhadas… mas, só da minha parte, pois quando olhei pro lado ela havia sumido. Pergunta ridícula, ela não leu na ficha? Foi uma especie de vingança a provocação anterior quando chamou a samba-canção de bermuda.

O médico entrou na sala, e o gel que expirou da anca até a costela me fez voltar à infância quando o sorvete descongelava e escorria perna abaixo.

Saí praticamente do avesso, nem esperei a atendente retornar conforme orientação do doutor. Nunca pensei que voltar pro armário seria meu principal desejo.

Quando me dispensaram saí arrancando em terceira…

Na hora de pagar o estacionamento senti que andei me preocupando e ficando impressionado sem motivo, pois o peço cobrado, foi um teste cardíaco, ao qual sobrevivi desta vez, não sei na próxima.

Indignado, vi a capela do hospital aberta, entrei, encarei a santa, e pedi à Divina, providência.

 

O indignado doutor das ruas

A meteórica trajetória do vereador Thiago Duarte (Dr. Thiago) na Câmara Municipal de Porto Alegre é mais um exemplo que une trabalho, confiança e dedicação às classes menos privilegiadas. Um médico de periferia de uma das regiões mais remotas (sul e extremo sul de Porto Alegre) sai da suplência para a presidência da – casa do povo – em apenas dois anos. Na eleição de 2008 fez pouco mais de seis mil votos e esperou dois anos por uma vaga de titular. Na última eleição dobrou a votação, foram quase doze mil votos de confiança para colocá-lo no topo da carreira política. Atender num pequeno posto de saúde no bairro Lami gastando sola nas ruas dando bom dia boa tarde e boa noite e interceder pelos que vivem em comunidades distantes do centro da capital, excluídas do processo de gestão politica, é exercer o verdadeiro sentido de um mandato. Tal qual o artista, o político tem que ir aonde o paciente está. Os dois não sobrevivem isolados. A idolatria vem ao natural no disco ou no voto. Acima do catecismo partidário do corporativismo político e dos interesses individuais está a pessoa que elege um representante e dele espera ações para o bem coletivo.

É preciso conviver com a tendência global pela indignação onde os movimentos partidários sindicais ou associativos que se denominam representantes das classes estão sob ameaça. Os Indignados já deram uma amostra, em 2012, resistindo a ação policial que tentou impedir a entrada de mais de mil simpatizantes do 15M nas Portas do Sol de Madri. Por aqui não tem sido diferente.

 

Androvaldo e Quaresma – O suborno na sala dos espelhos

 

– Eu não tô a fim de pegar o pato sozinho, dizia o Androvaldo no salão dos espelhos, quase vazio.

Ele estava por todos os lados e falava consigo mesmo. Os espelhos da direita mostravam um Androvaldo tenso xingando a mãe do padre. Os da esquerda um Androvaldo sincero e disposto a ir até o fim com aquele desafio em que se meteu. Às costas estava Aquiles, um garçom de terno preto, camisa clara e gravata borboleta vermelha, trazia uma bandeja na mão esquerda sem copo ou comanda, abraçado ao Quaresma, um pato branco de bico amarelo-laranja, um marreco de Pequim, mas para os apostadores era um pato, um prato cheio para a platéia que se alvoroçava atrás dos espelhos.

O clube dos vidraceiros tinha como casa de apostas o salão dos espelhos, um octógono em forma de arena de onde era possível acompanhar competições como a mais nova modalidade: Largar o pato no picadeiro, sair em perseguição calçando meias de lã sobre a plataforma de tabuão coberta de cera. A pequena vantagem do pato é que ele voa, mas Androvaldo, bailarino da escolinha de artes cênicas, queria manter-se em pé, deslizando na pista como encenava o Lago dos Cisnes, na direção do pato.

Dada a largada o garçom lançou o Quaresma feito boliche mirando o meio do salão. Androvaldo partiu acrobaticamente usando um pé, depois o outro como se deslizasse sobre numa pista de gelo. A regra era não encostar sequer um fio de cabelo nos espelhos. Quaresma bateu asas e foi para um lado. Depois de passar lotado, fazer uma pirueta e um sit-spin perfeito, Androvaldo quase encostou o traseiro num dos espelhos. Voltou à carga, mas desta vez fazendo um zig-zag para confundir Quaresma que tentou voar em direção aos demais patos, nada mais do que sua imagem multiplicada nos espelhos.

Quaresma procurava os cantos o que dificultava o campo de ação de Androvaldo que a esta altura já maquinava uma saída maquiavélica para garantir o dinheiro das apostas do clube dos vidraceiros. Realimentando a idéia inicial de que não pegaria o pato sozinho, resolveu que usaria um laranja para consumar o fato. Afinal em toda a falcatrua sempre tem um laranja. Notou que e não seria difícil encontrar um, já que o garçom que ali estava vivia de gorjetas e por certo não recusaria uma propina, mesmo que viesse em forma de suborno.

Era um show de sincronia na pista até que o pato passou a demonstrar sinais de cansaço. Era a hora de agir, mas o pato era esperto e usou Aquiles como escudo, posicionando-se junto aos seus calcanhares. Afinal, Aquiles era seu dono e o criara desde que, talvez por descuido, foi chocado por uma galinha. Não guardava rancores por ter sido abandonado pelos pais ainda na casca do ovo.

Armou-se a grande oportunidade e sem perda de tempo, Androvaldo partiu na direção do pato e do garçom, num footwork perfeito, aplicando uma rasteira nos calcanhares de Aquiles que em milésimos de segundos desabou sem dó nem piedade sobre o coitado do Quaresma que mal pode fazer quá!!!

Era o fim de uma luta onde o pobre do pato, amassado e excluído, levara um golpe traiçoeiro e, como sempre, fora das regras do jogo.  Aquiles pegou o pato para Androvaldo que ficou com o dinheiro das apostas. O coitado do Quaresma pagou o pato.

Enquanto ainda cambaleava na pista juntando suas penas, o apostador contribuinte protestava o dinheiro pago para assistir à roubalheira. Perto dali Androvaldo colocava uma “ajudinha” no bolso do garçom e outra na mão do juiz… sim, havia um juiz para aplicar as regras.

 

 

Casaldáliga sai de casa

Conheci dom Pedro Casaldáliga nos remotos anos oitenta na Encruzilhada Natalino, quando se formava o primeiro acampamento de resistência à expulsão de agricultores das terras indígenas do norte do Rio Grande do Sul. A desacomodação de colonos deu origem ao Movimento Sem Terra (MST) no Brasil. Casaldáliga já era bispo de São Félix do Araguaia na parte sul do estado de Mato Grosso.

Veio de lá em defesa do padre Anildo Fritzen, à época, pároco da igreja matriz de Ronda Alta. O padre sofria com a ameaça de expulsão do país pelo regime militar do presidente João Figueiredo e se cercava do apoio de expressivos representantes da esquerda como forma de blindar sua permanência frente ao movimento.

Já se passaram mais de trinta anos e leio no site http://www.sul21.com.br que dom Casaldáliga continua perseguindo a sua missão de proteger parte frágil do processo envolvendo questões sociais onde é evidente a ameaça do mal contra o bem a qualquer preço, desta vez envolvendo a desocupação para a devolução da reserva do povo xavante Marãiwatsédé, ocupada por fazendeiros. O bispo – acoado por boa parte do tabuleiro – teve que sair de casa e escoltado para fora da cidade pela Polícia Federal por estar recebendo ameaças de morte.

Agora é dom Pedro que precisa de blindagem e nem sei por onde anda o padre Anildo, nem se continua na igreja, ou se ainda tem uma paróquia.

 

…eu resisti também cantando

Poesias que tem picardia metáfora intertexto e sobretudo coerência com o modo de pensar e viver do Paulo Monteiro. O tom fúnebre e seco do coturno batendo a laje cada vez mais fincada no chão de tantas marchas em direção ao matadouro. Ou a lucidez dos campos protegendo cidadãos de bem lutando contra o mal e escondendo almas charruas abatidas por lanças amigas dos guerreiros do bem do outro lado. Afinal as searas são feitas por mãos de escultores que dão formas ao chão. A terra agradece dando-lhes o fruto da semente que confiaram a cada sulco.

O poeta também planta versos em linhas pautadas que vão germinando e crescendo sobre a folha branca. Mesmo sendo triste  melancólica ou bruta a poesia vem sempre acompanhada de um tom suave de uma melodia que torna serena a descrição das mais sangrentas batalhas. O dom do poeta é cantar em versos as feridas abertas pelos senhores da guerra.

Temas sociais e políticos explicam o cotidiano de um mundo que cada vez mais desaprende a conviver em sociedade. Um mundo em que o amor sai de casa para violentar as ruas. Um mundo que oferece tantas coisas boas mas só interessam as ruins. Um mundo que esqueceu os valores mas vive de cobranças. Um mundo em que a musica une continentes domina mentes e pode recuperar nações decadentes. Musica que não tem sexo religião ou descendentes. Alguns resistem a bala de fuzil… enquanto outro resistem cantando.

 

Na Ponta da Agulha

Encontrei na feira do livro o sempre DJ (maiúsculo) Claudinho Pereira que está lançando o seu “Na Ponta da Agulha” com uma minuciosa descrição do cenário musical de Porto Alegre nas ultimas seis décadas. Claudinho além de viver ao lado, teve contato e levou para a os embalos de bares e casas de shows, personalidades da música nacional e mundial que cruzaram Porto Alegre, revelando suas peculiaridades e particularidades. Não vou revelar, mas João Nogueira certa vez se meteu a cantar inglês num boteco e… / Chegando tarde, vindo do interior, acompanhei muito pouco ou quase nada deste período musical. Lembro vagamente de lugares como Rabbit, Le Club, Encouraçado e tantos outros, agora passados a limpo nesta viagem de resgate do comandante Claudinho. Pedi passagem, embarquei neste disco e o lado “A” já está acabando, que venha o “B”.

– Victoria saiu com um livro autografado pelo autor ali mesmo na Praça da Alfândega.

 

 

Contos do Sul

A Galinha Missioneira

Certa vez, perto de Palmeira das Missões, cheguei num bolicho e perguntei o que tinha de almoço rápido.
– Galinha, arroz, feijão e salada de cebola.
– Pode ser.

O bolicheiro virou-se para a cozinha e gritou:
– Nena, galinha.

Olhei pela janela e quase não acreditei, Nena deu de mão numa franga que descansava à sombra de um pé de camélias.

Em menos de dez minutos já era possível sentir o cheiro da carne fritando.

Em seguida a franga veio à mesa com suas guarnições. Tive a nítida impressão de que a coxa e a sobrecoxa ainda esperneavam…

Crônica de Madri / Uma história real

O alvoroço causado pela medida do governo argentino ao expropriar a petroleira Repsol YPF não tinha hora melhor para acontecer. Cheguei a Madri no final da tarde da segunda-feira, 16/04, e tive certa dificuldade em saber o que se passava no reino da Espanha. As TVs transmitindo ao vivo declarações da rainha Sofia, confusas, até então. Mais tarde fui entender que se tratava de questões cotidianas envolvendo avô e neto da família real, que resolveram brincar com arma de fogo e como resultado um fraturou a anca e o outro deu um tiro no pé. Fato que não teria importância se os envolvidos não fossem o rei Juan Carlos da Espanha e o filho da filha do rei, Felipe, de 13 anos, 5 candidato na linha sucessória ao trono. Antes tem a mãe infante Elena e o tio, o principe Felipe de Astúrias.

Enquanto, longe dos problemas da Corte, a rainha Sofia estava na Grécia passando a Páscoa, dom Juan Carlos, para quebrar a rotina do castelo, resolveu caçar uns elefantes na África. Para a sorte dos elefantes, o rei escorregou e caiu, fraturando o traseiro contra um degrau da casa do amigo que o recebia. Já o neto ficou em casa, porque uma semana antes, quando treinava tiro ao alvo, para mais tarde seguir os caminhos do avô, esqueceu que o cano da arma deve estar sempre apontado para o inimigo, e atirou para baixo. A ida para a África foi um prato cheio para os opositores que acusaram o monarca de ter abandonado a Espanha num momento de crise econômica.

E não tardou muito para se dar início a uma série de ataques que poderiam sair do controle não fosse a intervenção de Cristina Fernandes, como é tratada aqui, ameaçando a soberania. De um hora para a outra, os ataques à realeza cessaram e o bombardeio passou a cruzar o oceano. Um programa de televisão do canal 3 ironizou Cristina dando seu peso, medidas e revelando os 14 milhões de euros da sua conta bancária bem como, por meio de animação gráfica, mostrou a transformação da presidente antes e depois da cirurgia plástica e da aplicação de botox para destacar o contorno dos lábios.

Já nas ruas, o povo anda mais preocupado é com a economia que não vai nada bem, sintoma que pode se observar no comércio, liquidando os estoques para fechar as portas. Satisfeito mesmo era um argentino abastecendo o carro num posto Repsol em Madri, na manhã seguinte ao anúncio da expropriação. Parecia orgulhoso, como se já estivesse colocando gasolina nacional no tanque de combustível.

Enquanto o rei enfrentava perigosas manadas de elefantes em terras distantes, o reino corria perigo e era atacado por uma mulher obstinada a desafiar reinados e ameaçar soberanias. Poderia ser o tema de um livro de história: o monarca volta ferido, recolhe-se em seu castelo à espera do reconhecimento dos súditos, que não estava sendo nada bom. No entanto, o grande desfecho foi ofuscado pelo providencial ataque da madame Kirchner. O rei e a rainha agradecem.

Confira o artigo publicado no jornal Correio do Povo de Porto Alegre/Brasil no link –  http://www.correiodopovo.com.br/Impresso/?Ano=117&Numero=203&Caderno=0&Editoria=108&Noticia=414492

Cartas de Coimbra / Contos do Rio Grande

“… o jornalismo fotográfico gaúcho perdeu um pouco da graça depois que o Ronaldo Reis aposentou sua máquina para grandes coberturas”.

O destino quis que no ano de 1999 último do século e do milênio eu fosse desembarcar de mala e cuia na última das maiores cidades do extremo sul do Brasil, ou a primeira se vista do lado oposto.

Rio Grande me recebeu de braços abertos e logo foi possivel sentir a hospitalidade daquele povo de forte influência lusitana, a começar pelos seus prédios antigos que guardam a história de uma cidade que em 29 anos se tornará tri-cenetenária, que tem uma igreja de quase 500 anos, o time de futebol mais antigo do Brasil e uma das mais extensas praias do mundo.

Também foi um ano e convivência com alguns dos mais terríveis fatos da história daquela cidade. Um navio que derramou ácido no canal e acesso ao porto e comprometeu a pesca na Lagoa dos Patos desempregando centenas de pescadores, afetando a economia e sobretudo colocando em alerta a população inteira sobre o perigo de uma bomba quimica chamada Bahamas, um navio de bandeira maltesa, cercado de mistérios, que deveria ter sido afundado fora da costa brasileira, foi sequestrado em alto mar quando se dirigia para a zona da morte e até hoje ninguém sabe do seu paradeiro.

Neste mesmo ano uma lama gosmenta de textura grudenta se desprendeu do mar e cobriu a principal área de banho da praia do Cassino. Desde os molhes da barra que é o canal de entrada e saída de navios para o porto e das vagonetas movidas à vela sopradas pelo vento num passeio mar adentro, até bem próximo do desembocadouro dos veranistas na praia, não sobrou um centimetro de areia que pudesse acomodar um único banhista.

A fúria do mar durante uma tempestade vomitou toneladas de barro acumulado na boca do canal, resultado do manejamento inadequado do solo às margens de rios e arroios que desembocam na Lagoa dos Patos. Todo o tipo de detrito, lixo e imundice produzida pelas mãos do homem foram se aculmulando na garganta da única ligação da lagoa com o mar. O mar não quis aceitar a sujeira e mandou tudo de volta sem dó nem piedade, como se dissesse: – Quem pariu Matheus que embale! Como os apóstolos na história bíblica, não aceitou o ônus deste dividendo e devolveu com juros e correção monetária.

Como se não bastasse depois do ácido e da lama a execução sumária de casais que faziam das dunas do Cassino, ponto de encontro nas calmas noites litoraneas dos mares do sul, colocou em alreta a cidade toda.
De onde vinha o serial killer que assombrava pais e mães de adolescentes surpreendidos com violência quando viviam momentos de ternura?. Depois de muitas mortes, de areias manchadas de sangue, o malfeitor foi descoberto. O assasino vinha das docas. Morava alí, e convivia no dia a dia da população, acompanhando os fatos pela mídia como se não fizesse parte da história.

Convivi com muitas pessoas nesta cidade portuária também conhecida pelo carinhoso apelido de Noiva do Mar, pessoas simples ou influentes que sentavam-se à mesa para beber nas tabernas. Os outros que me desculpem, mas teve um camarada que registrou em imagens todos os fatos narrados até aqui e muitos outros. Semana pós semana, o clic revelado pela máquina fotográfica do Ronaldo Reis era estampado na capa do jornal Zero Hora. Fotos cheias de litoral, baleias e toninhas mortas, colonias de lobos marinhos e pinguins migrando das terras geladas da Patagônia, aves migratórias do Banhado do Taim, Lagoa dos Patos e Mirim, o Porto de Rio Grande e suas embarcações gigantescas que nada mais eram doque visitantes que vinham de longe movimentar a economia, as docas, o canal da Barra com pescadores trazendo lanços de anchovas e tainhas que mal cabiam nos barcos, uma infinidade de fatos produzindo uma uma variedade de imagens que pareciam falar por sua objetividade, novidade, por despertar a curiosidade do leitor. E o fotógrafo estava lá, na hora certa e no lugar certo, no melhor angulo.

O Ronaldo era um desses caras prá ficar até altas horas jogando conversa fora enfileirando garrafas sobre a mesa.
Certa noite numa taberna chamada Caçarola na Luiz Lorea no centro de Rio Grande, cujo proprietário atendia pelo diminutivo de Luiz, Ronaldo e Eu ocupavamos a mesa número 1.
Quando já passava da meia noite, resolvemos dar uma olhada num galo que criavamos nos fundos do pário, tratado com os restos da comida que sobrava na cozinha. Era um São Gonçalo, de briga, lustroso e louco prá se lançar num rinhadeiro. Pelo o que soube o galo nunca foi desafiado ou desafiou algum outro penachudo. Restos de arroz, massa, feijão e algum que outro naco de carne e salada sem sal nem vinagre, faziam parte da dieta do dia do Gonçalão.

O Luizinho que providenciava os ultimos ajustes na cozinha, antes de fechar a taberna nem notou a direção que haviamos tomado. Quando retornou viu a taberna vazia. Como tudo era no pindura a gente entrava, comia e bebia e ia embora sem pagar a conta as vezes sem se despedir do dono, recolheu copos e garrafas, apagou as luzes, fechou a porta e foi embora pros lados da praia do Cassino onde morava.
A porta dos fundos no entanto ficou aberta e foi por ela que retornamos à mesa. Um breu total, não se enxergava um palmo. Os isqueiros imuminaram o salão até que se encontrasse a chave da luz.
Estávamos presos num bar com o freezer transbordando de garrafas de cervejas ao ponto. Como na época celular era artigo de luxo, precisamos esperar o Luizinho chegar em casa para ligar pelo telefone fixo no balcão e negociar o resgate.
– Ô meu, é o Ronaldo, que horas voce abre a taberna.
– Ué, o poque da pressa prá voltar.
– Voltar nada, a gente quer sair.
O jornalismo fotográfico gaúcho perdeu um pouco da graça depois que o Ronaldo Reis aposentou sua máquina para grandes coberturas. Por onde andas velho amigo!?… e o galo, que fim levou o galo?

Flávio Damiani / Desde Coimbra, Portugal